No Brasil, como em grande parte dos países sob regime capitalista, vivemos a farsa da democracia liberal, que pressupõe, mediante a divisão de classes, possível mobilidade de indivíduos para qualquer dessas divisões, ou seja, através do mérito individual, podemos segundo esta lógica, conquistar status superiores e o que deriva desses respectivos status (poder econômico, político, e etc).

Há de nos sentirmos aliviados portanto, porque vivemos num país mais democrático do que a Índia por exemplo, que apesar de ter sido legalmente abolido, o sistema de castas ainda faz parte da organização daquela sociedade. A grosso modo o sistema de castas indiano divide a sociedade segundo extratos sociais imutáveis – do ponto de vista da possibilidade de mudança do indivíduo de uma casta para outra – e hereditários. Indivíduos que nascem numa dada casta deve se voltar para atividades próprias desta e ocupar os postos que lhes são respectivos no campo do trabalho, da política e em todas as esferas sociais. Esses indivíduos deverão se relacionar com pessoas desse mesmo extrato – ou nos que estão em suas proximidades imediatas – e seus filhos pertencerão ao mesmo grupo social.

Dada esta suposta possibilidade de ascensão de classe, no Brasil, pra quem quer melhorar de vida o segredo é: conquiste por mérito próprio seu lugar, certo? Não, infelizmente é preciso dizer que não é por aí.  Recentemente nas redes sociais circulou de forma viral um vídeo em que o apresentador Silvio Santos, entrevistando algumas crianças, perguntou o que eles queriam ser quando crescessem. A mocinha negra de cabelos crespos e grandes respondeu que seu objetivo era ser atriz, “mas com esse cabelo?” Silvio Santos não pôde conter seu espanto.

Quem é negro sabe. Chegamos: e antes de falarmos qualquer coisa, nossa negritude já falou por nós. Essa negritude diz para os outros – ao menos assim interpretam, que se estamos caminhando num condomínio de luxo é porque estamos indo pr’o trabalho na casa de alguma patroa ou para a portaria de algumas daquelas mansões. Diz que se estamos num prédio de luxo, o elevador que deveremos nos dirigir é o de serviço. Que em shopping centers somos os clientes suspeitos que deverão ser seguidos para que não roubem nada, e caso algum roubo tenha acontecido, fomos nós.

Nossa negritude parece dizer para os outros que, para as mulheres jovens negras trabalharem em espaços de moda como modelos, ou atendentes de loja de grifes, ou em evento, elas precisam alisar os cabelos, porque “com esse cabelo” não dá. As portas para os postos de poder tem um molde cujo cabelo crespo não passa, cuja pele negra é barrada. Somos tomos barrados no baile, disse Edson Gomes. Diante disso, como sustentamos a suposta mobilidade de classes se antes de ricos ou pobres, competentes, escolarizados ou não, somos pretos, suspeitos, fogosos, folgados, ignorantes e criminosos?

Diferente do que ocorreu em países como a África do Sul e os Estados Unidos, casos mais conhecidos dos outros países do mundo, cá não ocorreu após a abolição, nenhuma política institucional, nacional que abertamente admitisse o objetivo de dividir o espaço público entre negros e brancos, ao menos não nestes termos. Isso que já foi discutido em diversos outros textos e que não há necessidade de se aprofundar aqui, é um dos motivos principais para que nosso povo negue que o racismo existe, e também que não tenhamos ainda tratado este problema como ele deve ser tratado. Temos ainda cautela, medo de exagerar, receio de falar até as últimas conseqüências, até porque sua solução acaba roendo um dos próprios pilares do sistema capitalista.

O sistema de castas no Brasil ainda se manifesta na classe de policiais e membros das Forças Armadas que estão acima da Constituição do país e que nunca foram nem nunca serão julgados pelos crimes que cometeram na época da ditadura militar brasileira; na classe de poderosos que estão igualmente acima da lei e podem esbanjar infrações de trânsito, violência contra mulher, racismo e até participação em tráfico de drogas, que não são julgados e muito menos condenados.

