Tudo começou quando tinha cinco anos de idade. Cabelos crespos, nos ombros e um volume alto. Um cabelo que não tinha culpa de nada, mas que era chamado de ruim. Não havia muita representatividade ao meu redor. Algumas das minhas amigas da escola tinham cabelos lisos, outras como eu, também passavam por processos doloridos de penteados que puxavam e esticavam até os olhos antes de irmos para a aula. As vezes tudo isso modificava meu olhar. Isso quando não ficava um olho não ficava mais retesado que o outro.

Com sete anos decidi usar o cabelo solto algumas vezes mas logo desisti quando vi os comentários sobre o volume demais. Passei a acreditar que realmente era incômodo e feio ter o cabelo que nasci. Sempre o penteava da maneira errada, querendo deixa-lo liso.

As mulheres mais velhas que me cercavam já tinham o costume de passar ferros quentes nos cabelos nos fins de semana. Eu tinha muita vontade de fazer o mesmo.

Quando completei dez anos já acreditava de verdade que era muito necessário colocar algo para relaxar os cachos ou alisar de uma vez por todas meus fios. Não entendia a diferença entre os processos, mas mesmo assim decidi usar química. O produto fedia bastante e a moça que aplicava dizia que era assim mesmo e que para ficar bonita eu precisaria aguentar e sacrificar. Fiquei feliz com o resultado do cabelo molhado saindo do salão naquela tarde. Não sabia o que viria depois disso. O cabelo secou, ressecou e eu queria mais do que aquilo.

As misturas e alterações de química para um resultado que me satisfizesse totalmente nunca acabavam. A raiz nunca me agradava completamente. Ela precisava crescer e a cada cacho de resistência que saia do meu couro cabeludo eu fazia algo novo para estica-lo. Até que um dia, já com dezessete anos, após um processo caseiro de negação de raiz, meu cabelo caiu no enxague junto com a água que caia do chuveiro. Não consigo lembrar desse momento sem aperto no coração. Lembrar das mexas de trinta centímetros se desprendendo do meu corpo e caindo no box do banheiro e se derretendo ainda é realmente algo impactante para mim. Vale ressaltar que meu cabelo não crescia além de trinta centímetros. A química o enfraquecia e ele quebrava no meio das inúmeras vezes que tentava deixa-lo crescer.

Precisei agir rápido nesse dia e tive que correr para cortar o cabelo que ainda restava na cabeça. Ouvia algumas poucas pessoas me perguntarem na época se eu não gostaria de aproveitar a oportunidade para deixar os cachos acontecerem. Não quis. Continuei o alisamento por mais seis anos.

IDENTIDADE

A vida foi passando exatamente como dava pra ser. Eu sem conhecimento sobre mim mesma e sem repensar as imposições racistas que permitia e consentia que atravessassem meu corpo.

Após conhecer o feminismo, após me reconhecer mulher e feminista, ainda faltava algo. Algumas peças que eu não sabia ainda quais eram, faltavam tomar encaixe.

Dentre vários espaços e ambientes que frequentava passei a enxergar a representatividade que faltava. Mulheres negras feministas muito empoderadas com seus cabelos soltos com formas, curvas e volume alto. Eu, ainda acreditava que era algo belo para elas e quem em mim jamais ficaria bom.

O auto boicote aconteceu várias vezes durante meses. Até que em janeiro de 2013 fiz o fatídico alisamento final. Ao chegar ao salão e começar o processo de progressiva e ter os olhos irritados pelo cheiro do formol, ouvi a mesma frase de que para ficar bonita era preciso fazer sacrifícios. Acontece que eu não tinha mais dez anos de idade, havia representatividade ao meu redor e já estava devidamente convencida de que era bonita sem o falso cabelo liso. Eu era bonita sem me agredir. Em março do mesmo ano tinha raiz crespa para esticar, eu nunca mais voltaria a fazer isso. Decidi entrar em transição capilar.

A força nasceu a partir do momento que reconheci minha identidade. Precisei da transição para me reconhecer uma mulher negra. Para conhecer minha ancestralidade, para saber de onde vim e para respeitar o que sou. Desde criança a sociedade me embranqueceu ao afirmar que minha pele era parda, moreninha ou cravo e canela. Chegar nesse ponto de reconhecimento pessoal precisou ser através da através da transição.
Durante toda a minha vida, a consciência de ter um corpo negro, um cabelo crespo e uma ancestralidade não passavam perto de mim. O ferro que queimava a pele de minhas antecedentes, queimava meu cabelo e negava minhas raízes.

O que aconteceu dentro da minha cabeça em um ano e meio transcende toda a transição capilar que findou em novembro desse ano. Reconheço-me uma mulher negra, que foi vitimada pelo racismo desde muito pequena, mas que só após muito tempo pôde perceber suas raízes, sua cor, sua ancestralidade. Sei que tenho pleno direito de usar meu cabelo como bem quiser, mas sei que isso nunca mais passará por desejo de ser aceita numa sociedade mediocramente fundamentada na opressão racista e em seus meios de embranquecimento fortes e sutis.
Sou grata às mulheres negras que me acolheram dentro do feminismo negro. Como é importante e empoderador cada momento que passo com elas.

Compreendo que faço parte de uma luta que vem antes de mim e com todas as lágrimas, sorrisos, encontros e perdas que uma luta carrega, pretendo seguir nela aprendendo mais sobre mim dia após dia e contribuindo empoderando cotidianamente outras mulheres. É por todas nós. Avante.

 

Imagem destacada: reprodução web