Bah, a guria tem que ouvir que é linda desde o dia em que nasce!” Foi ouvindo seu delicioso sotaque gaúcho que conversei com Daiane dos Santos – a moça de 1,46m que encantou o mundo com sua explosão e precisão na ginástica artística, fazendo movimentos complexos e ao mesmo tempo harmoniosos ao som do choro ‘Brasileirinho’, de Waldir Azevedo. Falamos sobre esporte, sobre projetos, sobre ser mulher e, principalmente, sobre ser mulher negra.

A conversa, que era para ser rápida, pois estávamos as duas em intervalos de atividades num papo pelo telefone, foi empolgando e tomando o tempo que, ao menos para mim, foi excelente e precioso.

O que me motivou a conversar com Daiane foi acompanhar por intermédio de relatos doídos e periódicos de uma amiga, o drama recente de sua filha, uma menininha negra que praticava ginástica artística em um clube conhecido. Excluída pelas colegas e suas mães – muitas nem ao menos olhavam para ela – e, apesar de seus bons resultados, preterida pela equipe em situações cotidianas, a criança estava deprimida e desestimulada para continuar no esporte.

Quem viu a poderosa Daiane em ação nos tablados mundo a fora, não imagina que ela passou por algo muito semelhante ao ocorrido com a filha da minha amiga. E já começou nossa conversa dando nome aos bois. Com a palavra, Daiane dos Santos.

O Preconceito é uma praga! Ele sempre existiu, mas era velado. Agora, principalmente com a internet tudo é exposto na hora. O ser humano é naturalmente preconceituoso. As pessoas tem a tendência a rejeitar o que é diferente delas. Quem disse que o cabelo crespo é ruim? Quem disse que negro é feio? Quem disse que o nosso corpo é menos que o de qualquer outra pessoa? Quem estabeleceu estes padrões? Acho que esse trabalho de auto-estima tem que ser feito em casa.  Muitas famílias não preparam as crianças para enfrentar isso. Negam a existência e aí quando a menina vai pro mundo sofre. Estou te entendendo porque dói quando vemos uma criança sendo alvo de preconceito. Dói nela e dói em nós.

Relembrando a trajetória da atleta Daiane, ela começou na modalidade aos 11 anos, mais tardiamente que a maioria das ginastas, que geralmente iniciam por volta dos seis anos ou menos. Foi descoberta na Associação dos Amigos do Centro Estadual de Treinamento Esportivo pela professora Cleusa de Paula e mais tarde passou a defender o clube Grêmio Náutico União, ambos em sua cidade natal: Porto Alegre. Tão complicado quanto o treinamento pesado da ginástica foi superar os rótulos e a descrença.

Aconteceu comigo quando comecei a disputar em clube grande. Algumas mães e também muitas crianças não falavam comigo! Simplesmente me ignoravam. Eu não me importava. Mas por que eu não me importava? Fui trabalhada em casa. Lembro que muita gente perguntava: “Por que você escolheu ginástica? Por que não faz atletismo que tem mais a ver com o seu biótipo?”

E eu me perguntava: “Por que não poderia fazer outro esporte que não fosse atletismo? É algum reduto só para negros?” Estes são estereótipos ainda difíceis de quebrar, mas estamos progredindo!

Ela apareceu para o Brasil inteiro em 1999, nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg/CAN, quando ganhou a prata na prova de salto e bronze em solo e por equipe. Dois anos mais tarde, em 2001, terminaria na quinta posição no Campeonato de Gante, na Bélgica e em 2003, depois de mudar-se para Curitiba onde treinava com o técnico ucraniano Oleg Ostapenko, ela ganhou a primeira medalha de ouro para o Brasil na história de um Campeonato Mundial de Ginástica, na californiana Anaheim, fazendo pela primeira vez o duplo twist carpado, movimento com altíssimo grau de dificuldade e que ganharia o nome de Dos Santos, pois foi a primeira atleta no mundo a executá-lo.

Nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, ela chegou como favorita, mas um passo dado para fora do tablado a tirou do pódio colocando-a na quinta posição, mesmo assim este foi o melhor resultado da história do país na modalidade até então.

O ciclo que culminou com os Jogos de Pequim 2008 foi atribulado, com sérias lesões. No Pan de 2007, no Rio de Janeiro, ela competiu machucada, mas ainda assim conseguiu uma medalha de prata por equipes. Nas Olimpíadas da China surpreendeu e conseguiu a sexta posição no solo.
Daiane decidiu parar em 2013, após sua terceira Olimpíada, devido às dores no joelho. Em Londres 2012, ela foi a melhor brasileira na competição, terminando em 17º lugar no solo. O fim da carreira de atleta, no entanto, a alçou a outros patamares e libertou suas longas horas de preparação para que ela possa desempenhar outras funções e cumprir outros papéis na sociedade.

Acho que o mundo do esporte é difícil para as mulheres em geral e mais difícil ainda para a mulher negra, pois enfrentamos o preconceito explícito e o mascarado. Mesmo depois de adulta, muita gente ainda não falava comigo e sei que o motivo era esse. Isso te revolta, mas sempre tive em mente que não era eu quem tinha que me envergonhar de nada e sim eles. Hoje faço parte da ‘Comissão da Mulher no Esporte’, do Comitê Olímpico Brasileiro, e estamos estudando algumas questões particulares femininas na área médica e social. Não queremos privilégio algum, apenas igualdade de tratamento e atenção com as nossas particularidades.

O trabalho específico de gênero desenvolvido por diversas confederações esportivas e também pelo Comitê Olímpico Brasileiro, segundo Daiane e várias outras atletas, tem surtido efeito.

Para a equipe olímpica brasileira dos Jogos de Londres, 45% das medalhas foram femininas, então, vemos que melhorou muito. No entanto, ainda temos esportes em que o preconceito é fortíssimo, como no caso das lutas e do futebol. Grande parte da nossa sociedade ainda torce o nariz quando vê uma mulher lutando ou jogando futebol. Somente agora temos um centro de excelência para o feminino e temos uma das maiores jogadoras do mundo (Marta Vieira da Silva, prata nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e Pequim 2008. Melhor jogadora do mundo pela FIFA de 2006 a 2009 e Bola de Ouro da FIFA EM 2010). Eu sou bem feminista. Estamos ganhando muito espaço, mas acho que precisamos nos unir mais. Vejo as mulheres de um modo geral ainda muito pouco mobilizadas. Podemos mais! No caso específico das mulheres negras creio que o trabalho feito em casa é 50 por cento. Se você ouve desde cedo coisas como “Você é linda como você é. Não existem pessoas iguais, cada um é bonito com a sua diferença” tudo fica mais fácil porque é algo em que você acredita de verdade. É um valor que está entranhado em você.

Nossa conversa terminou com um recado e um desafio não só para a minha amiguinha ginasta, mas para todas as meninas (negras ou não).

Para as atletas que estão chegando agora e não apenas as atletas, mas para todas as meninas eu diria: “Quero que consigam ser melhores que nós. Que ousem mais, que sejam mais corajosas e quebrem todas as barreiras impostas”.

Assim será, querida “Flor da Cor” Daiane dos Santos!