Com manequins que começam com o nº44, pouco sobra para as mulheres comuns quando o assunto é o guarda-roupa. Assim, fica a pergunta: o que resta – aos mortais – no mundo da moda?

Antes de tudo é importante contar o ponto de partida: quem narra esse texto é uma garota negra, dita gordinha (confesso não lidar muito bem com essa palavra em sua plenitude), chegando a casa dos 30. Há um tempo abandonei o uso do jeans – comprar esse tipo de peça era de uma dificuldade atroz, me viro bem com meia calça, vestidos e saias.

Embora torça – ou melhor, vinha torcendo – o nariz para a chamada moda plus size (tinha críticas que vinham desde o nome, nunca entendi porque usar um termo em inglês? Por que não dizer moda para gordos?) até as estampas. Sempre achei tudo com cara de cortina de sala da tia avó. Isso me irritava.

Apesar desse olhar viciado e pouco disposto, é impossível não encarar o fato de que até nas lojas de departamentos temos manequins que vão até o 58, um 58 meio estranho, apertado, mas 58. Há um movimento que coloca as mulheres gordas em evidência, estampando até revista sensual. E isso me fez sentir melhor…

Porém, quem são as mulheres gordas na mídia plus size? As minhas impressões diziam: a maioria não é obesa, muito menos preta. Fui atrás de referências e encontrei Fabíola Romão – já na foto de seu perfil do Facebook você já entende o que é autoestima nas alturas. Uma mulher negra com o corpo parecido com o meu, de corpete? Logo pensei, é disso que estou falando.

O mais engraçado foi saber que com ela tudo começou em 2011, por conta dessas revistinhas mais baratas de banca de jornal, uma amiga indicou uma seleção para novas modelos plus size e ela aceitou o desafio. Em 2012, veio o título de Primeira Musa Plus Size do Carnaval de São Paulo e os desfiles no Fashion Weekend Plus Size, um dos principais eventos desse segmento da moda.

“Acredito que a moda plus size vem crescendo porque cada vez mais as mulheres do manequim acima do 46 estão se descobrindo, como qualquer mulher do manequim 36 ou 38. Infelizmente vivemos no país do preconceito, aonde temos que lutar muito ainda para ser aceita por uma sociedade imposta de padrões que não existem. Na verdade, existem mulheres de vários biótipos algo que as confecções estão atentas, afinal, o mercado cresce a cada dia”, ressalta Fabíola.

A partir de minha hipótese de que o mercado da moda, também plus size, é preconceituoso, fui atrás do pessoal que fica do lado de lá do balcão e quis entender como funciona o processo de contratação de modelos, negras ou não, para os trabalhos. Cheguei à Agência São Paulo Plus Size, uma das primeiras a ter um casting de modelos gordas na metrópole.

Por meio de uma rápida entrevista por email, Paulo Gibo, fotógrafo e idealizador da iniciativa, contou que, geralmente, os clientes entram em contato por telefone e e-mail, passam as características da proposta e a agência encaminha modelos conforme a solicitação. “Suprimos a necessidade do nosso cliente, encaminhando várias opções para que assim ele possa encontrar o que procura. Em relação a contratação vai muito do carisma da modelo, onde mostrará simpatia e confiança”, relata. Ele admite que as garotas negras procuram a agência em menor número do que as brancas e chega até a conclamar que nos mostremos mais ao mundo.

Fabíola, por sua vez, afirma que até o momento não levou um ‘não’ declarado por conta de sua cor, mas sente que tem menos trabalho por conta do racismo. “Sou sempre elogiada pelo meu tom de pele, cabelo, curvas, sou uma gordinha com boas medidas, mas no final não sou a selecionada para o job. Isso me deixa triste… Temos modelos plus size negras lindas, que gostariam de desfrutar das mesmas oportunidades. Eu adoraria viver de moda!”, lamenta.

Que representatividade é fundamental, nós já sabemos. Porém, infelizmente, sabemos também que nada nos é dado espontaneamente em uma sociedade racista. Teremos que entrar – e já estamos entrando – com o pé na porta mais uma vez. O padrão de beleza universal é associado ao branco (não seria diferente na moda plus size) e quando identificamos avanços no sentido de ruptura dos padrões, pouco ou nada é pautado sobre a questão racial.

Como mesmo comenta Fabíola: “eu acredito que temos muito que conquistar, tenho amigas que moram na Europa e por lá as modelos plus size negras são muito valorizadas. Só que sem dúvidas esse segmento da moda contribuiu para a quebra de paradigmas. Eu sou prova disso. Ser modelo negra e plus size exige muita coisa, não basta ser comum e gordinha, exige autoconfiança, beleza, postura, manequim, vaidade e cuidado com a saúde. Desejo estar ainda estampando muitas capas e jobs plus size com muito orgulho da minha origem. Eu chegarei lá e volto pra contar para vocês!”, conclui.

Confesso que anseio por uma escalada profissional exponencial de Fabíola e tantas outras modelos, igualmente quero que as determinações dos números de uma balança e dos mais variados tons de pele impactem cada vez menos sobre nós e o que somos socialmente. E se essa tal moda plus size começa no 44, podemos começar assumindo que ela é o padrão, ela é da nossa conta e que, portanto, no Brasil, ela deve ser negra.

 

Imagem destacada: Gallery Hip – http://galleryhip.com/