TW [trigger warning]: Racismo, machismo/sexismo, gordofobia ;

*Trigger Warning são notificações usadas em publicações que podem desencadear fortes emoções latentes.

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Desde muito cedo sentia que a rua não me era confortável, que estar sendo vista, observada não me fazia sentir bem. Sempre uma criança acima do peso e que postergou-se na adolescência, com algumas mudanças, mas por fim negra, gorda e periférica.

A periferia por muitas vezes me foi cruel, mesmo com tantos iguais, ainda assim tão diferentes. Morando com minha família tinha minhas atividades, minhas saídas, meus afazeres, mas uma coisa era fato: a rua anterior a minha não era um território livre. Pelo menos não pra mim, bastou 2 ou 3 vezes passar por lá para que a ridicularização do meu corpo e de meu cabelo me fizessem sentir medo, vergonha e receio e nunca mais passar por ali, devido a frases como essa:

Olha ali a bolota preta.

O banco da bicicleta, nem cabe na bunda dela.

Nesse segundo caso eu apenas tinha 11 anos e foi proferido por um menino temido e agressivo desde sempre. Evitei aquele espaço, aquelas pessoas e segui.

Dias atrás sai com 2 queridas amigas, a noite para conversarmos, o telefone de uma delas toca é um amigo falando para irmos em um ponto turístico da cidade, onde o pessoal se reúne, bebe, conversa, enfim tudo que iriamos fazer. Nos dirigimos até o lugar e chegando lá estavam cerca de 6 caras, que logo fomos cumprimentando, quando chego no terceiro, levo um susto e travo, lá esta o garoto, hoje um homem, que aterrorizou minha juventude na rua do bairro em que eu morava. Porém prossigo, cumprimento todos e pronto, o mal estar começa e a vontade de ir embora também. Minhas amigas logo falam pra irmos embora e “ufa”, vamos. Fomos em mais 2 lugares, bebemos, dançamos, e a noite foi perfeita, que me fez esquecer por alguns dias desse reencontro. Mas nessa mesma semana me pego pensando de como ele estava feliz, rindo, enquanto eu que fui minada estava no canto, e o quanto isso era injusto. Acabei deixando, pensando ‘são coisas da vida, o que eu poderia fazer agora!?!

Mais uma semana se inicia e estou animada para ir em uma cidade próxima, para compromissos de militância e também um romancinho. Correndo tudo bem, chegou a hora de ver amigas que fiz nessa cidade querida. Combinamos uma cerveja, me arrumo e vou. Do local onde estava são cerca de 20 minutos andando em uma avenida movimentada que leva o nome da cidade que é universitária e de tradição negra. Enfim lá estou 21 horas sozinha, de vestido em um dia de calor, começo minha caminhada que parece mais uma peregrinação. Agora adulta com 25 anos, empoderada a rua não deveria ser temida, eu enfrento, sinto isso até começar a violência.

Vamos lá, nos primeiros 2 minutos tentando atravessar a avenida ouço uma buzina de moto e algumas palavras, que não entendo, não me dou o trabalho de olhar, abaixo a cabeça e sigo em minha direção, não contente o moço desacelera sobe na calçada um pouco a minha frente e me chama:

“Gata”

Fico preocupada porém sigo, ele bem a minha frente desce da moto com um papel na mão e pergunta um endereço, digo que não sei, ele insiste e pergunta onde vou, continuo andando e ele começa a me tocar no braço dizendo que sou linda e que onde eu fosse me acompanhava, pois estava com muito tesão em mim, que adorava mulheres como eu, ou seja gordas. Falo pra ele tirar a mão e pra me deixar em paz que estava chegando em casa, sigo e ele fala:

“Folgada escrota, nem é tão bonita, cuidado pra não tropeçar na pelanca”.

