Eu sei que sempre tive sorte. Fui criada em um bairro de classe média, estudei em boas escolas, meus pais sempre foram muito preocupados com a minha educação. Como eu disse, dentre os 51% de pardos e negros desse país, tive sorte. Já falei sobre como foi ter uma infância e adolescência em bairros de classe média, não vou me ater a este detalhe. O detalhe, ínfimo na vista de alguns, é o meu lugar no mercado de trabalho.

Vejam, eu sou formada em comunicação, trabalho com produção de eventos e com publicidade. Outra vez, sorte. Ambas são áreas em que a liberdade de ideias, identidades e comportamento são permitidas. Mas a vida não é assim tão sortuda, nem mesmo para mim. Mas não vamos fazer deste “apenas” um post pessoal. Sei que meu depoimento ajuda a outras companheiras negras e gordas a não se sentirem excluídas, reafirma o nosso propósito, mas quero falar além de mim. rs

Vamos a alguns dados. 38% das famílias são chefiadas por mulheres, mas em lares em que só há um dos pais, 87% deles é chefiado por uma mulher. E as mães negras e pardas somam quase metade dos 87%. Apesar do número e do avanço do número de mulheres negras empregadas, o salário ainda é menos da metade da média de um homem branco. Os dados são do IBGE. Em um levantamento da Catho em 2000, 73% dos presidentes e diretores e 68% dos gerentes marcaram “ser gordo” como uma característica primordial para não contratar alguém.

E daí tivemos, em 2011, aquele caso das professoras do interior de São Paulo que não puderam tomar posse em seus cargos por estarem acima do peso. Já fizeram as contas, não é? Pesquisas nos EUA (Universidade de Michigan) mostram que mulheres obesas tendem a ter empregos que paguem menos e exijam maior força física e que não lidem diretamente com o público para a venda, como babás, enfermeiras e cozinheiras. Daí que eu chego a um último dado. Segundo empresas de RH e recrutamento, 90% da primeira impressão é a aparência.

Somaram tudo? Calcularam direitinho? Pois é. No que diz respeito à minha experiência, nunca foi fácil me empregar e sei que além do fator sorte, tive de correr atrás e estudar muito para conseguir chegar onde cheguei. E ainda não cheguei aonde eu quero ainda, mas só tenho 30 anos, chegarei lá. Como o meu mundo é da arte e da comunicação, o fato de eu ser negra e usar cabelo natural é “modinha” para muitos, é visto como exótico e “autêntico”, então posso usar meus cabelos à vontade.

Mas observo ambientes mais formais que o meu, quando faço visitas a clientes. Não só a minha vestimenta precisa ser a mais polida possível, como maquiagem, cabelo, sapatos, bolsa, unha. Sei que, se quiser ter a atenção dessas pessoas, devo parecer “profissional”. Partindo de um ponto mais observador e contextualizado (afinal, minha ciência é aplicada à sociedade, observo movimentos e comportamentos) com a “revolução” negra que estamos vivendo, percebo que espaços estão sendo criados, alguns à força, outros mais calmamente, para a mulher negra no ambiente de trabalho.

Mas apenas se ela for magra. A mulher negra gorda não vai ser enviada para a negociação com os clientes, não vai ser a porta-voz da empresa, não vai ser a escolhida para conquistar empatia. A gorda negra pode ter um papel menor, lá nos fundos do escritório, mas manda a loirinha ou aquela “morenaça” por que os clientes vão ficar mais “receptivos”. Observando bem, não me recordo de nenhuma outra negra gorda nos lugares onde trabalhei, a exceção da moça da faxina.

Então o que eu tenho a dizer para a amiga negra e gorda que está me lendo agora? Continue trabalhando, trabalhe o dobro e estude o triplo. Mas não para provar ao seu chefe que você tem capacidade. É para você mesma jamais se esquecer disso e revidar diante da mais remota possibilidade de te questionar sobre o assunto. Não peço, porém, que você seja uma rocha. Há dias em que tudo dá errado e é ok errar, é ok chorar, é ok se sentir frágil. Faz parte de sermos humanas e termos momentos de desestabilização e fragilidade, temos apenas de encontrar nosso caminho.

