Nos últimos meses tenho ouvido com mais frequência e indignação a seguinte frase: “você vê preconceito em tudo”. Não era apenas de uma ou duas pessoas, mas sim de quase todo o meu círculo social e família. Passei a rever as minhas críticas e as minhas opiniões, repensando se eu realmente “via preconceito em tudo”.

Percebo que, para grande parte das pessoas com as quais convivo, os discursos racistas da mídia e da sociedade em geral, são comuns e despretensiosos, isto é, apenas “coisa” da minha cabeça. Em uma das minhas últimas discussões, levantei o caso da ex-globeleza Nayara Justino. Estava eu, numa roda de colegxs, feministxs inclusive e brancxs. Neste ano, Nayara sofreu diversas críticas de caráter extremamente racistas e sexistas, sobretudo, por não se encaixar nos padrões da “mulatologia”. Isso mesmo: como se precisássemos de uma área de conhecimento para descobrir mulheres negras, ou melhor, mulheres negras (e bonitas). Não, eu não vejo racismo em tudo. Eu não preciso de “mulatólogos”. Nenhuma pessoa negra precisa.

Por vezes, não há um espaço, peculiar e específico, para se pautar o feminismo negro nos movimentos feministas. Embora para nós – mulheres negras, militantes e feministas – esteja estampado que o machismo contra a negra é mais cruel, certos grupos feministas chegam a desconsiderar esse fato. Minimizar a luta desses movimentos contra os discursos e atitudes machistas não é o objetivo, mas refletir sobre a necessidade singular de se escutar a voz da mulher negra.

“As negras são hipersexualizadas, mas as brancas também”. Sim, mas essa questão vai muito além.

A experiência da opressão é dada, sobretudo, pela posição que ocupamos numa matriz de dominação em que raça, gênero e classe social relacionam-se em diferentes perspectivas.
Não é difícil notar que a mulher negra, em uma sociedade desigual, racista e sexista, vivencia a opressão de um lugar bem distinto.

Vejo certa relutância por parte de feministas brancas a conceberem relevância ao feminismo negro dentro do movimento feminista hegemônico. A voz da negra, até mesmo dentro desses movimentos, é silenciada, como se o fôssemos dramáticas demais, enxergássemos demais, ouvíssemos demais: contudo, entre tantas, essa é apenas mais uma forma de silenciamento.

“Todas nós passamos pelo mesmo”. Não, não passamos. O movimento feminista negro tem suas peculiaridades, omiti-las acaba contribuindo para desconstrução de toda a luta de um povo, do negro, da mulher negra na sociedade. Quando falamos em violência doméstica, 60 % dos casos envolvem mulheres negras. Na mídia, a representação da negra de “mulata gostosa”, “do bumbum grande” contribui diretamente a fortalecer o discurso de que as negras são sexualmente mais ativas, mais provocantes, mais “quentes”. Dessa maneira, recusar algum tipo de assédio não é socialmente aceito, gerando, muitas vezes, motivos para insultos e até mesmo violência física.

Desde a colonização, a cultura do estupro vem sendo disseminada pelo discurso de que somos “um país miscigenado, por isso, aqui não existiria discriminação”. O corpo da mulher negra era tido como objeto e, hoje em dia, não é diferente. Por que a Rede Globo não estende a “mulatologia” às outras raças? Não estamos em um país miscigenado? Pois, então.

Quando falamos em condições iguais de trabalho para homens e mulheres, de que mulheres estamos falando? Quando se vê um anúncio de emprego em que se diz “mulheres com boa aparência”, de que mulheres estamos falando? Quando se fala em padrão brasileiro de beleza, de que mulheres estamos falando? Quando discutimos a marginalização da mulher, de que mulheres estamos falando?

Os discursos racistas e machistas que ouço a todos os dias vão além do que esteja nítido aos nossos olhos e, talvez, o problema da sociedade seja enxergar além da opacidade, do obscuro, além do que esteja transparente.

Não, não vejo demais. Não vejo preconceito em tudo.

Ele sempre esteve aí. Feche os olhos e veja.

Imagem de destaque: Huffpost