Há tempos que investigo e percebo a grande incidência das mulheres na música da Bahia. É fato que, assim como em todos os setores dessa vida – tecnologia, artes visuais, medicina ou gastronomia – temos ainda uma predominância e destaque para os homens. Não seria diferente com a música.

No caso específico da Bahia, celerio de grandes mulheres como Gal, Bethânia, Baby – tão lembradas e admiradas – fica ainda mais difícil se considerarmos as mulheres negras; as agitadoras culturais e sambistas como Gal do Beco, Dona Nicinha; as mulheres da Axé Music como Margareth Menezes, Márcia Short e Alobened; as cantoras líricas como Virgínia Rodrigues e Inaicyra Falcão dos Santos. Se houvesse espaço e tempo, haveria nesse texto uma infinidade de mulheres, conhecidas, lembradas ou completamente desconhecidas de vossa senhoria. Espero que os comentários venham repletos de novas e antigas mulheres negras, porque aqui irei destacar as que conheço e recomendo. Não que isso não valha para as outras, mas é que aqui quero demonstrar onde as novas cantoras negras da Bahia estão, o que elas tem de bom e como são ímpares nas suas referências, misturas e sonoridades.

Amo todas, fato. E como não sou crítica de música, nem me proponho a tal, as apresentarei como alguém que admira o trabalho e entende que se tratam de mulheres com longas trajetórias até então pouco conhecidas.

Vamos a elas:

Ana Mametto

A cantora e intérprete baiana é pouco conhecida dos mais ortodoxos, já que sua banda, a Mametto, começou no cenário fazendo Axé Music com uma pegada de música afro. Recentemente convidada por Saulo para uma apresentação especial no projeto Canto da Rua, Ana Mametto surpreendeu cantando ao lado do lendário Seu Mateus Aleluia. Sua voz já brilhou em concertos e gravações com artistas como Carlos Santana, Black Eyed Peas, Scorpions, Carlinhos Brown, Sergio Mendes e Daniela Mercury. Sua última peripércia musical conta com a ilustre participação de Zeca Baleiro na composição de Você passou por mim.

Ana Paula Albuquerque

Paraense já vivendo há muito tempo na terra, Ana Paula Albuquerque é dessas cantoras que você quer ficar ouvindo o dia todo. Sua música tem uma forte relação com a ancestralidade, trazendo consigo a modernidade, o passo a frente. É indescritível ouvi-la ao vivo: além de interprete, Ana coordena o projeto Escola de Canto Popular que tem revelados outros tantos talentos da música baiana. Sua técnica vocal invejável ajuda a novos cantores e interpretes a seguirem o sonho de viverem de música.

Na sua trajetória musical, Ana tem lindas parcerias e uma produção musical pra ninguém botar defeito: Ivan Huol, Paulo Mutti, Gabi Guedes e Ivan Bastos são alguns dos músicos e produtores que a acompanham. Seu último trabalho OMAREMIM traz sua intrínseca relação com o mar, com músicas calmas e lindas como sua voz. Abaixo uma música que eu gosto muito e que apesar de não ter ouvido no show OMAREMIM, acredito que entrará no projeto.

Larissa Luz

Me lembro de Larissa da época em que ela  tocava rock nos bares de Salvador. Bom essa foi uma fase pouco conhecida da versátil cantora, que já interpretou de tudo: da MPB ao reggae. Mas foi liderando a banda Araketu – um dos mais antigos blocos afro de Salvador – que Larissa ficou conhecida e ganhou a admiração de muita gente. Depois do Araketu, Larissa Luz se jogou na carreira solo, fazendo parcerias incríveis, trazendo influência hip hop, semba e world music pra sua música. O resultado desse legado e toda sua bagagem musical deu no albúm MuDANÇA, cheio de ritmo, afrocentricidade e originalidade.

Pra conferir é só apertar o play.

Manuela Rodrigues

Essa é daquelas mulheres que quando abrem a boca, estouram os vidros de qualquer janela: seu agudo ensurdecedor é de deixar a gente babando. Eu conheci Manuela Rodrigues em um dos Festivais de Música realizados pela Educadora (rádio pública da Bahia), cantando divinamente – de fato não me lembro se ela ganhou o prêmio, mas nunca mais esqueci da sua música: Vende-se Poema, composição dela e de Álvaro Lemos, um samba que remonta os clássicos do gênero. Sua voz e composição trazem uma boa mistura de poesia, contação de histórias.

Junto com Cláudia Cunha e Sandra Simões, em 2012 ela fez parte do projeto Três na Folia, onde as cantoras interpretavam antigas marchas de carnaval. O ápice da turnê aconteceu no Teatro Castro Alves, numa apresentação no Domingo no TCA com ingressos a 1 real.  Fã incondicional, fico na espera do novo projeto, do novo trabalho. Abaixo uma música  que gosto muito. #Barrasquê

Mariella Santiago

A premiada Mariella teve seu CD homônimo celebrado no Prêmio Braskem de Música em 2002. Mas antes disso, a cantora já caminhava pelos estúdios e palcos soteropolitanos. Além de interprete, Mariella é também uma exímia compositora, mantendo sua inspiração na religião de matriz africana e na cultura da Bahia. Omorodé e Apará são duas de suas canções que refletem bastante isso. Em 2010 ela lançou o EP In tudo que é canto e depois de uma longa espera, esse ano Mariella lança Ella, um álbum audacioso, totalmente gravado em Salvador e lançado num site lindíssmo. O trabalho conta com as participações de mestres da música brasileira, como Chico César (com quem compôs a faixa “Calunga Exuberante”), Letieres Leite (Rumpilezz) e dos pianistas Ubiratan Marques (Afrosinfônica) e Donatinho.

Abaixo, uma interpretação primorosa da música de Edson Gomes no MAM (Museu de Arte Moderna da Bahia), com um arranjo de fazer arrepiar!

 

Imagem destacada: Inaicyra Falcão dos Santos, cantora lírica baiana. Créditos: Sidney Rocharte