O ponto de partida é uma breve reflexão sobre àquelas que estão entre o paraíso da juventude e a famigerada terceira idade. O que significa em nossa sociedade ser uma mulher negra entre 40 e 60 anos*?

O primeiro desafio que coloco a vocês é pensar nesse grupo de mulheres em sua totalidade – sim, sei e reconheço que existem muitas diferenças entre todas elas, porém busquemos elencar o que há de comum, os elementos que as unem.

Divorciadas, solteiras, mães ou avós, heterossexuais ou homossexuais, a maturidade proporciona para parte dessas mulheres, a emancipação e liberdade. Seja pela construção de uma bela e sólida carreira profissional ou, até mesmo, por ter chegado o momento de suas vidas em que todas as obrigações sociais e familiares se encerraram, o que as tornariam autorizadas a tomar suas decisões segundo, apenas, suas próprias vontades. O fato é que ser parte desse grupo significa estar próximo da plenitude intelectual, profissional e afetiva.

“Minha geração é a soma de várias. Cuidamos melhor de nosso corpo, trabalhamos há muito tempo – eu trabalho há 34 anos -, temos muita experiência, experimentamos muitas relações e podemos continuar criando, produzindo conhecimento. Sou uma mulher ‘madura’, no sentido de que estou pronta pra vida que escolhi viver”, ressalta Edneia Gonçalves, 51 anos, mulher negra e socióloga.

No entanto, as relações cotidianas e seus discursos revelam uma crueldade com esta fase da vida da mulher. O processo de envelhecimento é encarado como a etapa de decadência desse corpo que muitas vezes passa a provocar “uma certa repulsa que conduz a invisibilização”, afirma Lindalva J. F. Oliveira, 42 anos – pedagoga e também mulher negra.

“Tem uma visão na sociedade de que a mulher negra demora muito para envelhecer, o que apenas aumenta a cobrança pela busca do ideal de beleza jovem, é claro. Aliado a isto vem aquela situação corriqueira de não se sentir representada por nada e nem ninguém. Porque convenhamos, se é difícil ver uma jovem negra numa revista, me diga quantas vezes você já viu uma mulher negra de meia idade? Grisalha? Quantas são as referências possíveis?”, indaga Lindalva.

Edneia também comenta as possibilidades de caracterização impostas pela mídia, mercado de trabalho e demais espaços de poder. Ela destaca, para além de toda representação racista, ‘o fetiche da juventude como única possibilidade de felicidade’ como uma das barreiras a serem superadas. “Aos 51 anos de idade saúde é importante, mas tão importante quanto viajar, ler, passear, namorar, aprender coisas novas… Adoraria que o cenário envolvendo as mulheres maduras fosse além dos planos de saúde”, conclui.

 

Relacionamentos amorosos: o medo da solidão, liberdade sexual e afeto

A construção social do corpo da mulher determina o ideal a ser perseguido como sendo magro, jovem, branco e sexy. Fora desses padrões, as mulheres negras desde muito jovens lidam com desencontros na dimensão afetiva da vida diretamente relacionados ao racismo e, consequentemente, ao machismo.

Muitas são as queixas: a preocupação com a solidão, vergonha do corpo e chamadas imperfeições; inseguranças que são acirradas com o passar dos anos e o fim das possibilidades reprodutivas. Lindalva explica que “é como se em nosso auge, muitas mulheres permanecessem sozinhas por simplesmente não serem mais encaradas como desejáveis.”

Para Edneia as mulheres que optaram por construir uma trajetória baseada em escolhas pouco ortodoxas para os cânones machistas e racistas com certeza enfrentam muitos momentos de solidão. Tanto por não se sentirem atraídas por relações pouco desafiadoras e interessantes; quanto por não atraírem homens dedicados a relações pouco complexas. “Tenho muitas amigas sozinhas, mas poucas são solitárias… A vida é rica em experiências. O fato de mais mulheres pretas após os 40 anos estarem mais tempo sozinhas do que acompanhadas é também reflexo do fato de que hoje não somos obrigadas a empurrar com a barriga relações doentias que na geração anterior completavam bodas de ouro”

 

“Respeite quem pode chegar, onde a gente chegou”

Sobre a nossa geração de mulheres negras? Sobre o nosso contexto e as possibilidades de ser? Muito se discute sobre retrocessos, aumento do conservadorismo… Encerro com a palavra daquelas que colaboraram com mais essa produção e demonstraram que para além da mãe ou da parceira incondicional, temos condições de sermos outras hoje, construir ainda e melhores alternativas para o futuro por conta da luta delas e de tantas outras mulheres negras. Reverenciemos!

   

Sobre o hoje? Não acredito em retrocesso, lutamos para estar onde estamos e hoje as condições de enfretamento são mais favoráveis do que antes, isso é bom. Não sou saudosista: o número de mulheres envolvidas nos movimentos era muito inferior ao que vemos hoje, a informação circula com mais rapidez e diversidade, o mundo ficou menor, mais próximo… A carne das mulheres pretas mais velhas é mais dura, apanhamos muito, e apanhamos num momento em que o machismo e o racismo não utilizavam as máscaras em que buscam se ocultar hoje em dia… Somos mais pesadas, mas contribuímos na construção de um ambiente em que a voz da mulher negra se sobressai com especificidade, não se dilui no caldeirão da defesa de direitos.Edneia Golnçalves, 51 anos, socióloga

Creio que estamos vivendo em um contexto de acirramento da hiperssexualização dos corpos. Ao mesmo tempo em que eu sei do meu poder, conheço melhor o meu corpo, eu escuto uma música que me deixa em posição extremamente vulnerável, que me humilha e que fala exatamente o contrário de tudo isso que eu estou provocando e estou querendo. E muitas vezes não nos defendemos. São muitos os nossos papéis, qual devemos assumir? Em qual situação?

É por isso que o grande desafio é manter-se negra, porque no mercado de trabalho e em muitos outros espaços eles vão exigir, eles sempre querem que a gente deixe um pouco de nós, que tenhamos que nos despir mais e mais. Por assumir muitas formas e caras, talvez as formas de opressão estejam mais cruéis, temos que ser ainda mais safas para lidar com cada uma delas. E fazemos isso nos fortalecendo, seja na luta diária e na resistência, como em coletivos organizados. Lindalva J. F. Oliveira, 42 anos, pedagoga (Diretora da Divisão de Fomento ao Controle Social)

 

Imagem destacada: Créditos – Foto de Gabriela Amorim, disponível em Creative Commons em http://bit.ly/15yirTW

* esse texto tem por objetivo apresentar a perspectiva de um recorte dentre o variado grupo de mulheres negras entre 40 e 60 anos, não tem um fim em si mesmo e nem dá conta de todas as especificidades desta faixa etária. Conhece outros universos? Partilhe suas indagações e iniciemos o diálogo =)