O racismo velado que temos vivido por mais de um século tem nos custado caro. Ele tem encobertado um sistema de castas no Brasil que não se revela, não se admite, mas que tem travado a relação raça e classe. As mulheres pretas, em grande número organizadas no trabalho doméstico, estão na última posição social durante muitas décadas, e ainda lutam pelo direito de 8h diárias de trabalho e regularização dessa sua atividade que remonta para uma luta dos trabalhadores conquistada já nos anos 30, mas que até hoje não chegou pata toda a comunidade preta de mulheres.

A meritocracia por si já é cruel e impossível porque deixa de considerar que não partimos do mesmo ponto: partimos uns da favela, outros de comunidades tradicionais, outros de berços de ouro e por isso diferentes pontos de partida nos dão vantagens ou desvantagens sobre o outro. Imagina num sistema de castas sob o qual ‘com esse cabelo você não passa’?

Reconhecer nosso sistema de castas, não é criar divisões onde não existem, para prevenir possíveis futuras acusações sobre este texto, reconhecer o sistema de castas brasileiro é tratar com honestidade o problema do racismo que nos segrega e nos diz que, fugindo das estatísticas, não somos vencedoras ou vencedores, apenas pretos ousados que não sabe que seu lugar não é outro senão as senzalas modernas do quartinho dos fundos da empregada.

 Imagem destacada: XII EFLAC. Créditos Hortensia Gonzalez Gomez

  • Constatação

    Oxalá vivam Taís Araújo e outras tantas diante e vocês.

  • Natália

    Foi ele mesmo, claro. Isso sem contar o desrespeito do apresentador com as pessoas gordas também, categorizar por beleza…

  • É a questão do cabelo é muito complicada, e quando você diz que existe as pessoas riem de você e acham exagero. Eu sou mestiça de branco e negra, tenho a pele clara e cabelo bem cacheado, uso ele afro agora, do jeito que ele é, mas sei bem o que é sofrer com progressivas. Me lembro de sair só com a minha mãe e ela ver um conhecido, e ele admirar de ela ter uma filha “branca”(sempre achavam que ela fosse a babá), e depois dizer algo como “é pelo cabelo da pra notar”, como se o único defeito fosse o cabelo “duro” (que na verdade é puxado da familia do meu pai, que é branco, mas tem mãe negra, da parte da minha mãe, a família é bem misturada, e a descendência indígena garantiu que a maioria, incluindo ela, tivessem um cabelo ondulado bem levinho.) Nem sei bem porque contei isso, mas meu ponto aqui é que cabelo de preto, pra sociedade é defeito, é atestado de incompetência; Eu tenho 19 anos, e procuro trabalho desde os 16 e até hoje eu não consegui; quando eu tinha 16 e cabelo esticado, era chamada pras entrevistas, mas nunca passava; era porque sou gorda, porque quando eu voltava nos lugares, tinha uma branca e magra trabalhando lá que não tava antes (outro defeito visto pela sociedade, mas essa é outra conversa). Hoje eu posso entregar 20 currículos que não sou nem chamada, e quando sou, sempre perco a vaga pra uma menina magrinha e de “cabelo bom”. A esperança é que depois de ter diploma isso mude pelo menos um pouco, mas tá difícil, porque sem trabalho, sem dinheiro pra estudar, e assim segue o Brasil, que diz que é um pais de todos, mas experimenta não ser rico, e branco pra ver.

  • Daniela L.Souza

    “Quem é negro sabe. Chegamos: e antes de falarmos qualquer coisa, nossa negritude já falou por nós. ” Este trecho não sai da minha cabeça. Quanta verdade!

  • Marcio Arruda

    Só não entendi uma coisa: quem disse a frase? a menina ou o Silvio Santos?

    • Lissah

      O Silvio q falou. Ele perguntou o q ela queria ser, ela respondeu q era atriz e aí ele soltou: “Mas com esse cabelo?”

    • Daniela L.Souza

      Silvio falou.