Esse é meu primeiro texto, não sei se irei fazê-lo bem, mas uma coisa eu já aprendi com mulheres que admiro muito e que foi sintetizada pela seguinte frase dita por uma blogueira negra em uma roda de conversa, que dizia mais ou menos assim, que “toda a história é importante e merece ser contada, escrita”

Esse texto tem caráter de desabafo e expressarei sentimentos e angústias. Sou uma mulher negra em um complexo e conflituoso processo de empoderamento.

Ingressei em uma Universidade Pública no interior de São Paulo no ano de 2011 e no segundo semestre do curso comecei a militar no movimento estudantil, ler e conviver mais com pessoas que debatiam a questão de gênero e posteriormente, a questão racial.

Neste meio tempo percebi várias coisas que me angustiavam e ainda continuam me angustiando e revoltando, entre elas a não escuta de nossas vozes e a despreocupação por parte de algumas organizações não negras com a questão do protagonismo e lugar de fala.

Os diálogos começaram a ficar cada vez mais conflituosos e eu comecei a explicitar meu descontentamento e revolta por alguns discursos que muitas vezes deslegitimavam e até mesmo negavam nossas falas, nossas pautas específicas e não garantiam a escuta de outras vozes que não fossem a de militante com eloquência e muitas vezes com um programa partidário na ponta da língua.

Eu, mulher negra quero ser ouvida, sem o mesmo blá blá blá de igualdade, de que por que “sou de esquerda não sou racista, machista”, “acho que você exagera no debate sobre a questão racial” ou “somos todas mulheres! você está dividindo a luta”. Sabemos que o que divide o movimento é o racismo, o machismo, a homofobia, lesbofobia, transfobia, o não reconhecimento de privilégios, que na maioria das vezes podem ser chamados de DIREITOS que estão postos nesta sociedade

Posteriormente, comecei a participar de um coletivo que discute as questões raciais e foi ai que eu percebi que racismo dá conta de fazer coisas impensáveis por mim até o momento. O que mais me assustou e incomodou é que mesmo dentro de um grupo negros e negras que debate a questão racial, a hierarquização, o que era ser uma “negra bonita”, ter o black “mais bonito e desejado”, ser a preta “bafo” conseguia invadir o espaço, na maior parte das vezes por comentários feitos por pessoas brancas em festas quando algumas mulheres negras estavam juntas. Segue algumas frases que cansei de ouvir de brancos e brancas (muitos de esquerda revolucionária): “Por que você não define seus cachos”, “Por que você não deixa de cabelo igual ao de tal pessoa? “Nossa! Acho ela uma das negras mais bonita da festa, ela tem uns traços finos” …

Um detalhe importante é que não era por mera coincidência que recebiam, os elogios, eram as que tinham traços socialmente mais aceitos. Aproveito para enegrecer aqui que em nenhum momento estou dizendo que estas são menos negras, sofrem menos com o racismo. Isso é um tremendo equívoco, para não dizer outra coisa.

Em contrapartida não podemos negar os processos históricos, a tentativa de embranquecimento do país e de extermínio da população negra que estão colocadas até os dias de hoje e que por vezes ter mais traços que se aproximam do branco, do considerado mais belo, humano, digno de receber amor… Te possibilita transitar entre os dois mundos com poucos e certos e (poucos) privilégios. Repito, o racismo continua a atacar essas mulheres negras, mas elas podem chegar até um ponto, que é definido pelo opressor, como vemos na mídia que seleciona mulheres negras em sua maioria com traços mais “finos” e magras para que atuem em papéis, lugares e que reforcem representações sociais que sempre foram impostas as negras.

Meu sofrimento e revolta aumentaram ao descobrir que o racismo consegue agir de maneira a desunir, insensibilizar-nos, com as dores de nossas irmãs, atrapalhar o diálogo, a querer provar quem sofre mais…

É necessário dizer que temos sim singularidades, outras lutas para além da antirracista, mas que nos fortaleçamos pelo que nos une.

Irmãs, independente da textura do seu cabelo, da largura de seu nariz… TAMO JUNTAS!

 

Imagem destacada: Linoca

  • Sabrina

    Apesar de muitas vezes estes dispautérios virem disfarçados de elogios, eles acabam servindo como validadores da nossa presença em espaços/ grupos ditos “privilegiados”. Me recordo de incontáveis vezes em que ouvi coisas do tipo “ela é morena, mas é bonita” ou “apesar de morena, tem o cabelo mais bonito que o meu” – esta dita por uma ‘amiga’ loira, alva como leite e com o cabelo só no toco de tanta tintura e progressiva, enquanto os meus eram naturalmente longos, sedosos e ondulados. Eu confesso que na época aquilo me incomodava, mas deixar pra lá era mais viável, até para não prejudicar a “amizade”. Mas hoje, uns bons anos depois, se você me perguntar quantos desses ainda estão na minha vida, eu te respondo: NENHUM. E eles não saíram da minha vida com um convite de “retire-se”, foi um processo natural “como a luz do dia”, aquele filtro construído com suas prioridades.

    Hahahahah #desabafei

  • bianca

    obrigado eu não sou negra mas tenho respeito primeiramente pelo ser , ,quero desabafar uma situação extremamente constrangedora que passei dentro de um mercado.eu estava fazendo compras com meus pais e tenho um cabelo crespo e volumoso percebi que conforme ia passando as pessoas se cutucavam e cochichavam e apontavam pra mim diretamente me senti um pouco mau mas minha mãe começou a mi defender falando que apesar do meu cabelo ser crespo ele estava arrumado pois é naturalmente assim.
    moro em Curitiba-Pr ea colonização é na sua maiorias alemã eo colorismo e racismo é muito forte aqui ja que esteriótipo de beleza e ser loiro ,alto de cabelo liso e olhos claros
    o oposto total de mim ja que sou descendente de nordestinos tendo meus pais um baiano e uma piauiense ,ja tinha ouvido algumas blogueiras falando que aviam sofrido de preconceito pelo cabelo ect , e agora senti a força do opressor mas não vou negar minhas raízes

  • Ana Vitória Prudente

    Obrigada, sinceramente obrigada!
    Obrigada por escrever isso, obrigada por publicar isso.
    Representa muito do que eu sinto e não consigo verbalizar. É sempre bom saber que há mais um irmão, mais umx amigx que grita conosco e por nós, para que nunca nos falte voz!