Era um domingo de carnaval, todos os anos nesse dia em Olinda existe uma famosa festa chamada “Enquanto isso na Sala da Justiça”, onde as pessoas usam sua criatividade, inventam as mais diversas fantasias de super heróis. Comigo e um grupo de amigas não foi diferente, criamos “as super pegadoras” uma brincadeira que se tratava de uma fantasia feita com uma capa cheia de prendedores de roupas. A ideia da brincadeira era colocar prendedores na galera, fantasia e brincadeira massa que chamou atenção dos foliões nas ladeiras de Olinda.

Seis lindas e animadas garotas com aquelas longas capas coloridas cheias de prendedores, arrancamos muitas risadas subindo a ladeira da misericórdia até chegar na Praça da Sé, foi nesse momento que passamos por um grupo de rapazes, não sei exatamente de onde partiu a voz, mas a gargalhada foi de todos eles após essa exclamação: “Maldita Lei Áurea!” Por um segundo eu parei para tentar compreender aquelas palavras que pareciam duvidosas aos meus ouvidos, mas era real. Eu, era a única negra do grupo, porém as minhas amigas não suportaram o insulto e partiram para o xingamento tentando me defender…

Fazem exatamente 10 anos que isso aconteceu, mas ainda não consigo recordar este fato sem deixar cair uma lágrima. Naquele dia, não consegui permanecer mais com a capa e ao mesmo tempo não queria que as minhas amigas percebessem que eu estava muito triste porque não desejava acabar com a festa delas. Mas, a verdade é que aqueles rapazes me roubaram a alegria de continuar a brincar no carnaval.

Talvez a Lei Áurea de fato não seja tão bendita assim, por ter abolido a escravidão, mas por não ter conseguido abolir o racismo. Eu não sou obrigada a te servir, moço branco, mas você me atormenta até hoje quando vou pensar nas minhas fantasias para o carnaval. Maldito és tu, seu playboy preconceituoso que apareceu para estragar meu carnaval. Não consigo colocar uma fantasia sem me recordar desse fato.

Só agora, com toda participação em movimentos, me sinto mais empoderada ,sobretudo no feminismo, consegui perceber que por traz daquela frase racista, havia também um posicionamento machista. Claro!  Éramos um grupo de mulheres fazendo uma brincadeira tipicamente masculina. Afinal, “são eles” os pegadores! Só que não. Porque nós mulheres negras temos habilidades e capacidade iguais ou até maior, o que nos torna especiais.

Imagem destacada: Arquivo pessoal