No dia 02 de março de 2014, primeiro dia de aula, calouros da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia foram recebidos com um boneco preto enforcado por uma corda, e pendurado com esta na entrada da faculdade. Um curioso caso como este não poderia ter outra explicação, se não a convencional: Brincadeira, inocência, boa intenção, nenhum intuito racista. Ainda bem que podemos acreditar nisso, já que no Brasil não existe racismo, e se existe, é o racismo inverso.

Para além de ironias, a nota emitida pela Faculdade de Arquitetura em conjunto com o Diretório de Estudantes de Arquitetura da UFBA e a Comissão do Trote 2015 da FAUFB, que emitia as explicações acima mencionadas a respeito do boneco preto, teve também o cuidado oportunista de demarcar que o então confeccionador do boneco seria negro, tendo usado os únicos panos que havia em casa de sua mãe para fazê-lo. Sem saber talvez, que isso não retira a responsabilidade do mesmo, e de todas as organizações que o boneco passou aprovado, para então ser exposto.

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À esquerda o boneco preto pendurado na Faculdade de Arquitetura da UFBA, à direita imagem de um negro escravizado pendurado em praça pública como punição à desobediência.
Fonte da imagem: facebook Anel On Line

 

Enquanto alguns brincam com imagens fúnebres de pretos, mães e famílias choraram dias e dias, num coro cada vez mais alto pelo número de vítimas que só crescem, a morte de seus filhos e companheiros. Por isso, desculpas à parte, porque num país em que o extermínio de negros é política de Estado, vale à pena relembrar a história.

Em 08 de novembro de 1799, na Praça da Piedade, da mesma cidade que hoje exibe um boneco preto enforcado na sua Universidade pública, Luis Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas de Amorim, João de Deus de Nascimento e Manuel Faustino de Santos Lira, foram enforcados e esquartejados. Mortos em espaço público, foram os líderes da Revolta dos Alfaiates.

O enforcamento público de negros não era uma prática incomum, muito diferente disso, era uma prática que buscava mostrar o exemplo para demais negros e negras que ousassem novamente desafiar o peso da escravidão. E é neste ponto que podemos tentar começar a investigar as razões pelas quais um boneco enforcado é colocado como forma de recepção aos calouros: Será uma forma de repudiar a ousadia que negros e negras estão tendo, cada vez mais, apesar de passos tímidos, alcançar o espaço branco da Universidade? Podemos crer que uma produção humana como essa possa ser seja totalmente desinteressada? Afinal algum diálogo com os novos estudantes foi proposto, tratando-se de um evento de uma calourada.

Talvez o que a sociedade não saiba, e já passou da hora de saber, é que existem denúncias de racismo praticado por funcionários da instituição para com alunos pretos, o que talvez não se saiba, é que existem denúncias de agressão à mulher praticada dentro do espaço da UFBA, talvez não se saiba também que um estudante foi baleado por um vigilante dessa instituição, e que existe muito preconceito, muitos espaços fechados a nós, e sobretudo, muita dor.

Na cidade mais preta fora da África há racismo que até mesmo os frios números estatísticos mostram, e nos impedem de falar qualquer besteira. Números que refletem nossa falta de acesso ao ensino superior, e mesmo ao ensino médio e fundamental, a vulnerabilidade que estamos expostos à violência, os salários menores que o de pessoas brancas, e menores inclusive que o salário mínimo, para as pretas empregadas domésticas. As estatísticas impedem de falarmos besteiras sobre a exclusão de negros que nossa sociedade empreende, ou ao menos deveriam impedir, porque o que sobram de provas a este respeito, falta em empatia e conhecimento para com as nossas denúncias.