Enfim esse é o preço da paz: ser ofendida. Continuo andando e mexendo no celular pra ver se as amigas já estão chegando, quando um carro com 2 homens se aproxima, e me dizem se quero carona, pois mocinhas à noite na rua estão vulneráveis. Agradeço prontamente e recuso claro, mas eles persistem, eu digo que estou chegando no meu destino e não precisa, o que acontece? Me chamam e falam:

“Gorilona! Só queríamos ajudar, ninguém aqui quer te pegar, feiosa balofa, tomara que te estuprem!”

Fico perplexa, mas não surpresa, pois já sabia o que esperar, mais uma vez assédio seguido de agressão, normatizados porque claro eles só queriam ajudar, fico pensando o que aconteceria se eu entrasse nesse carro com esses seres amorosos e solícitos, que com uma recusa ficaram tão agressivos.

Finalmente chego no lugar onde as meninas deveriam estar, sento espero 30 minutos e nada delas, decido voltar, faço o caminho de volta e passando em frente a um bar do outro lado da rua, começa a gritaria de uma mesa com cerca de 10 homens me gritar na rua:

“Oh lá em casa, lavando minha cueca.”

“Mucama”

“Oh negra vem aqui, nossa você é meu numero, só que vezes 3”.

– “No escuro comia lindo seu rabão preto”.

Gritos, muitas pessoas passando, um constrangimento sem tamanho, me senti com vergonha de mim, como se a culpada fosse eu, e não os trogloditas que se acham no direito me ofender na rua. Porque sou a piada: mulher, negra e gorda.

Passo por esse lugar e logo meu telefone toca são elas me perguntando onde estou. Acabada de passar pela barbárie como eu retornaria, dei a volta no quarteirão e fui descendo de uma maneira que não pudessem me ver, – olha o absurdo eu ter que me esconder simplesmente por ser eu, pra dar o direito de homens me ofenderem na rua, eu errada eles certos. Mas desvio, sigo e tudo certo? Não! Passa um carro com 4 caras jogam uma lata de cerveja na minha direção e gritam:

– “Porpeta torrada“.

Bacana, lacrou o dia! Nossa,  nessa altura já estava muito triste, revoltada e indignada. De repente ouço meu nome e lá estão mulheres negras empoderadas, irmãs de luta um verdadeiro conforto para conversar, desabafar e construir nossa luta, que perpassa por essas situações como o machismo de todos os dias, em todas as esferas, o racismo estrutural, a gordofobia e muitas outras violências.

Acompanho a campanha chega de fiu fiu, e acho muito necessária e fico pensando do peso e agressividade que tem esse fiu fiu para mulheres negras e gordas, que os homens acham que estão elogiando e se recusadas essas investidas violentas, somos ridicularizadas, ameaçadas e muitas outras coisas. Ou quando já somos chacotas gratuitas porque as gordas podem e devem ser abordadas nas ruas, pois são elogios, um favor para nós, é passagem livre e quando se é negra vem com uma pitada generosa de racismo.

Dias atrás lendo texto de duas amigas que falam, de coisas que não fazemos por sermos gordas, me lembrou esse episódio, não sair de casa deveria ser o número 1 da lista, será essa a solução para que não invadam meu espaço? Qual a parte que eu perdi em que mulheres tem que ser abordadas na rua tirando nossos direitos de ir e vir tranquilamente como qualquer outra pessoa. Sair na rua é temer por todos os tipos de violência, a ousadia, o ódio e o poder são explícitos e jogados rotineiramente na nossa cara.

Esse tipo de assunto que é tratado em nossos espaços feministas, para que possamos entender e de alguma maneira combater, esses espaços restritos a mulheres são exatamente por isso, para que nossas irmãs nos ouçam e principalmente aquelas que tem particularidades compartilhadas das mesmas dores. Esse assunto é muito caro para mim e dividir isso é uma maneira de tentar compreender e achar soluções para que isso não nos seja frequente.

Quero apenas poder ser eu e não me sentir culpada de ser mulher, negra e gorda e me privar de espaços coletivos pra não ser atacada com essa violência, sigamos !!

 

Imagem destacada: Negahmburguer – lambe