O Ministério da Saúde lançou, em novembro de 2014, uma campanha nacional de combate ao racismo no Sistema Único de Saúde (SUS)[1]. Dentre os diversos cartazes trazendo dados sobre a questão racial na saúde, podemos observar escuramente que as mulheres negras são as que estão vivenciando, em sua maioria, grande parte das diversas limitações e violências, muitas vezes, com consequências graves.

Dentre as manifestações do racismo no setor da saúde pública podemos observar que são as mulheres negras que recebem o menor tempo no atendimento médico, representam a maioria na mortalidade materna, 27% das mulheres negras são acompanhadas durante o parto enquanto as brancas somam 46,2%, as que menos recebem informações adequadas relacionadas à integridade de sua saúde, como por exemplo, 62,5% das mulheres negras recebem orientações sobre a importância do aleitamento materno enquanto as mulheres brancas somam 77,7% [2], dentre tantos outros dados.

São as mulheres negras as que mais “penam” no SUS e este agravo vem da questão não apenas racial, mas também de gênero. Mulheres negras, ainda que mulheres negras, existem em uma vasta diversidade, os recortes específicos a serem feitos sobre estes corpos nos trazem uma série de outras questões a se problematizar, como é o caso da mulher negra e lésbica que, além do racismo e sexismo, está exposta à lesbofobia também muito presente no âmbito da saúde pública. E, quando assunto é ginecologia e lesbianidade negra, apontamentos importantes devem ser considerados.

Em toda minha trajetória lesbofeminista negra tenho ocupado diversos espaços lésbicos e feministas a fim de discutir estas especificidades e buscar soluções. Nos espaços lésbicos, quando entramos no âmbito da saúde, especificamente na ginecologia, os diversos relatos das companheiras já vieram diversas vezes regados de lágrimas e sentimentos de constrangimento, principalmente entre aquelas que são pobres e negras. Ouvir as companheiras falarem abertamente sobre isso tem sido algo recorrente nestes espaços, mas eu ainda percebo que o número de relatos relacionados às violências neste setor é muito maior do que imaginamos, pois acredito que nem todas as lésbicas tem coragem para exteriorizar estas tristes experiências que vivenciaram no consultório ginecológico.

A primeira violência lesbofóbica sofrida no consultório ginecológico é a invisibilidade. Mulheres lésbicas adentram o consultório e recebem todo atendimento e procedimentos como se fossem heterossexuais. Poucos profissionais, dentre tantos questionamentos feitos durante a consulta, levantam o histórico quanto a sexualidade destas mulheres. Na maioria das vezes fica a depender da consciência da própria paciente afirmar sua lesbianidade, e isso é algo que nem sempre acontece, já que a pesquisa afirma que 59,5% das lésbicas afirmaram sua sexualidade durante um atendimento médico, dentre elas 88,6% das afirmações partiram da livre iniciativa das mesmas e 5,1% (!) a partir da abordagem dx profissional [3].

Com estes números fica muito óbvio o tratamento heteronormativo a que as lésbicas estão expostas dentro deste setor. Com relação as que não se afirmam lésbicas durante as consultas, a resistência de muitas delas vêem por elas não se sentirem à vontade para falar sobre isso com x médicx. Este desconforto vem de diversos fatores como, por exemplo, o receio da reação dx médicx, e este é um ponto que não corresponde a algo infundado pois, dentre as 59, 5% das mulheres que abordam sua sexualidade no consultório, 18,3% delas dizem ter se deparado com reações negativas do profissional como, por exemplo, a ocorrência de algo desagradável e até mesmo lesbofobia por parte dxs mesmxs [3].

Entre as lésbicas que não afirmaram a sua lesbianidade, algumas delas saíram do consultório com indicações de camisinha masculina e outros métodos contraceptivos, assim como, se depararam com afirmações hipotéticas de gravidez e com indicações de teste pelx médicx, sendo que, estes dados, trazidos na pesquisa, estão relacionados a mulheres que são cisgêneras e que mantém relações sexuais com outras mulheres que também o são [3]. Neste sentido, é importante frisar que, neste ambiente, se não houve uma discussão com relação a lesbianidade delas, também não houve a discussão sobre a possibilidade delas estarem se relacionando com outras mulheres que são trans*, muito menos uma discussão sobre quais são as práticas sexuais destas relações, afinal, são diversas as formas de se fazer sexo com suas parceiras e cada uma delas tem a sua especificidade como, por exemplo, quais os métodos ou barreiras podem ser utilizadas afim de que se mantenham práticas de sexo seguro entre mulheres. Não haver estas discussões e estas mulheres saírem dos consultórios ginecológicos com indicações feitas desta forma é extremamente preocupante, pois x profissional parte de um pressuposto de que estas mulheres são heterossexuais, e esta heterossexualidade parte da ideia de estar se tratando, naquele momento, de uma mulher cisgênera que se relaciona sexualmente com homens que também são cisgêneros e que tem práticas sexuais que parecem ser predefinidas pelx ginecologista. É a partir dessa lógica heteronormativa e absurda que são encaminhadas muitas medidas equivocadas para as suas pacientes.

