Uma expressão que se tornou comum e que me irrita com frequência é: “Fulana ou fulano se reinventou”. Geralmente esse fulano ou essa fulana é um artista pop, que vai reinventar alguma coisa que ele já tinha reinventado e que por sua vez, já tinha sido reinventado por outro; nós sabemos muito bem como funciona o mainstream.

Da última vez, li que Katy Perry afirmava ter que reinventar-se e eu logo pensei: para que ela foi inventada mesmo? Mas ironia à parte, o que essa gente sabe sobre reinventar-se?

Desde a minha infância eu venho reinventando-me diariamente, exaustivamante: enquanto ouço as primeiras notícias no rádio, enquanto leio o jornal, enquanto troco algumas palavras com um vizinho, enquanto estou na fila para comprar o meu pão. Quem sou eu nesse momento, quem sou eu durante a troca de palavras, de olhares que eu conheço muito bem, que eu aprendi a decifrar e que eu aprendi a desconstruir, na reinvenção de mim mesma? Quem sou eu na reconstrução da minha identidade sem o olhar estigmatizante dos meus interlocutores? Será que a Madonna, a Kate Perry sabem o que é isso, sabem o que é fazer esse exercício diário de afirmação da própria existência e identidade?

Diariamente vejo a minha imagem se desgastando, se desmaterializando em fração de segundos e resgatá-la, reinventá-la no meu caso, não quer dizer vender novos discos, ganhar novos prêmios. Eu reconstruo desesperadamente aquilo que sou e que a branquitude não vê, aquilo que sou e que é substituído por imagens estereotipadas, caricaturas grotescas inventadas pelo racismo secular da nossa sociedade.

Será que essas artistas sabem como é ser uma criança negra e assistir os desenhos animados procurando por um personagem com o qual se possa identificar? Será que sabem como é imaginar as histórias novamente enquanto se espera o sono, imaginando seus personagens preferidos com a cor de sua pele, com os seus cabelos crespos?

Será que elas sabem o que é perder a filha ou o filho, assassinados por serem negros e se pegar reinventado o presente, imaginando-os adentrando uma vez mais a própria casa?

O que faz uma mulher negra, humilhada pelo segurança de alguma loja, forçada a esvaziar a bolsa na frente dos outros clientes? O que faz ela naquele momento em que grita, que é inocente, que é trabalhadora, que não precisa roubar? Ela reinventa-se! Como o Barão de Münchhausen ela se liberta do lodo, da areia movediça que é o  racismo, pois a branquitude jamais tirou o negro dessa lama, muito pelo contrário, ela não deixa uma única oportunidade passar em branco para lançar-nos, lançar a nossa memória, outra vez no pântano da discriminação.

Há pouco tempo a maior rede de televisão brasileira fez mais uma vez da nossa mais dolorosa lembrança e da mais vergonhosa lembrança da branquitude brasileira motivo de chacota. Durante o programa “Tá no Ar” de 12 de fevereiro de 2015 o artista Marcius Melhem “vendeu”escravos, parodiando o estilo adotado por uma loja de móveis conhecida de fazer seus comerciais. Esse estilo “escravocrata de ser” ainda dá muito lucro, ainda rende muito prêmios… deve ser por isso que a branquitude brasileira não sente a necessidade de “reinventar-se”. Deve ser por isso que ela se senta, assiste e aprova isso tudo, dia após dia, ano após ano, rindo e fazendo de conta que não tem nada a ver com isso.

A princesa Isabel está nua e a branquitude se faz de desentendida. Mas que ela não se preocupe, se preciso for seremos nós os que gritarão a verdade.

Enquanto isso, eu seguirei reinventando-me, mesmo cansada, não deixarei de existir. E não estou sozinha, em cada pessoa negra que se descobre e que aprende a se amar, deixando de acreditar nas mentiras do racismo, eu renovo a minha existência, eu me reinvento.

 

Imagem destacada:  Ilustração de Gustave Doré. Reprodução web