Uma amiga costuma dizer que lidar com dinheiro é universalmente um problema pra quem não tem, porque não tem e pra quem tem, porque nunca basta. Levo minhas finanças mais ou menos assim, débitos e créditos na tentativa, às vezes vã, de fazer o encerramento do resultado de modo positivo. Faço provisões na medida em que os resultados anteriores permitem e as surpresas não acontecem. Administro os custos sem contudo ratea-los na departamentalização das áreas de atuação que a vida me impõe, o que é uma pena. Administro meu balanço financeiro e patrimonial na mesma medida que suas demonstrações evidenciam o quanto minhas escolhas descrevem o nível de dificuldade que a apuração do resultado define.

Sim, eu sou graduanda do curso de Ciências Contábeis em uma faculdade particular de Salvador, é uma instituição referência na área e vem formando profissionais contábeis a mais de 100 anos. A contabilidade na vida prática é menos complexa do que na vida acadêmica, no a dia a dia a gente paga ou não paga. Academicamente esse ato simples vem esmiuçado em provisões, reservas baseadas em tributação, leis, multas e decretos; teorias e uma infinidade de razonetes que coloca cada coisa no seu devido lugar, como se receita, custo e resultado fossem determinadas apenas pelo fechamento da Demonstração do Resultado do Exercício – DRE.

Desde a fundação da instituição que estudo, a contabilidade mudou muito, guardaram-se os livros e abriram-se softwares contabilidade, diferente da escrituração contábil e da caligrafia perfeita do contador, temos hoje sistemas integrados capazes de com um toque demonstrar toda movimentação de uma empresa.

A modernização da área fez com que outras vertentes fossem incorporadas ao escopo da profissão, ampliando as possibilidades do mercado de trabalho, a própria evolução da legislação e principalmente as questões prementes da sociedade como a ambiental, por exemplo, também foram responsáveis por essa modificação. Nesse bojo o perfil do profissional contábil também se modificou, antes um solitário apenas em companhia dos livros contábeis; hoje astuto, dinâmico e, sobretudo competente, conduz equipes multidisciplinares, lidando com gerenciamento de informações e pessoas, apto a influenciar na tomada de decisões em empresas de qualquer porte do mundo corporativo ou da administração publica.

Essa descrição nos leva a compreender ter sido essa, por muito tempo, uma área predominantemente masculina. Mulheres no passado não eram tidas como capazes de tamanha precisão. A entrada das mulheres no mercado de trabalho e suas crescentes conquistas também contribuíram para a mudança de mentalidade na área contábil, o que beneficiou e aumentou a presença feminina entre esses profissionais responsáveis por pensar de forma gerencial e dar maior agilidade ao processo de tomada de decisão, em geral as mulheres são mais racionais.

Pesquisas sobre o recorte de gênero e raça no mercado de trabalho vêm sendo cada vez mais comuns para compor dados que debatem e formulam sobre políticas de emprego e de incentivos para igualdade no mundo do trabalho. Na área contábil, ainda que existam grandes congressos para mulheres contabilistas, o recorte de raça não é mencionado nem para homens e muito menos para mulheres.

Esse recorte na instituição que estudo é visível, o quadro docente é composto de maioria hetero-cis-branco, entretanto ouso dizer que há mais mulheres do que homens do lado de cá do quadro, hoje branco.

Gosto quando cruzo com elas pelo pátio e corredores, primeiro porque me da sensação de identificação, como se não estivesse só no caminho e segundo porque elas têm personalidade, com os mais variados tipos de cabelos e trançados e suas representações religiosas estampadas em contas e em branco.

O ambiente acadêmico, guardadas as devidas proporções, é o espelho do mercado de trabalho e da sociedade nas suas conquistas e, sobretudo, nas suas lacunas. Nesses quatro anos tive apenas uma professora negra e esse quadro se repete na profissão como um todo. A não presença de docentes negras em quantidade é reflexo da reprodução de uma organização rígida no que tange gênero e raça numa sociedade que não entendeu o direito amplo e irrestrito de todos e todas independente de raça, gênero, opção sexual, crença religiosa, idade ou classe social a educação e ao conhecimento.

A dificuldade das mulheres negras em ascender academicamente reside no cômputo de elementos como preconceito e racismo, seja na dificuldade no acesso ou em sua manutenção na universidade, porque as estruturas de ensino superior ainda reproduzem um pensamento que nutre a falsa democracia racial.

As conquistas do movimento feminista levaram um grande contingente de mulheres às universidades, os bancos da academia deixaram de ser masculinos. Entretanto, ainda que muitas tenham conseguido sair da cozinha, o número de mulheres negras nas profissões mais badaladas no mercado é muito pequeno, até mesmo porque sempre nos foi “dado o direito” às profissões de cuidado como assistência social, pedagogia ou magistério, enquanto mulheres negas ficam relegadas às profissões como domésticas, babás e cuidadoras.

Eu e outras mulheres negras contrariamos a dura realidade das pesquisas, na medida que ingressamos na universidade e estamos construindo nossas carreiras. Eu pretendo ascender acadêmica e profissionalmente como contadora, entretanto esse caminho tem nuances que valem a pena serem pensadas: sou negra, sou mãe e sou solteira. O que torna essa trajetória mais complexa, porque encaro três jornadas de trabalho e toda a responsabilidade da maternidade.

Sair da invisibilidade não é só uma questão de incentivo do estado ou políticas publicas de inserção, exige mudança no pensamento estruturante da sociedade em permitir que os espaços sejam ocupados por nós mulheres negras, sem fazer das especificidades dessa subida um impeditivo ou uma justificativa para torna-la mais difícil.

Lendo pesquisas e estudando as estatísticas pude perceber que os problemas não mudaram, houve ganhos, sempre há, nenhuma luta é completamente inglória. Entretanto, para cada ganho nascem uma ou duas trincheiras diferentes a serem ultrapassadas.

Fazer conta é fácil, mas como nas provisões contábeis a solução vai depender diretamente do resultado do ano anterior, nesse caso especifico vou esperar 2015 para avaliar supostas conquistas atingidas nesse exercício, enquanto isso vou distribuindo nos meus razonetes os débitos e os créditos, esperando sinceramente que o resultado desse confronto gere resultados positivos e satisfatórios pra mim e para aqueles que travam as mesmas batalhas que eu.

Imagem de destaque – The grio