Dia 25 de novembro de 2014 o Ministério da Saúde lançou uma campanha chamada “SUS sem Racismo”, com o objetivo de alertar para o racismo institucional no âmbito da saúde pública. Tal atitude causou grande furor nas redes sociais e rendeu uma nota de repúdio do CFM a campanha, publicada 2 dias após . Mais uma vez as opiniões tornaram-se polarizadas.

O ponto de maior discussão é a seguinte afirmação, divulgada na fanpage da campanha: “diz que não existe racismo, mas: em 2012 a taxa de mortalidade por doença falciforme entre pessoas pretas foi de 0,73 mortes, de 0,28 entre pardas e de 0,08 na população branca (todas por 1000 habitantes)”.

Foi o estopim. Após essa frase, as entidades de representação médica afirmaram que o argumento era falacioso. Ora, se a doença falciforme é mais prevalente em negros, óbvio que a mortalidade na população será maior. Conclui-se que a campanha é uma farsa, apenas uma ardilosa estratégia do governo atual para distrair o povo dos reais problemas da saúde e do país e, mais uma vez, de modo perverso, demonizar os médicos. Na guerra de comments facebookianos e tuitaços, há a saída do campo da racionalidade e real discussão de ideias para o ringue de ofensas, ódio e impropérios. PT versus médicos. O duelo do século.

Mas o que pensam os negros, protagonistas da campanha e os principais alvos dessa discussão? Qual o posicionamento dos ativistas sociais dos movimentos negros, que muitas vezes não têm filiação partidária? O que eles acham dessa situação?

Para responder essas perguntas é preciso dar chance ao cérebro e aos ouvidos para buscar outras respostas, que saem do lugar comum. “Viver é fácil de olhos fechados, entendendo errado tudo o que se vê” cantou Lennon em “Strawberry fields forever”, na década de 1960, época em que o Congresso norte-americano discutia a lei dos Direitos Civis, Martin Luther King discursava as célebres frases encabeçadas por “eu tenho um sonho”, o parlamento britânico discutia a descriminalização de atos homossexuais e Carlos Moore vivenciava as experiências que o levariam a escrever o livro  “O Marxismo e a questão racial”, no qual denuncia que o fim do capitalismo não representa o fim do racismo, uma vez que até mesmo o comunista Fidel Castro decretou a “cor cubana” e baniu o candomblé.

Só que estamos beirando 2015. Hora (passada) de abrir os olhos para as mesmas questões.

Em primeiro lugar, é preciso entender o que significa o termo “racismo institucional”. Para o MS é um “fracasso coletivo de uma organização para prover um serviço apropriado e profissional para as pessoas por causa da sua cor, cultura ou origem étnica, podendo ser identificado em processos, atitudes e comportamentos que totalizam em discriminação por preconceito voluntário ou involuntário, ignorância, negligência e estereótipo racista, que causa desvantagens as pessoas de minoria étnica”.

Paula Vieira, enfermeira formada pela USP, integrante do coletivo de ativistas anti-racistas Quilombação (e que também contribui para o blog), exemplifica: sabe-se que hipertensão arterial tem maior incidência na população negra e mesmo assim, não há estratégia específica voltada a esse fato. Embora essa já seja uma informação cientifica comprovada, o sistema de saúde não desenvolve ação para acesso ao diagnóstico precoce e a um tratamento com qualidade” – texto na íntegra.

Para saber que o racismo existe basta estudar o mínimo de História. E para saber que existe até hoje basta viver no mundo real. Assim fica fácil entender que a campanha exposta neste ano por Arthur Chioro não nasceu da noite para o dia nem é de responsabilidade exclusiva do partidão. É uma resposta aos movimentos sociais negros que estudam incansavelmente a saúde dessa população e exigem políticas públicas específicas para o grupo em questão. É, por exemplo, resposta ao relatório da Associação Brasileira de Pesquisadores (aras) Negros (as) (ABPN) aos indicadores que apresentaram em 2012.

É claro que pesquisadores como os citados anteriormente sabem que a anemia falciforme está relacionada ao perfil genético, e que é uma mutação surgida como tentativa evolutiva de proteger os negros expostos à malária no continente africano. Portanto, o que a campanha quer, mas fez de forma atabalhoada em relação a esse dado, é chamar a atenção para a maior incidência de mortes por essa doença em negros, justamente porque eles são mais afetados e precisam de mais atenção nesse aspecto.

Por que só esse dado foi discutido à exaustão? Por que não se debate também o menor índice de pré-natal em mulheres negras ou a diferença de mortalidade entre crianças negras e brancas? Ou a diferença de acesso à atenção básica entre negros e brancos ou até mesmo o porquê de serem as pessoas que se declaram negras a maior parte dos usuários do SUS?

Também é passível de reflexão o fato de os médicos tomarem para si uma campanha que é voltada a todos os profissionais da saúde, o que inclui agentes comunitários e até mesmo auxiliares de serviços gerais…

Visões simplistas sempre são limitantes. É mais fácil reproduzir conceitos formulados do que criar novos. Precisamos de criatividade. O racismo não é o único problema do SUS, existem os estruturais, os de mão de obra, os de gestão. Mas começar dando voz aos oprimidos já é um grande passo, não é mesmo?

Por fim, condenar a campanha também afeta seus idealizadores. Transcende questões partidárias. É importante prestar atenção nisso.

 

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Referências:

População Negra e a luta diária pelo direito a saúde, Blogueiras negras: http://blogueirasnegras.org/2014/08/19/populacao-negra-e-a-luta-diaria-pelo-direito-a-saude/