A capacidade de utilizar o território não apenas divide como separa os homens, ainda que eles apareçam como se estivessem juntos.

Milton Santos | O espaço do cidadão

Eu tomei certa licença – não sei se poética – de roubar esse título “Favela Chique” do provável nome, de uma novela [1] que a Globo está planejando para 2016. Já encontrei inúmeras notícias sobre a produção, que pretende ser um sucesso como foi Avenida Brasil e, pelo nome, aparentemente será mesmo mais “popular”.

Não dá para negar que a Globo vem fazendo produções que buscam uma familiarização com o público de renda mais baixa, de séries como Sexo e as Nega a programas como Esquenta. Contudo, a representatividade é sempre às avessas, se é para ter um seriado com quatro mulheres negras, que seja hiperssexualizando, e se é para fazer o Esquenta, que seja tratando de forma rasa assuntos como racismo e colocando o negro mais como atração do que como protagonista do programa.

No entanto, o que mais me chama atenção nesse título é o quão real ele pode ser se fizermos a analogia com a situação das favelas e periferias brasileiras. Atualmente as áreas renegadas estão se tornando artigo de interesse de quem detém o capital e até famosos estrangeiros, como David Beckham e Kanye West [2], querem morar na favela. O pior é pensar que essa realidade faz parte de um jogo de interesses que começa a valorizar determinados espaços com novas construções tudo parte de um jogo de especulação imobiliária; com isso o preço da terra tende a subir e sem poder arcar com IPTU e aluguéis mais caros os moradores que até então ali viviam vão sendo levados a procurar novas áreas para morar. Isso é gentrificação. Quando pensamos que negros carregam as marcas da escravidão, precisamos lembrar que nisso está embutido às cicatrizes de todas as políticas criadas para a não ascensão econômica do nosso povo no país, e o como resultado o nosso fim.

O Brasil nunca quis ser negro, e ainda não quer.

Quando paramos para pensar na Lei de Terras de 1850, teríamos supostamente a primeira tentativa de se organizar a propriedade privada. Assim passou-se a ser só possível adquirir terras por compra e venda ou por doação do Estado. A suposição existe pois a intenção da lei vai muito além disso: representa uma medida tomada pelas classes dominantes – os latifundiários, ou aristocracia – para garantir que negros não poderiam ter acesso a terras. O que antes era feito pela posse se tornou inviável a quem não possuía recursos financeiros. Não é atoa que a lei surge no mesmo ano que o do fim do tráfico negreiro, que já sinalizava a abolição da escravatura no Brasil. E o mais controverso é que até 1850, a terra não tendo valor, ela não poderia ser hipotecada ou vendida. Escravos sim.

Sendo assim, fica fácil entender que o problema da habitação no nosso país, não por acaso do destino, começa a emergir no final do século XIX, quando os negros pós abolição passaram a buscar novas fontes de renda nas cidades, já que existiam os emigrantes no campo para ocupar o seu, até então, oficio. Isso praticamente explica o fato de a população pobre, que é de maioria negra, morar nas “piores” áreas das cidades brasileiras. A falta de interesse nesses locais, devido sua distância dos centros, a falta de infraestrutura desde a viária, até o saneamento básico, criaram essas condições que favoreceram nossa periferia ter cor. Somando a mão de obra negra abundante, péssimos salários e piores funções, o resultado era e é o negro ficar limitado a nunca poder ascender socialmente e/ou comprar terras

A política de higienização do negro nas cidades brasileiras chegavam a extremos como banir para o Acre, junto com os líderes da Revolta da Vacina, pedintes, desempregados, pessoas sem documento. Não preciso nem explicar a cor dessas pessoas: é só olhar nas ruas de hoje e perceber que a maioria dos mendigos é negro.

O tempo passou, mas a “limpeza” continua sendo feita, e as vítimas são as mesmas.

Temos de um lado a gentrificação, que vem acompanhada da especulação imobiliária, dos falsos laudos de área de risco, e da suposta “pacificação”. Temos alguns privilegiados que não respeitam a comunidade e nem são participativos nesses espaços e é irônico, mas tem pessoas que até ousam em querer ser pobres sem deixar de ser de uma classe social elevada e usam seus privilégios para chegar aos fins que pretendem, desrespeitado totalmente as pessoas que vivem ali. Ou seja, só quem tem uma renda considerável pode pagar US$ 82 por noite para se hospedar num Hotel de Luxo que simula [3] uma favela.

O problema não é valorizar a favela ou a periferia, mas é primeiro se esquecer do porque que elas existem; são consequências de políticas racistas. As pessoas que acham tendência ser favelado, mas na maioria das vezes nem discutem racismo. Essas áreas ainda enfrentam situações desumanas, desde a falta de infraestrutura a uma realidade violenta promovida pelo Estado que chama chacina e controle militar de pacificação. Mas ninguém parece se importar com isso, se puder ter uma vista incrível para uma praia, exemplo do que acontece no Vidigal.

Há ainda um terceiro ponto: que o processo de gentrificação vem criando novas áreas precárias, com condições de moradia piores das que existem hoje, e as pessoas expulsas estão ocupando áreas mais remotas ainda.

Eu acredito na força negra, tanto que mesmo com todos os percalços violentos hoje o Brasil deve muito do que ele é a nós. Acredito que nosso povo consegue transformar adversidades em luta. O símbolo da segregação e controle que era a senzala hoje é nosso terreiro: símbolo que representa celebração e resistência. Não é diferente com nossas favelas e periferia. Não é justo sermos excluídos novamente. Falta elegância e dignidade nas ações de alguns que querem fazer da Favela Chique na base da perpetuação da discriminação.

 

 

IMAGEM DESTACADA: Créditos – Escif

REFERÊNCIAS

[1] http://bit.ly/1BjdoRJ

[2] http://bit.ly/1uoCEkD

[3] http://bit.ly/1cnCDa4