Como nós, mulheres negras conscientes do racismo velado existente na nossa sociedade, devemos lidar com esse turbilhão de crueldade a que somos expostas diariamente?

Infelizmente, esse texto não é a resposta para essa pergunta aí de cima. Meu texto é um pedido de ajuda, confesso.

A cada dia, nos deparamos com casos, relatos de mulheres negras aqui ou em outros espaços, notícias nos jornais entre outras coisas que nos fazem, ou pelo menos a mim, querer desistir da luta. Afinal, é uma força esmagadora que vem de fora pra dentro. Uma força que a todo tempo tenta nos fazer menores e nos entregar menos do que merecemos e desejamos. Está aí, na cara, pra quem quiser ver: “a carne mais barata no mercado é a carne negra” já dizia Seu Jorge.

No texto “o impacto do racismo na construção da identidade” Patrícia Anunciada faz um relato lindo e emocionante sobre como vamos sendo afetadas desde pequenas e o que fazemos com essa afetação. O passo número 1 é sempre tentar se adequar a um modelo que você acredita ser o melhor. Começamos aí, ainda crianças com nossas bonecas brancas, uma busca louca pelo cabelo mais liso, pela pele mais clara, pela boca e nariz mais finos.

Depois que chegamos o mais próximo possível do padrão almejado, estamos certas de que, agora sim, vamos agradar! Mas nem sempre isso funciona como o planejado. Voltamos frustradas e decepcionadas e o mais triste: voltamos sem entender o motivo. Eu vivi por uns bons anos acreditando e me conformando que não ser considerada uma das mais bonitas da sala ou não ser escolhida pelos meninos na escola era só uma questão de gosto né… fazer o quê?

É sobre essa perda de inocência que eu quero falar. Aquele momento que você vira uma mulher negra consciente de como nossa sociedade é machista e racista. Esse momento em que você entende que não é por acaso que outra mulher negra demorou muito mais que colegas brancas para conseguir emprego mesmo com um currículo melhor ou tão bom quanto. Que você entende que não é por acaso que nas novelas as mocinhas, princesas e afins nunca são parecidas com você. Você entende e volta ao passado pra reviver cada sentimento de exclusão que você ainda não sabia explicar.

E agora?

Conseguimos sair da zona do inexplicável e entramos numa zona tão dura, tão real e tão fria que tem hora que dá vontade de me esconder disso tudo e correr de volta praquela inocência de criança. Voltar pro momento em que eu acreditava que era só alisar mais o cabelo e usar muita maquiagem pra afinar o nariz que tudo ia dar certo.

Mas não, não voltamos.

Buscamos a cada dia o entendimento de que somos vítimas sim, mas não podemos nos deixar abater. É uma força monstruosa que vem de fora, mas precisamos encontrar uma força mil vezes maior que vem de dentro. De dentro de nós e de dentro de espaços como este que reúne histórias e sentimentos comuns.

Confesso que, algumas vezes, me pergunto se eu quero seguir nessa luta. Se eu quero mesmo deixar meu cabelo natural, se eu quero sair na rua com um turbante maravilhoso, se eu quero me posicionar politicamente em relação a isso tudo, se eu quero continuar lendo relatos de mulheres como eu que sofrem a mesma coisa que eu…  é aquela velha história né? Quem procura acha! E o que a gente acha nem sempre é bonito. Mas é reconfortante achar, é bom saber que não estamos sozinhas. Isso ajuda a construir aquela tal força que a gente precisa pra lutar contra o racismo e contra a solidão.

Falo tudo isso por mim, que estou no meio do processo de construção da minha identidade negra como adulta e mulher. Sem influências de padrões que nos foram incutidos desde pequenas. Falo isso pra ganhar mais força pra responder que sim, vou deixar o meu cabelo assim sem nenhum relaxantezinho. Eu adoro meu cabelo assim e foi uma das coisas mais bonitas descobrir que ele é tão bonito natural e eu não preciso queimar minha cabeça o tempo todo pra achar meu cabelo aceitável.

E mais uma vez, confesso, que a luta e o conhecimento muitas vezes me desanimam. Meu questionamento agora é como separar esse desânimo da força que eu sei que estou construindo a cada dia dentro de mim. Me empoderando com argumentos e atitudes.

Enfim, como eu disse, esse texto não traria respostas e sim perguntas né…

Imagem destacada: “Nós temos todo o direito de procurar destruir um sistema que procura nos destruir.” A Mulher Negra e o Feminismo.