Print retirado dos comentários da postagem de fotos do boneco pendurado

 Lembro-me de uma pequena postagem que fiz no meu facebook. Eu dizia que estava começando o quinto semestre de Ciências Sociais, e no entanto, havia tido apenas duas professores negras e dois professores negros. Isso fez algumas pessoas que já haviam se formado antes de mim, afirmarem que tive até muitos, porque elas não haviam tido nenhum. E fez também com que outras pessoas refletissem sobre essa mesma questão, que me mostrou um resultado não fora do que esperava: Não existe representatividade negra o suficiente no corpo discente e docente. Nos cursos mais concorridos, a situação ainda é mais drástica do que as licenciaturas, uma vez que a meritocracia é um sistema que serve para a manutenção de privilégios e do seu automático correlato, a exclusão de pretos.

 Foto da formatura da turma de medicina 2001.1 da UFBAFonte: http://www.gradusformaturas.com.br/parceria.asp

Busquei alguma definição sensata da palavra “vitimismo”, alguma serventia científica, algum uso acadêmico, e não encontrei nada além do uso do senso comum: uma palavra usada para expressar os preconceitos sobre minorias. Talvez o termo tenha surgido no mesmo bojo que “racismo reverso” e “machismo reverso”, e vou mais longe em insinuar que todos esses “reversos” tenham surgido de uma das frases mais conservadoras de todos os tempos: “Inversão de valores”.

Acontece que, se existe mesmo um fenômeno psicológico e/ou social do vitimismo, ele ocorre pela parte destes próprios indivíduos que, sendo brancos, afirmam ter sofrido racismo. Uma vez que, para além das humilhações que pessoas negras passam dentro de prédios de luxo, dentro lojas sendo seguidas, dentro de bancos, faculdades e outros espaços mais, que se fazem não-nossos, o racismo atua eliminando vida de pessoas negras em periferias das grandes cidades, atua através da proibição do aborto, que não proíbe igualmente pretas e brancas, tendo estas últimas o recurso financeiro que lhes garante aborto seguro, o racismo age através dos autos de resistência, assassinando jovens na sombra do Estado, mas num local em que ele ainda pode ver e permitir execuções sumárias, pela lógica de guerra às drogas; o racismo age através da vestibular e do padrão de beleza. O racismo é um sistema que permitiu e justificou a escravização, assassinato, tortura e estupro de seres humanos, e por tudo isso passamos, para ouvirmos hoje falar sobre o racismo que brancos sofrem. O vitimismo de fato existe, existe para os homens que sofrem de machismo reverso, onde no alto dos seus privilégios patriarcais, com o pleno direito garantido pelo Estado através da impunidade, bate e mata sua companheira que considera sua propriedade, estupra mulheres e crianças, e domina-a economicamente, pelo direito que o Estado dá dos salários desiguais para as mesmas funções e mesmas escolaridades. No Brasil que é um dos países que mais mata homossexuais no mundo, e cuja expectativa de vida para pessoas transgênero é de 30 anos, o vitimismo existe para definir ações, principalmente, de homens cisgênero brancos e heterossexuais, que se dizem ameaçados por essas minorias o tempo inteiro.

Hoje “tudo é machismo, racismo e homofobia” porque estamos sim estreitando o espaço que as maiorias sempre tiveram de alargar suas discriminações impunemente. Nos organizamos, e estamos firmes para enfrentar agressões nos espaços que ocuparmos, e continuaremos ocupando outros e outros espaços, sem darmos um passo atrás. Porque “ocorre que nessas voltas que o mundo dá, o sangue que deveria cair no esquecimento, virou bandeira de empoderamento, e libertou do cárcere o embrutecimento. Cláudia Silva Ferreira, seu Silva é da minha mãe também, sua sorte poderia ser também. A história mostra do que dela se retém que quando o preto se organiza não tem pra ninguém.”

KA

Imagem da intervenção do grupo Nós KÁ – Núcleo de Estudantes Pretas e Pretos da UFBA na festa da calourada da UFBA 05 de março de 2015, em protesto à calourada racista da Faculdade de Arquitetura da UFBA

Imagem destacada: À esquerda o boneco preto pendurado na Faculdade de Arquitetura da UFBA, à direita imagem de um negro escravizado pendurado em praça pública como punição à desobediência. Fonte da imagem: facebook Anel On Line