Eu ia começar pedindo desculpa pra quem pensa diferente, mas pensei bem e vi que não é o caso. Percebi que quem merece receber pedido de desculpa sou eu. Eu cresci sendo ensinada na escola, através do convívio com as demais crianças, que o bonito era o cabelo liso, a cor branca , os olhos claros, a magreza. Ou você tinha um desses atributos ou você era um zero a esquerda no colégio.

Eram todos crianças, gente! Quem ensinou isso para aquelas crianças , pra mim e para as crianças de hoje? Quem ensinou isso para as crianças da década de 70, 60, 50, 40? As crianças nasceram com esse senso? Elas nasceram com esse conceito de beleza e depois cresceram e reproduziram? É nisso que vocês querem me fazer acreditar? É nisso que vocês acreditam? Jura?

Percebam que muitos negros não se aceitam, outros estão em processo de aceitação. Negros que não se acham bonitos e que não conseguem ver beleza em outros negros são vítimas de um sistema que impõe o que é belo e o que não é, e uma grande parte das pessoa negras que são vítimas dessa imposição, sem questionar, acabam se tornando pessoas inseguras e com graves problemas de auto estima que levam pra uma vida inteira.

Já pararam parar perceber que , o que é “belo” hoje amanhã já não é mais? Reparem na moda! Uma roupa que todo mundo quer ter hoje, que ta todo mundo usando hoje, amanhã fica cafona, cai em desuso e ninguém mais quer. Quem nunca olhou as fotografias antigas de seus pais e disse : “céus! Eu jamais usaria isso!” E recebeu como resposta “Nossa! Na minha época era a maior moda !” ?

Quem faz a moda? Quem dita pra gente a vida inteira o que é bonito e o que é feio? Quem ? A mídia! E quem são os donos da mídia? São pobres e negros? Não! Então quem eles exaltaram a vida inteira? Os ricos e os brancos. Não é em vão que as malditas colunas sociais existem até hoje , exaltando o glamour e a beleza que eles querem que seja exaltada e invejada pelos “mortais”. Então, quando alguém diz “Ah! Eu não sinto atração por negrxs e é uma questão de gosto”, eu simplesmente não aceito isso. Não nascemos com essa concepção formada, isso foi incutido em nossas mentes.

No Brasil , por exemplo, a sociedade foi ensinada a achar a cor negra feia, a achar que todo negro é ladrão, que toda negra só serve para sexo e não merece ser amada, dentre outras coisas.

Isso não foi algo criado a partir de uma reflexão, de uma análise. Isso foi algo construído e disseminado por um histórico escravocrata, durante séculos, onde o negro não era visto como ser humano, era moeda de troca, era visto como bicho. Os pensamentos evoluíram um pouco, mas não foram extintos. Uma construção de séculos não se esvai assim tão facilmente . Ainda ouvimos muito “ele é negro mas é bonito ” como se em regra ser negro e ser bonito fosse algo raro.

Eu acredito que as pessoas se atraem por motivos outros que não apenas a casca. Mas eu sei que as pessoas possuem uma necessidade ridícula de terem seus troféus . As pessoas pensam “aquele ali é um ser que a sociedade admira (pq fizeram ela querer admirar) e então eu preciso ter esse ser como troféu para exibir”.

Eu sempre gosto de deixar explícito que meus discursos não são para os que na vida já estão com suas convicções conservadoras enraizadas e não fazem nenhuma questão de desconstruírem isso. Meu discurso é , e na maioria das vezes sempre será , direcionado para o povo que se declara libertário, de esquerda, progressista. Então, galera, antes de irem para manifestações tentarem desconstruir o pensamento capitalista, Desconstruam o racismo introjetado de vocês . Desconstruam, também, o machismo podre que vocês não estão fazendo a mínima questão de esconder. É basicamente isso. Uma mente que não é alienada não se deixa envolver pelo que o conservador tenta incutir . Uma mente progressista vive em constante estado de reflexão e desconstrução dos próprios vícios adquiridos ao longo do tempo. Das coisas que mais me incomodam em minhas reflexões sobre a vida é o fato do ser humano agir de forma completamente contraria ao discurso que profere. Não façam isso ! Se fazem isso, assumam e tentem mudar.

Quem não consegue mudar a própria postura não tem moral pra exigir a mudança de postura de uma sociedade inteira, seja por conta do capitalismo, seja por conta do ambientalismo, seja por conta de qualquer coisa. E se eu pudesse dar um conselho eu diria : ame mais , visto que o amor ajuda muito na limpeza de uma mente poluída pelo cinza da ridicularização do oprimido que nos é imposta desde sempre. Nem espero que com a leitura desse texto os não atingidos sintam uma empatia imediata, mas que ao menos façam a gentileza de refletir.”

 

Imagem destacada: Reprodução Web

  • Maryangela

    Excelente texto!

  • A-WOMAN 😀

  • Ana

    Gostei do texto, maravilhoso!