Após avaliação desses dados eu pude retornar para a situação de mulher negra na saúde pública, as mulheres negras recebem um menor tempo de atendimento médico [2], nesse caso, não estamos fazendo um recorte quanto a sexualidade destas mulheres. Se considerarmos o fator sexualidade, como fica a situação da mulher negra e lésbica no setor da ginecologia? Visto que, no estudo também abordado no DSML, dentre as mulheres que afirmaram sua sexualidade durante a consulta 28% delas disseram que xs médixs começaram a adiantar o atendimento, tornando o tempo de consulta mais rápido, além disso, em 17% dos procedimentos, xs profissionais não solicitaram os exames vistos pelas entrevistadas como importantes [3].

A partir destas reflexões, não pude não lembrar de um relato revoltante de uma companheira negra e lésbica durante um atendimento ginecológico, ela nos contou do descaso com que foi tratada dentro do consultório, de como a consulta foi extremamente rápida com pouquíssimos dos questionamentos considerados importantes dentro dos procedimentos. Apenas uma pergunta lhe foi feita que foi qual a quantidade de filhos que ela já teve (?). Foi algo tão surreal e tão visível a discriminação dentro daquele espaço que deixou uma marca profundamente negativa por toda sua vida.

Esta é uma das maneiras que o racismo e a lesbofobia tem marcado presença no consultório ginecológico, através de uma invisibilidade sem tamanho da lesbianidade da mulher negra, visto que o médico se quer perguntou se ela “tinha filhos”, ele logo perguntou “quantos filhos ela tinha”, e não estou dizendo que mulheres lésbicas não podem ser mães, claro que podem! Mas isso é algo que não se encaixa no contexto de como tudo aconteceu.

Ele sequer perguntou se ela era heterossexual, bissexual ou lésbica, ele supôs a sua sexualidade. Ele não levou em consideração a possibilidade dela ser uma mãe lésbica ou a possibilidade dela ser uma mulher negra que não é mãe. Evidenciou-se, naquele momento, todo estereótipo racista relacionado à sexualidade e maternidade da mulher negra. Negou-se a sua lesbianidade. Prevaleceu a discriminação. Ela nunca mais voltou lá!

O preconceito e o despreparo dxs profissionais da ginecologia são uns dos grandes fatores que tem levado as mulheres lésbicas a estarem compondo um elevado índice de evasão e negação da sua sexualidade nas consultas ginecológicas, números que se agravam quando estamos falando das lésbicas mais pobres e de maioria negra. Muitas percebem que suas especificidades não recebem a atenção necessária e que são até desconsideradas já que, muitas vezes, mesmo quando x medicx está ciente da sexualidade da paciente, ainda assim elx dá continuidade a consulta por um viés completamente heteronormativo desconsiderando as suas necessidades. As conseqüências disto podem ser fatais, visto que muitas destas mulheres deixam de ir ao consultório ginecológico com receio de passar por novos constrangimentos estando assim, correndo maiores riscos e estando mais propensas a desenvolver algumas doenças que poderiam ser evitadas mediante ações preventivas.

Diante deste cenário preocupante, mulheres lésbicas de diversas organizações em todo o país tem se reunido para discutir e buscar soluções para os problemas relacionados a lesbofobia institucionalizada no SUS. A Política Nacional de Saúde Integral LGBT, instituída através da Portaria nº 2.836, de 1º de dezembro de 2011, veio afim de promover a saúde integral da população LGBT e eliminação de preconceito e discriminação institucional, assim como redução das desigualdades e a consolidação do SUS como sistema universal  integral e equitativo [4]. Porém, muito ainda precisa ser feito, pois mulheres lésbicas, infelizmente, ainda vivenciam lesbofobia no SUS, e as negras, a lesbofobia atrelada ao racismo, desta forma, espaços que fomentem a discussão desse tema ainda se fazem muitíssimos importantes e urgentes.

Imagem destacada:  Zanele Muholi

REFERÊNCIAS

[1] Campanha de Enfrentamento ao Racismo no SUS. Filme oficial 2014 <https://www.youtube.com/watch?v=DuzA6dLPnmE>

FanPage Oficial do Ministério da Saúde Contra o Racismo no SUS < https://www.facebook.com/SUSnasRedes>

[2] Blog da Saúde – Ministério da Saúde:  <http://www.blog.saude.gov.br/index.php/34777-campanha-mobiliza-a-populacao-contra-o-racismo-no-sus>

[3] Rede Feminista de Saúde. Saúde das Mulheres Lésbicas: Promoção da Eqüidade e da Integralidade. Belo Horizonte 2006.

[4] http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_saude_lesbicas_gays.pdf