O Seminário convidou as Blogueiras Negras para dois momentos: a roda de diálogo “Ser negro e negra no Brasil do século XXI” (a ser realizado na sexta-feira, dia 06/12) e o minicurso “Mulheres Negras”, ministrado na tarde do dia 06/12.

No primeiro dia do seminário, uma mesa de apresentação contando com a presença do vice-reitor da Universidade Federal de Uberlândia, o coordenador do Neab (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros) junto com as coordenações de pós-graduação e extensão abriram os trabalhos da noite, fazendo referência aos anos anteriores de trabalho e do reflexo da luta daquela universidade para a construção de outras realidades e mudança de mentalidades.

Em seguida, a professora Vera conduziu a conferência de abertura, apresentando sob a ótica da Lei 10.639 as propostas da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira). Mostrando a realidade e desafios da Universidade, que tem campus no sertão do Ceará e interior da Bahia, a professora Vera Lúcia trouxe os objetivos da universidade [que é a integração e a educação através de uma ótica pós-colonial e internacional] que estabelece relações com os países lusófonos – dentre eles Cabo Verde, Angola, São Tomé, Guiné Bissau e Timor Leste.

De todos os relatos, um dos mais interessantes foi a apresentação do novo curso de Pedagogia da Universidade, que capacitará professores para ensinar com base na Lei 10.639 e dentre as disciplinas da grade curricular estão “Ensino da ginga na capoeira”, “Religiosidade e Culto dos Orixás nas religiões de matriz africana”.

A noite terminou com um Baile Black para integrar os participantes à comunidade, com a presença da Banda Dikika.

No segundo dia, as atividades começaram com as comunicações orais, que infelizmente aconteciam em salas diferentes e ao mesmo tempo. Com destaque para o trabalho “O preconceito como dispositivo ideológico da escola neoliberal: um currículo para a alteridade às avessas” de Júlio César Augusto do Valle, que abordou como a incidência política se dá através dos atos preconceituosos e racistas na escola particular onde ensina. E o trabalho da prof Sandra Regina que falava sobre o impacto da Lei 10.639 no cotidiano das escolas públicas de São Carlos/SP, do qual só consegui ouvir a parte final.

A tarde, a Roda de Diálogo Ser negro e negra no Brasil do século XXI começou meia hora depois do previsto, com aproximadamente 50 pessoas no espaço. Facilitada por mim, junto com Vilma Neres e Marina Alves (ambas do CEAP), começamos com uma atividade de acolhimento, com uma dança circular e depois uma breve apresentação das pessoas presentes.

Em seguida, abrimos a roda, introduzindo os assuntos-chave com o vídeo Orí de Beatriz Nascimento e provocando os presentes: falamos de memória, história, estratégias de ação contra o racismo, representação e retrato do negro na mídia, iniciativas e destaques de produções genuinamente negras, identidade e sexualidade.

Depois, propomos uma atividade de auto retrato, onde as pessoas deveriam se desenhar e depois descrever os desenhos e auto retratos: foi nessa hora que emoções, histórias e memórias vieram à tona, com cartas emocionadas, desenhos abstratos e representações carinhosas de negritudes diversas. Finalizamos a roda com mais contribuições e com os contatos das pessoas à disposição.

A noite, a conferencia “O movimento de Mulheres Negras” com Suelaine Carneiro trouxe contribuições fundamentais para o entendimento do Movimento Negro e a trajetória deste com base na atuação das mulheres. Numa longa fala, Suelaine pinçou acontecimentos históricos, trouxe as contribuições atuais das mulheres negras nos pactos internacionais e questionou o feminismo branco e hegemônico na inclusão das especificidades da agenda das mulheres negras em suas pautas. Finalizou convidando a todas e todos para a Marcha das Mulheres Negras em 2015 e incitou a participação de todas num projeto de revindicação e tomada de poder institucional.

O dia findou com uma ida a um bar chamado Senzala, de um antigo morador da cidade, que dentre outras coisas, nos contou histórias sobre o surgimento da Umbanda na cidade e sua especial atenção aos iniciados ali presentes.

O último e terceiro dia mais Comunicações orais, das quais não acompanhei nenhuma, pois pretendia repassar os slides do mini curso ao qual fui convidada orientar. Foi quando ao meio dia, chegamos para o lançamento do livro do professor Pedro Barbosa e logo em seguida partimos para o minicurso “Mulheres Negras”.

Com mais de 30 inscritas, infelizmente somente um pouco mais da metade compareceu: 16 mulheres. Assim, diminuímos o espaço e fizemos uma roda, no qual julgamos ficar mais democrática e participativa aquela nossa interação.

Havia mulheres de diversos segmentos: professoras de ensino infantil, trabalhadoras da justiça, profissionais de saúde, evangélicas, representantes de terreiros e estudantes de ciências sociais, letras e geografia. Com esse perfil de mulheres diversos, alguns cuidados foram tomados, mas as discussões foram feitas de maneira bastante respeitosa e sadia. Nas atividades, as mulheres contribuíram bastante, em especial quando falamos do filme “Dia de Jerusa” – onde elas se emocionaram e falaram bastante sobre produções midiáticas e representações.

Finalizamos com proposições dos dois lados: algumas mulheres disseram que como estratégia irão trabalhar na formação de professores e não somente com as crianças; outras sugeriram que produzir e incentivar a produção por parte dos seus pares (nesse caso, as trabalhadoras da saúde) é uma estratégia que pode dar certo; E pra fechar, levei algumas produções que julguei ajudar no caminho para uma abordagem no assunto nos diferentes espaços: a revista em quadrinhhos “La Chola Power”, o livro “Pele da Cor da Noite” de Vanda Ferreira, que propõe um novo projeto pedagógico baseado nos saberes da comunidade de terreiro e amostras do projeto “Planos de Aula” dentro do portal Geledés.

As mulheres se sentiram muito felizes e conversaram bastante, tanto que extrapolamos a hora do minicurso. Finalizamos o dia no Samba de Terreiro, no Terreirão, numa apresentação única da banda Mistura Fina – que tinha uma criança de 10 anos comandando a percussão.