Abrir a Semana Mulher Negra Resiste, em plena semana de 13 de maio, é desafiador. Mas quanto mais vivo essa militância, mais me vejo desafiada, especialmente para não sucumbir a cada depoimento, a cada tristeza, a cada dor. No último dia 17 de março (sempre essa data…), uma pessoa me chamou em particular no Facebook e me contou que sua prima de 8 anos estava sofrendo bullying em uma escola pública aqui em Belém por causa do “cabelo armado”. A mãe da garotinha estava pedindo ajuda porque a filha chegava da escola chorando por causa das zoações das outras crianças. A pessoa que me procurou disse: “Queria ajudar ela no sentido de fazer com que ela entenda que o cabelo dela não tem problema nenhum”.

Como ela me pedia por leituras, comecei a orientar os caminhos possíveis para textos que tratassem de racismo na infância, de autoestima, de estética… mas eu não ficaria satisfeita porque é o tipo de história que vemos acontecer quase diariamente.

Eu estava com minha mãe internada com forte crise asmática e estava imersa junto com ela na enfermaria do hospital. Não podia falar muita coisa ali, então respirei fundo. Segurei o choro. E como que recebendo um sopro ancestral, me mantive lúcida e ofereci ajuda ao invés de sucumbir. Ao mesmo tempo que comecei a conversar com Márcia*, a mãe, por mensagens, para conhecê-la e conhecer mais sobre Julinha**, pedi socorro às amigas de militância. Conforme ia recebendo os relatos desesperados de Márcia, buscava refletir junto às Pretas Agressivas*** sobre as possibilidades de ajudarmos não só a Julinha e sua família, mas aquela comunidade escolar.

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Nossa primeira decisão foi garantir que Julinha não se sentisse sozinha e desamparada, como muitas de nós estivemos ao longo de nossas negras infâncias. E então começamos a tecer uma rede de afetividade, à distância mesmo, para dizer a ela que estávamos juntas e que nossos cabelos não merecem adjetivos ruins. Somos resistência e nossa história vem de longe, nossas belezas são legítimas e diversas, ninguém pode nos tirar isso. Na mesma semana a ONU laçou uma campanha estrelada, pelo Lázaro Ramos, de combate ao racismo na infância, o vídeo da pequena Carolina desbancando o racismo direcionado ao seu cabelo também estava sendo muito compartilhado naquela mesma semana. Óbvio que a história de Julinha não nos caiu em vão ou por mera coincidência.

Mas como levar à Julinha esse amparo, já que naquele momento não poderíamos estar presencialmente?

Chamego de Abayomi

Boneca de pano
feitas de nós
e de muitos NÓS
pluralidade, identidade, acalento
(re)encontros, presente

Que a cada saudade
a cada banzo
uma nova Abayomi nos traga a certeza da não solidão
porque sim, nós não andamos sós
nossos passos veem de longe

(Thiane Neves Barros)

 

Foi então que, com certeza por inspiração ancestral, rasgamos nossas roupas e demos os nós que envolveriam Julinha em afetividade. Nos transformamos em abayomis naquele exato momento e formos acalentar mais uma criança negra que passava pela mesma dificuldade que tantas outras crianças negras tem passado nos últimos 600 anos. Somos resistência e nosso papel é fazer as nossas crianças resistirem, só assim existirão menos mulheres negras com baixa autoestima e sem coragem de se olhar no espelho ou de publicar uma foto sua em mídias e redes sociais. Cada uma de nós gravou um ou mais vídeos contando nossas pequenas histórias, histórias de nossas crianças, e da relação com nossos cabelos e nossas belezas.

As abayomis são a esperança de resistência negra, dedicada à infância, até hoje. São atlânticas como nós, vieram com as nossas e eram feitas nos foços dos navios negreiros não para saciar a sede ou a fome física, mas saciar a saudade de casa, de seu território, de seus afetos, para que as crianças não morressem do mesmo banzo que as pessoas adultas. Foi esse sentimento que nos fez envolver Julinha em nossa força, em nossa resistência. Porque a cada mulher ou criança negra empoderada, menos uma para sucumbir às mazelas do racismo. Mais uma para buscar conhecer sua história e compreender que a solidão que a diáspora nos deu como herança só pode ser amenizada quando nos somamos e multiplicamos.

Julinha passou por diversas fases ao longo desse processo de bullying racial. Revidou. Bateu. Chorou. Calou. Encondeu-se. Todas nós passamos por isso, inclusive enquanto adultas, e trazer Julinha de volta ao seu direito de ser quem é, foi nossa esperança de ter menos uma criança adoecida pela solidão e pelo banzo. Por ela e com ela, pudemos nós também nos desfazermos de traumas que carregamos desde quando começamos a entender as primeiras palavras de agressão aos nossos cabelos e ao nosso tom de pele. Como Lorena, Julinha teve que pedir desculpas às outras crianças que a agrediram, porque ela estava errada em não aceitar uma brincadeira tão inocente, aos olhos de professores e direção.

Temos uma lei em exercício há mais de dez anos que nos assegura o direito ao ensino da história e da cultura africana. Para que as crianças negras não se sintam deslocadas, sem pertencimento ancestral, deslocalizadas. E não só a escola de Julinha, como outras centenas pelo Brasil todo, desconhecem a obrigatoriedade desse ensino ancestral, não se reconhecem infratoras. E tudo não passa de brincadeira de criança. As famílias de crianças negras também têm o direito a não moldar suas crianças aos padrões estéticos europeus enraizados na sociedade brasileira ou nas demais sociedades de tradição escravocrata. Julinha, Lorena, eu, vocês … cada uma de nós deveríamos ganhar abayomis sempre que sentirmos saudades daquilo que nem sabemos explicar, as saudades de casa.

O resultado dos vídeos que enviamos à Julinha foram lindos vídeos e fotos suas que nos deram a garantia de sua melhoria, de que aquele banzo estava diminuindo. Sorrisos. Cabelo enfeitado. Vaidade. Conseguiu voltar pra escola e fazer seus deveres de casa. Até a irmã mais velha de Julinha fez um vídeo mostrando seu amor pela caçula. Via Facebook pudemos acompanhar o não silenciamento da família, especialmente de Márcia, que também se fortaleceu para combater o racismo direcionado à sua criança.

Nossa missão não acabou. Nunca acabará. Adoraria colocar os vídeos para vocês verem, mas não pedi autorização de Márcia para expor Julinha. Quem sabe um dia. Ela é muita beleza e muito amor.

Nossa capacidade de resistir também foi herdada, vem de longe, vem desses passos longínquos e cansados. Não devemos nada à Isabel, muito menos a qualquer outra pessoa que não traga em si essa dor negra ancestral e essa necessidade permanente de não sucumbir à falta de amor, à falta de voz, à falta de um território pra chamar de seu. Somos abayomis, somos reencontros, somos nossos melhores presentes.

 

* , ** Márcia e Julinha não são suas verdadeiras identidades. São nomes fictícios.

* Pretas Agressivas é uma de minhas mais caras coletividades. Somos sete mulheres buscando não sucumbir e juntas lutando pra enegrecer outras mulheres, crianças e homens também.

imagem destacada: Filme “A cor púrpura”, imagens da internet. Direitos autorais reservados.