Então, com esse questionamento inicio o meu texto para falar, enquanto mulher negra, lésbica e de periferia.  Sou oriunda de bairro popular, conheci o feminismo fora dos escritos registrados em inúmeras teorias, defendidas e recusadas pelas várias formas de vivenciá-las.

A Mulher Negra de Periferia conhece o Feminismo na sua luta diária, luta por sobrevivência que nem de longe anseia por visibilidade ou ser usada como referência de estudos acadêmicos. O nosso maior sonho é ver nossos/as filhos/as criados/as, crescendo sem envolvimentos em nada que seja ilícito.  Filhos e filhas que não precisam ser necessariamente nascidos em nossos ventres.  Para nós, os filhos e filhas das outras são nossos, por isso, que cada Jovem Negro que é exterminado levam com ele um pedaço de nosso útero.

Nas Comunidades Periféricas, assim como acorria nas Senzalas, impera a solidariedade de uma Mulher cuidar dos/das  filhos/ as  das outras, enquanto estão nas lavouras disfarçadas de emprego, de ocupações  de geração de renda.

Como todo ser objetivado, a Mulher Negra saiu das Casas Grandes, das grandes plantações, das moitas das fazendas e das camas dos senhores e passaram a ser exploradas em seu desconhecimento do que ocorre fora de sua realidade. Passou a ser explorada intelectualmente por suas pares, brancas e embranquecidas. Passou a ser trampolim de discursos, de experiências e teses que tentam retratar de forma torpe suas vivências cotidianas, seus sentimentos e angústias.

Como na Lei do Ventre Livre, o grande engodo é a suposta liberdade de expressão, de empoderamento, visibilidade, respeito à diversidade e a sua forma de exercer o feminismo bem oposto dos textos imortalizados em diversos artigos e referências acadêmicas.

A Mulher Negra de periferia conhece em sua essência o que é sororidade, o colocar- se no lugar da outra e nunca impedir que a voz seja calada, que seus sentimentos sejam sufocados, que suas angústias sejam minimizadas.

A Mulher Negra reconhece seu lugar de fala e seus saberes, mesmo que distantes das diversas linhas de pensamentos, tem seu próprio jeito de interagir e fomentar conhecimentos através de suas experiências e das experiências de suas companheiras. Mesmo enfrentando as mesmas reveses, nunca impedem que a outra faça seu próprio caminho, que busque alternativas de superação.

Não se pode pensar em libertar, sensibilizar negando à outra o direito de ser escutada. Ninguém é capaz de verbalizar o que vai em nosso íntimo que não seja nós mesmas.

“A vida intelectual não precisa levar-nos a separar-nos da comunidade, mas antes pode capacitar-nos a participar mais plenamente da vida da família e da comunidade”.

“E o conceito ocidental sexista/racista de quem e o quê é um intelectual que elimina a possibilidade de nos lembrarmos de negras como representativas de uma vocação intelectual.” Bell Hooks – Intelectuais Negras.

“As pessoas estudam, estudam, falam palavras difíceis que nem entendemos , damos um sorriso amarelo, uma xícara de café forte, um abraço e elas se vão. E ficamos aqui a matutar: esses jeitos delas, todas pensando que são importantes, que vão vencer as dores de serem sempre deixadas de canto, necessitadas de sorrir quando querem chorar, de ficar perto de alguém superior pra receber alguma coisa ou um lugar. Eu abraço porque sei que mesmo com tantos estudos o abraço sincero é o melhor remédio e isso não aprendemos na cadeira das salas de aulas, aprendemos na família e na Comunidade”. D. Francisca – Boiadeiro – Plataforma.

As mesmas falas, os mesmos sentimentos mesmo sem se conhecerem, porque há um elo que liga as Mulheres Negras, um elo que pode ser indissolúvel, que poder marcar positivamente as nossas vidas. Precisamos, enquanto Mulheres Negras, que usufrui de oportunidades e privilégios reconhecer em nossas pares parceiras capazes de transformações significativas. Precisamos fortalecer a autoestima e reconhecer em sua linguística uma forma de comunicação real, reconhecer uma comunicação que se faz entender e que pode revolucionar seu lugar de fala e outros espaços sociais.

É imoral repetir a fórmula dos escravagistas que maquiaram seus atos infames com Leis que impossibilitavam a liberdade real e plena. E é isso que fazemos quando delegamos a outras o nosso protagonismo; é isso que fazemos quando negamos o potencial de quem está longe dos espaços, legitimados pela sociedade excludente, como espaço de saber e desconhecemos  os saberes  vivenciados no dia a dia de quem está nas comunidades. É um engano acreditar que nossas ações deliberadas ou inocentes não estão sendo observadas, que o nosso embranquecimento intelectual não está sendo visto e refutado.

As Mulheres Negras carregam em sua essência a Ancestralidade, que lhes delega força e energia, que as impulsionam a preservar suas raízes. E essa mesma Ancestralidade retira os véus que as cegam, que as impedem de perceber as manobras  de silenciamento.  Não sairemos ilesas/os desses comportamentos de exclusão e de negação de direitos. A revolução é silenciosa, quando ela se mostra já não há como recuar ou criar estratégias de enfrentamento.

“O movimento de mulheres negras tem mostrado que não basta ser mulher para defender os interesses das mulheres, em suas tantas e infinitas identidades e necessidades.” Vera Soares

Quem fala por nós somos nós.

Todavia, nunca é tarde para nos percebemos, para enxergarmos que muitas vezes somos gandulas dentro dos sistemas racista, machista e lesbofóbico. Que nas idas e vindas do jogo elitista somos meras reprodutoras de comportamentos e atitudes que desprezamos.

Eu acredito, senão desisto da luta, que somos Todas Inocentes na violação de Direitos, de legitimidade, de respeito com as Mulheres Negras. Acredito por conhecer e saborear dos afetos de Mulheres Negras acadêmicas mas que não negam suas raízes e não se furtam de caminharem lado a lado com suas vizinhas, suas companheiras de buzus, de mercadinhos e bibocas. Eu acredito porque, essas mulheres, e aqui cito algumas, Ana Cristina (Negra Cris), Carla Akotirene, Nzinga Mbandi, Amélia Maraux,  Francylene Martins, Luciana Mota, Gerusa Sobreira, Natália Gonçalves, Hellen Caroline Nzinga, Damiana de Jesus e outras,  não temem que ocupem seus lugares mas ao contrário, entendem que só suas iguais podem garantir e fortalecer seus espaços políticos e sociais.

E enfim, só compreendemos o que vivemos. Se não misturarmos os saberes, passaremos nossas existências discursando pra nós mesmas e não poderemos evitar o tédio e a falta de ampliação de conhecimentos.  Precisamos nos abrir a outros olhares, a outras formas de vivências. Precisamos romper o medo do desconhecido e nos permitir a uma escuta qualificada, aceitando as divergências que nos convergirão para a Revolução Feministas.

Sim, Feministas. Porque o termo pode ser único, mas as práticas são inúmeras, diversas.  As especificidades de cada ser social determinará o jeito de experimentar uma vida longe das amarras do patriarcado.

Imagem destacada: Afropunk: Melanie Charles.