Sou a favor das cotas raciais sim! Porque sou beneficiada? Com certeza. Me sinto no direito de exigir igualdade e reparação, não só eu, mas todos afrodescendentes que por mais de três séculos carregaram essa nação às custas de muito suor e sangue, provendo as riquezas do país, mas sem historicamente gozar disso. Muitos questionam ações afirmativas com a justificação que os negros seriam privilegiados e favorecidos, como se pedir que os ambientes se tornem mais heterogêneos fosse algum absurdo, como se uma pessoa negra não tivesse o direito de avançar e ocupar seu devido lugar na sociedade.

Quando veio a carta de alforria, que não passa de um falso consenso da elite e que acompanhava uma tendência mundial de contenção de gastos, não se pensou conjuntamente qualquer tipo de política social, como educação ou saúde para os negros libertos, que os caraterizasse como cidadãos. Com a “migalha” da liberdade fomos abandonados a própria sorte sendo marginalizados e taxados como a escória da sociedade. A lei Áurea não trouxe a liberdade e sim a desigualdade, fazendo com que o negro ficasse excluído da sociedade, sem estudo, sem oportunidade, à mercê de trabalhos secundários, só que agora com a “ liberdade “ em escolher como seu patrão alguém que o açoitou, quase que por troca de comida e sem ao menos moradia.

Essa situação não mudou com as primeiras leis e sim sentenciou a anulação de direitos sociais amparada pela ação enérgica da polícia militar e das milícias, fazendo prevalecer a hierarquização de raça e classe, que exterminava a juventude negra nas periferias. Esse extermínio se concentrou em maiores índices entre Pernambuco, Maranhão, Baixada Fluminense e São Gonçalo, em lugares não por acaso remanescentes de quilombos.

Isso não é exclusividade do passado, faz-se um fato muito recente que reflete no racismo nos dias de hoje, levado à contra mão do desenvolvimento, mas que a elite não vê, não acredita, simplesmente por que não tem conhecimento de causa. Só um negro sabe o quanto dói à chibatada da discriminação que é perpetuada, através da negação de fatos históricos, tratados com menor importância, ter sua cultura rechaçada e tratada como nada, oprimida e sufocada pela imposição da cultura eurocentrista como supremacia, que é outra forma de discriminação, usada constantemente no sistema escolar brasileiro. Portanto, é necessária a criação de um contexto favorável aos marginalizados e oprimidos, para a recuperação da sua história, da sua voz, e para a abertura das discussões acadêmicas para todos, como conhecimento e não como folclórico.

O fim da escravidão, não foi a consagração da verdadeira liberdade pois não se pode ser livre sem emancipação econômica plena, sem inserção social e política, sem acesso aos bens culturais e econômicos, sem usufruir do fruto do trabalho que é a riqueza gerada pela nação.

Ainda hoje, as marcas desta época colonial e escravista estão presentes no Índice do Desenvolvimento Humano (IDH), que mede os níveis de educação, saúde e renda familiar da população, comprovando o atraso histórico da população negra em relação aos brancos no Brasil. Ou seja, existe uma diferença sim no acesso a direitos básicos, entre brancos e negros.

Claro que bolsas sociais são necessárias, acho muito digno, pois uma das prerrogativas das cotas é de sanar a desvantagem da educação, uma compensação pelo ensino vergonhoso, fruto de desinteresse politico. Mas não apenas sociais e sim raciais, pois o racismo estrutural coloca um abismo entre um jovem branco e um jovem negro, simplesmente por um racismo enraizado e institucional que corrobora significativamente para essa situação. As cotas raciais são o mínimo de compensação de nosso atraso forçado, para enfim fomentar a construção de possibilidades igualitárias.

Pesquisas mostram que negros sofrem sim racismo, em diversos ambientes se sentem acuados, humilhados, no trabalho, na escola e até mesmo em locais de lazer, então a desculpa de não ter cotas por não existir racismo não é válida. Também existe o medo de cair o nível do ensino devido aos cotistas, caiu por terra, pois está comprovado que os bolsistas tem igual ou melhor desempenho acadêmico do que os não bolsistas.

Por fim pelo meu pai, meus avós, bisavós sinto- me digna e no direito de usar as cotas sem peso algum na consciência, exatamente por eles que não puderam usufruir de seus direitos básicos. Nada vai tirar o sofrimento que nos causaram, mas já é um começo.

Imagem de destaque – Atabaque Blog