    Mas acho que isso também vai de gosto pessoal de cada um, eu por exemplo, sendo negra, aliso o cabelo porque acho mais prático de cuidar, sendo que também acho quando ele está enrolado maravilhoso, mas por ser mais pratico e também por eu achar bonito, uso ele liso, por gosto meu, não por ser moda, nem pela maioria dos homens gostar de mulheres de cabelo liso. Em questão da raça, creio que alguns realmente não achem negros(a) atraentes, porém não me considero racista por não gostar de japonês, não posso dizer que nunca namoraria um, porém não me atraem, assim como ruivos. Enfim, há preconceito sim, porém há também a questão do gosto pessoal de cada um.

  • NOSSA, QUE TEXTO MARAVILHOSO! Lembro de uma vez que vi uma mulher negra num cartaz enorme de uma loja famosa de roupas que nem vale citar o nome. Fiquei tão empolgada que entrei na loja para ver uns preços… Mas aí duas funcionárias perseguiram a mim e à minha mãe. E não era uma perseguição tipo “posso ajudar?” era tipo “tá fazendo o que aqui?”. Ficamos muito incomodadas com a situação e fomos embora. Por dias passei refletindo sobre esse fato e pensei, “uma vez que sou representada num cartaz de moda, sou tratada assim?”. O mesmo acontece quando vamos comprar maquiagens e vemos que as mulheres representadas são brancas… Surge até a dúvida se aquele produto vai ficar legal na sua pele ou não. Mas seguimos não é? Temos que nos amar mais, amar mais as pessoas, não os padrões de pessoas! Desconstruir e quebrar esteriótipos é essencial.

  • rafaely rayane das neves

    eu sou misturada, todo brasileiro poderia dizer isso, e que mal a nisso ? sou índia e africana nordestina até a gota serena. E to adorando isso tudo aqui, povo lindo, grata pelos ensinamentos <3 avante!

  • Amanda Tech

    Eu, enquanto mulher branca, sempre aprendo muito vindo aqui e lendo o que vocês tem pra dizer. Fico muito feliz quando paro pra pensar no quanto eu mudei desde que comecei a acompanhar o blog. Ao mesmo tempo, fico envergonhada de pensar que eu usava expressões racistas (por ignorância) e tinha aquelas opiniões babacas de “negras não combinam com cabelo colorido etc”. Shame on me! Mas vocês me ajudaram a ser uma pessoa melhor, a desconstruir costumes e falas absurdas que eu tinha e eu sempre vou compartilhar esses textos maravilhosos para que outros, assim como eu, também aprendam e evoluam. O movimento de vocês é lindo e vocês são poderosas! Sucesso, gurias!

  • Ótimo texto, parabéns!
    Assim como você, acredito que o racismo, a opressão, o machismo, etc. estão impregnados nos indivíduos. É preciso desconstruir internamente os estereótipos que recebemos do social para lutar pela igualdade de condições.
    Beijos!

  • Texto objetivo. centrado e bastante reflexivo, concordo plenamente com voçê, vivemos em uma sociedade de maioria racista “dentro do armário”(leia-se brancos e negros) pois racismo não é apenas discriminar diretamente, e a desconstrução da beleza negra, da nossa cultura o que é isso? impor que cabelo liso é superior ao cacheado/crespo , diabolizar cultos que remetem a cultura africana, transformar a capoeira em dança ? isso é racismo indireto. Depoimento : Sou neta de um negro (cujo senhor sinto muito orgulho) e minha avó é branca, meu pai é negro ( de tom de pele claro ) e minha mãe é branca, nasci da cor do meu pai, até meus 17 anos me declarava mulata, parda ( termos utilizados por quem não se senti a vontade em se declarar negro) e não aceitava meu cabelo. Dos 17 aos 18 passei a conhecer pessoas do movimento negro pelo internet (leia-se blogs) mudei totalmente minha concepção de cor , hoje sou mariany, brasileira, negra, do cabelo cacheado e orgulhosa de representar através da cor um povo tão valente e digno de total orgulho. Viva o povo africano. Portanto na maioria das vezes a autoaceitação não esta ligada a querer ou não ser negra, muitas vezes é apenas uma questão de alienação produza pela falta de interesse cultural, ou falta de oportunidade mesmo. Beijos.

  • Lilian

    Parabéns! Muito boa reflexão! Lilian

  • isaac

    Texto muito bom

  • elisângela

    Se for mesmo o que eu entendi cara eu sou magra e quero engordar ( por isso mesmo vou tentar ) não gosto do meu cabelo e aliso SIM ! Vejo muitas pessoas que tem o cabelo liso e prefere deixar seu cabelo tipo aqueles cantores de raggae. Vai muito além vei essa questão.

    • Nênis Vieira

      Vai realmente mais além, Elisângela.
      Por quais razões você não gosta do seu cabelo? Acredito que os motivos vão muito além de uma mera preferência…

    • Paulo

      Elisângela, mas essas moças que fazem dread o fazem porque são de uma tribo. Gostam de raegge. São um caso muito particular. Qual é a musica ou o estilo do cabelo alisado?

  • Ame mais e escute, quem quer ajudar no empoderamento escuta. Reflexão maravilhosa para autorreflexão dos estereótipos que muitos de nós reforçamos na rede, um negro que não se aceita que não se ama vai publicar imagem que desvaloriza a si e os outros. Obrigada. Amei seu texto para o Marcello Melo, íntegro.