“Quando nos definimos, quando eu defino a mim mesma, quando defino o espaço onde eu sou com você e o espaço onde não sou, não estou negando o contato entre nós, nem estou te excluindo do contato – estou ampliando nosso espaço de contato”.

Audre Lorde

Nos últimos meses, quando encontro a oportunidade de dialogar com minha mãe e outras mulheres pretas, sinto um alívio na alma e coragem para construir cada novo dia. Essa atitude é de suma importância para nós mulheres negras, cada vez que encontramos espaços não opressores para falar/ouvir sobre nossas questões afetivas, estéticas e psicológicas abre-se um mundo que nos apresenta as diversas identidades presentes em nós que favorecem nosso movimento.

Sendo o encontro umas com as outras, um momento que propícia a empatia, alteridade e identificação, já que nossas histórias se cruzam nas peculiaridades individuais que possibilitam ressignificações de suas experiências emocionais/afetivas e sociais (Pacheco, Ana Cláudia Lemos). Tais ressignificações somam no processo de descolonização das mentes e no tornar-se negra!

A partir disso, o ato de expormos nossas inseguranças, anseios, perspectivas e afins, pode ser uma forma de cura do peso secular que o racismo e o machismo depositam em nós continuamente com estratégias variadas ao longo do tempo.

Assim, observa-se que tem se tornado crescente, tanto no âmbito virtual, quanto no presencial a viabilização do diálogo entre as pretas – visto em rodas de conversas organizadas em diferentes locais no último mês de março, em uma delas Conceição Evaristo, no auditório do Ibirapuera mencionou a relevância do coletivo, a necessidade do não caminhar sozinhx.

E a partir do entendimento de que o coletivo impulsiona nossos passos, compreendo que em cada silenciamento há um grito de revolta, e quando há a possibilidade de ouvir e falar por nós mesmas levantamos cada vez mais a consciência coletiva de que não estamos sós. Falar de nossas especificidades é alimento da força motriz, é um ato político, já que cotidianamente é visível o abrandamento de nossas manifestações e posicionamentos.

A sociedade não deve nos obrigar á superar as opressões caladas. Entende-se que nesse contexto, somos fortes à ponto de nos reconhecer umas nas outras dentro de uma sociedade que deslegitima a todo instante nossas pautas e tentam calar nossas vozes, num legado histórico que nos tiram o direito de sentir, nos pretere e oprime.

Partindo disso, o fato de trocarmos experiências nos fortalece para a luta e empoderamento, porque ao ressignificarmos nossa existência através do diálogo, é notável que esses espaços valorizam nossas vivências, ainda mais quando se insere nas periferias, evidenciando estórias e relatos tão importantes quanto uma teoria acadêmica. Endosando que nossa luta é legítima a partir de nossas vidas, sim.

“Meus silêncios não tinham me protegido. Tampouco protegerá a vocês. Mas cada palavra que tinha dito, cada tentativa que tinha feito de falar as verdades que ainda persigo, me aproximou de outras mulheres, e juntas examinamos as palavras adequadas para o mundo em que acreditamos, nos sobrepondo a nossas diferenças. E foi a preocupação e o cuidado de todas essas mulheres que me deu forças e me permitiu analisar a essência de minha vida”.  Audre Lorde

Pelo direito de podermos devanear sobre nossas vidas, denunciar todo tipo de abuso, falar sobre expectativas e decepções, caminhando de contramão às estruturas institucionais que nos enxergam como uma “espécie” diferenciada, um ser que não precisa ser anestesiado, nos deixando inúmeras marcas.

Juntas somos resistentes!

 

Imagem destacada: Page Meninas Blackpower

Referências:

http://minhateca.com.br/Gabriela.Ramos/ARQUIVOS+DE+TEXTO/Audre+Lorde+-

A irmã outsider Audre Lorde

Gênero, Raça e Ascenção social – Sueli Carneiro