Uma sala com “bem humorados”. Lá estava eu. Depois que um árduo dia, pensei: preciso ler os meus e-mails. Quando iria acessar, me deparo com uma notícia de que, novamente, nos Estados Unidos um jovem negro foi morto, porque estava supostamente armado. Apesar das diferenças sociais, econômicas e, consequentemente, educacionais do país, a realidade de lá encontra suas semelhanças com o povo daqui. O povo negro, muitas vezes, está sob o estigma de raça inferior.

A reportagem não apresentava maiores informações do ocorrido, uma vez que caberia uma investigação mais complexa dos fatos. O que mais me chocou – sim, eu ainda me choco – foram os comentários. Sob o viés do anonimato, usuários agrediram os negros das formas mais racistas e descabidas possíveis. Doeu quando li frases do tipo: “parece que negros são mais propensos a cometer crimes”, “tá no gene deles. Adoram roubar e trapacear”.

Sinceramente, não foi possível ler comentários tão absurdos e não ficar revoltada. Quando apresentei, estupefata, o que acabará de ler, me recomendaram que aprendesse a achar mais graça das coisas. Disseram que é normal piada com pretx. Disseram que eu via preconceito em tudo (sério???). Achavam que eu precisava de mais humor negro. Ri de comentários assim é uma forma de ignorar o preconceito, me disseram. Capaz!

Vou buscar um conceito muito utilizado na sociologia jurídica para dizer o motivo da minha falta de humor. Qual seja: o etnocídio. Tal conceito faz referência ao cancelamento de essências culturais de um povo, porque julgadas inferiores, para aplicar a esse grupo uma cultura entendida como superior. Ou seja, retira a memória étnica de um povo e a substitui por uma vista como a melhor.

Enquanto o genocídio é a finalização biológica de uma raça, por acreditar ser ela ruim (o nazismo ilustra bem o conceito), o etnocídio não mata a compleição física do indivíduo, mas modifica – ou tenta modificar – a sua alma. Em uma interpretação bem simplista: o genocídio mata, afinal, o superior não acredita na redenção do inferior. Já no etnocídio, permite-se a vida biológica, contudo, desde que exista um processo de melhoria através da adequação dos “inferiores” às regras dos ditadores: morte da alma.

Na morte da alma o povo perde sua essência em função de uma determinação opressora, que acredita no outro como uma diferença inaceitável. A morte cultural de um povo, mais especificamente, da mulher negra, é interpretada a revelia. Ao invés de se caracterizar a perda histórica que ocorre quando uma negra é obrigada a tentar alcançar o padrão ideal imposto, tendo a modelo branca como alvo inalcançável, o etnocídio argumenta que, quando a negritude é menosprezada em razão de uma adequação social racista, tal metamorfose é uma espécie de evolução da raça negra.

Nesse forçado ajustamento social iniciado em um navio negreiro, x pretx teve suprimido o direito de vestir suas roupas, de usar seus cabelos, de falar suas línguas, de crer no que quisesse. Perdeu não só a liberdade do seu corpo, mas sua cultura ficou subjugada a uma adequação inconsistente do que é aceito para x pretx ser julgadx como melhor.

É por saber do histórico do meu povo que afirmo: NÃO, eu não tenho o seu humor. O que eu carrego nos meus genes é negro, mas não é esse humor. Carrego a história de um povo que foi massacrado, menosprezado como ser humano e vendido como mercadoria.

Quando observo a história e percebo que a religião, cultura, organização social e tudo mais dos negros foi devastado para servir, não consigo achar graça, nem ao menos posso sorrir, nem um sorriso amarelo, quiçá identificar “humor negro”. O Brasil carrega uma dívida histórica impagável com o povo que chorou, sofreu genocídio, etnocídio para servir os que acreditam que há uma inferioridade genética que faz com que os negros não sejam considerados seres humanos evoluídos.

Não vai ser possível ignorar o preconceito. Não vou poder rir dele. A memória, história do povo negro trás marcas de dor e sofrimento. E não, não consigo ver humor nisso.

 

Imagem destacada: The Daily Tar Heel