Infelizmente se o contato com clientes ou o convencimento for necessário no seu ramo de atividade, você precisa estar bem vestida. Mas isso não quer dizer roupas caras, quer dizer roupas limpas, não amassadas. Já fui a reuniões com batom vermelho e camisa idem. Pense bem se está na carreira certa para você (que combine e que vc goste e não uma que te “enquadre” ) e o mundo está aí para ser vencido. Let them come!

Imagem de destaque – reprodução web

 

  • Denise A. Tobias

    Gostei muito, muito de seu post.
    Você me fez refletir.
    Continue escrevendo.

  • Há poucos dias atras combinei um churrasco com a turma da faculdade e ao comentar meu cargo na atual empresa que trabalho fui ironizada, “sou excecutiva de negócios”. Fiquei bem irritada mas, resolvi que não iria responder, agora pensando bem acredito que esse meu Ex colega pensou exatamente o quão é impossível uma mulher como eu, negra e gorda exercer tal cargo, talvez essa visão de negras apenas em cargos menores ainda seja geral, talvez a sociedade até prefira assim, talvez o racismo parta de pessoas tão próximas que nos pegue ainda desprevenidas, não quero ser uma exceção, quero ser julgada pela minha capacidade e não pela minha cor, peso ou classe social.

  • Ana Poty

    Muito bem. Interessante seu texto e e uma situaçao real pra nos mesmo para as negras magras. Sou gestora publica constato a competitividade e preconceito no meio profissional.

  • Muito legal

  • Neusa Maria Pereira

    Admiro seu otimismo, mas a bem de minha verdade digo que as coisas não são tão simples assim. Também sou formada em Comunicação, na área de jornalismo. Em minha opinião, Comunicação é uma área profissional muito racista. Acredito mesmo que você tenha sorte por conseguir tirar o racismo de “.boa”. Comunicação significa vender ideias, passar credibilidade, ter biotipo de acordo com a padrão racial tradicionalmente aceito, portanto branco. A classe dominante credita que negros e negras não possuem pertencimento de nenhum dos itens citados. Há quase quarenta anos, uso cabelo natural. Adotei-o num momento em que não era “modinha” e sim tomada de consciência com a própria identidade.Foi difícil de ir contra minha própria família que não acreditava que eu conseguisse alguma coisa com minha aparência, receosa com as represálias que pudesse sofrer por conta de minha atitude. Com muito esforço e dedicação trabalhei em vários veículos de comunicação. Mas sempre sendo a única ou uma das únicas nas redações de maioria branca. Isolamento que nos deixa vulneráreis, impotentes frente o racismo não declarado. Os racistas não nos querem juntos, porque sabem o que isto representa,.
    O jornalismo escrito e televisivo são áreas difíceis para os negros, principalmente para a mulher negra. Estas áreas, ainda pertencem a pessoas vindas da classe média alta. Incomoda-me a quantidade de brancos existentes na televisão brasileira, num país onde 50% da população é negra. Para os executivos da tv comercial ou pública não somos padrão de beleza nem passamos credibilidade. Num país no qual a televisão é o maior centro de informação e formação de pessoas, a televisão cumpre o nefasto papel de manter no imaginário coletivo a ideia de que os brancos têm mais direitos por serem brancos, por isto, os de outras raça têm de embranquecer na mente e no físico se querem um pedacinho de igualdade. Esta filosofia de exclusão do negro e da mulher negra da televisão passa para todos os setores da vida brasileira. Enquanto não lutarmos para uma democratização dos meios de comunicação, uma nova maneira de pensar a sociedade será sempre um sonho a conquistar. E a falsa integração do negro que assistimos agora, será apenas uma moda passageira..

    • Sou publicitário e concordo com vc. A mídia impõe imagens “vendedoras”. Veja na entrevista que Joel Zito fez com o Walter Avancini, sobre a novela Gabriela (A Negação do Brasil – Joel Zito Araújo – Brasil, 2000).