Engraçado enquanto alguns caminham a favor de mudanças fundamentais na estrutura social outros caminham na contra mão da história. As últimas semanas pudemos ver quanto valeram as conquistas da democracia, ainda que ela seja incipiente levando em consideração que somos um país bastante jovem.

Bandeiras de todos os tipos se agitaram nos céus de norte a sul, desde a volta dos militares até o impeachment da presidente da república, o que significa dizer que o direito a liberdade de expressão e o exercício da democracia são garantidos e assegurados pela constituição.

Parte da humanidade vem caminhando a passos largos na direção de um futuro em que as minorias estejam incluídas, enquanto isso, ortodoxos radicais e fundamentalistas, atrasam o desenvolvimento dessa marcha que a cada dia se torna mais apressada e urgente.

Caminhar em direção de um objetivo comum é a ideia das manifestações, esse foi o objetivo das mobilizações das religiões de matriz africana ocorridas ontem em todo país.

A defesa por um estado laico é condição “sine qua non” para que o desrespeito às religiões de matriz africanas deixem as páginas policiais. O cumprimento daquilo que prevê a Constituição no artigo no artigo Art. 19 é o que pode garantir a liberdade de culto seja ele qual for.

O entendimento religioso e o caminho que fazemos em direção ao Divino são de foro intimo e pessoal, ou seja, as motivações que nos levam para esta ou aquela denominação religiosa é um direito de intimidade reservado a cada pessoa, depende de particularidades como: criação e as experiências de cada indivíduo no tocante a sua compreensão do que é imaterial.

O livro de João é um dos vinte sete livros que compõem o Novo Testamento é parte dos sessenta e seis livros da Bíblia Sagrada. Ele conta sobre a passagem do Cristo e seus ensinamentos quando sobre orbe terrestre. No capítulo quatorze versículo dois ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Ouso dizer que se existem muitas moradas também existem vários caminhos para se chegar a cada uma delas.

Pela conta cristã há dois mil anos a humanidade urge na mudança de sua conduta moral, para transformar o mundo em um lugar melhor. Numa era em que as informações estão cada vez mais rápidas e rasas, a oportunidade de adquirir conhecimento e se aprofundar em assuntos relevantes esta se perdendo com a mesma velocidade que as redes sociais agem em nossas vidas.

Essa mesma construção cis-branca-normativa que se arrasta desde a criação do mundo é a mesma que hoje em dia sob a égide das religiões neo pentecostais que insistem em oprimir e deslegitimar aqueles que se orientam através de praticas religiosas diferentes daquilo que eles acreditam sejam validas para chegar ao céu.

Nesse mesmo livro que válida as práticas neo pentecostais, a Bíblia, há uma passagem que ilustra sobremaneira o significado das mobilizações do último dia 23 de março, o capítulo treze versículo trinta e quatro diz: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros”.

Conclusão, esses “cristãos” além de não entenderem o recado o suprimiram a seu bel prazer para atender interesses que pouco tem haver com o cristianismo.

 

Povo de Santo reage

No última segunda-feira (23) aconteceu a Mobilização Nacional dos Povos de Santo, com iniciativa liderada pela Casa de Oxumarê e aderida pelos diversos estados brasileiros. Com base no que garante a constituição foi elaborado um abaixo assinado e as principais lideranças colheram assinaturas com filhos e simpatizantes e juntos foram unidos até os Ministérios Públicos das diferentes cidades mostrar que o povo de santo está por dentro dos seus direitos e exigem o cumprimento da lei.

Nos 26 estados da Federação houveram atos em frente aos Ministérios Públicos, com cantos e atabaques que faziam reverência a Xangô – orixá da Justiça – e sem deixar por menos, com a entrega da Carta Aberta às autoridades brasileiras, documentos e vídeos, nos quais denunciaram casos de intolerância religiosa e ataques às religiões de matriz africana.

Na Bahia, o Ministério Público Federal vai instaurar inquérito civil a partir da representação contra a intolerância religiosa protocolizada. Assim como em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, denuncia essa feita também pela popularização e disseminação do grupo “Gladiadores do Altar”, que segundo vídeos divulgados nas redes, prega a salvação das pessoas através de uma guerra invisível.

[youtube url=”https://www.youtube.com/watch?v=jEfizs9zGmQ&feature=youtu.be=”315″]

É importante dizer que perseguições, atos intolerantes e violências extremas vem sido protagonizadas por igrejas neo pentencostais, desde a morte de Mãe Gilda de Ogum até ataques a terreiros em Olinda, João Pessoa e a símbolos, como o caso da Pedra de Xangô. O crescimento das igrejas neo pentencostais juntamente com o projeto político bem articulado dos fundamentalistas eleitos caminha a passos frenéticos: ocupando câmaras de vereadores, câmaras estaduais e senado, esses abutres e “defensores da família” legislam em causa própria, ignorando a laicidade do estado e os direitos das minorias políticas.

Usando meios “legítimos”, como é o caso dos Gladiadores do Altar – já que se trata de uma organização dentro da própria igreja – até meios legais, se tratando da proposta que pretende vetar o sacrifício de animais (essa vez sugerida pela Deputada Regina Becker Fortunati (PDT) no Rio Grande do Sul), os evangélicos fundamentalistas parecem pretender enfiar goela abaixo suas crenças e visões de mundo de maneira sistemática e articulada.

Infelizmente estamos diante de dias aterrorizantes e cheios de batalhas a vencer. O ato do dia 23 foi uma mostra do que está ainda por vir.  Deixo vocês com o depoimento de Cris Gimenez:

De forma pacifica mostramos que quem tem raiz não foge a luta.

Com a presença articuladora do nosso representante no Grupo de Trabalho contra a Violência e Intolerância religiosa em Brasília Elias Pontes e das principais casas matriarcais de São Paulo e suas iyalorixas, babalorixas, yawos, abians e simpatizantes.

Para garantir que a lei seja cumprida.

Uma tradição milenar que trabalha no bem e no respeito a natureza e a ancestralidade, que acolhe os que são rejeitados pela sociedade e ajuda a sua comunidade das mais diversas formas começa a renascer com voz para exigir a igualdade perante todos.

Um novo tempo onde os ancestrais nos conduzem com sabedoria e discernimento comeca!

Que sejamos abençoados nessa nova etapa