13 de maio. Poderia ser mais uma data regida sob o signo de touro. Ou o 132° dia do ano.

Mas aconteceu de , em 13 de maio de 1888, uma princesa branca européia, assinar um papel que pôs fim a escravidao no Brasil. Nada contra ser branca, nem ser europeia.

Por esse motivo, o dia 13 de maio virou feriado, a tal princesa branca européia, Isabel, passou a ser idolatrada como a verdadeira heroína da aboliçãoo da escravatura.

Não, não foi bem assim. Essa foi a história que nos foi enfiada goela abaixo desde todo o sempre. Ainda bem que o tempo passa e com o advento da internet, um certo monopólio da informação saiu das mãos dos mesmos. E pudemos aprender e refletir sobre o que não foi contado.

Quando crianca, na época da escola, sempre que contavam sobre a vinda da população negra pro Brasil e, principalmente, do bla bla bla da abolição da escravatura.

Resumão básico.

População negra veio pro Brasil em navios. Vieram para ser escravizada.

Trabalhavam sem pagamento, em condições desumanas, afinal, não eram considerados seres humanos. Eram objetos, coisas, propriedades. Haviam punições físicas. Mulheres negras eram estupradas. Tantas outras pessoas apanhavam, eram torturadas. Morriam. Mas também lutavam contra a escravidão, se rebelavam de inúmeras formas. Resistiam. Organizavam rebeliões. Fugiam. Criavam seus próprios espacos, os quilombos. Ah! Mas isso ninguém conta, afinal, deve ser mantido o mito do negro pacífico e submisso.

Por inúmeros fatores, especialmente econômicos, foram dando os contornos do fim da escravidão. Dentre eles, uma pressaozinha da Inglaterra, que estava em plena Revolução Industrial, buscava por óbvio novos consumidores para os produtos. Um belo pressionar, com sabor de chá das 5.

A princesa branca veio e, uau, assinou a abolição da escravatura! Como ela é boazinha.

(E ninguém conta que o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão  negra. É, em 1888, há apenas 133 anos. Em termos históricos, praticamente na semana passada).

Tudo bem que, antes dessa assinatura, já haviam “libertado” as crianças. Vale dizer, porém, com a Lei do Ventre Livre, que as crianças nascidas a partir daquele momento não seriam mais escravas… e só poderiam ficar com as famílias até completarem 8 anos de idade, quando o “proprietário” as poderia entregar para o governo e receber indenizacão – essa parte ninguem contou, certo?

E sim, não podemos esquecer que veio também aquela lei que libertava escravos com mais de 65 ano, se é que algum aguentava viver tanto tempo. Mas, a questão da Liberdade era igualmente questionável: “libertar” aos 65 anos significava que o “proprietário” não precisaria se preocupar com a saúde e condições dessa pessoa ex escrava – é, também não contaram isso na escola.

A assinatura da abolição foi um, basicamente um “Olha, pessoal moreno! Agora não vamos mais brincar de escravos, ok? Vocês estão Livres… saiam logo daqui! Se virem! Agora cada é um por si”. (Meritocracia Já!)

Foi um “Get a life!” histórico. Em seguida comecam a vir imigrantes europeus para ocupar os postos de trabalho antes realizados pelas pessoas negras. Pagos, ainda que mal e porcamente, mas pagos.

E veio a minha pergunta que nunca ninguem respondeu:

Se imigrantes da Europa vieram pra trabalhar no Brasil, não teria sido mais fácil apenas passar a remunerar a população negra ex escrava que já existia e que sabia o que fazer?

A história sempre foi contada sob as lentes eurôcentricas, nada mais natural que heróis e heroínas dessa história sejam pessoas brancas, pessoas tipicamente européias, que representem o imaginário dominante naquele tempo. Dominante também nos dias de hoje.

Através da História podemos contar a histórias da pessoas negras, o que elas viveram. Ainda que nós mesmas, pessoas negras hoje, não tenhamos experimentado aquele tipo de opressão, temos a  vivência da violência banalizada e silenciosa que nos amarra até hoje.  É contra esse sistema racista perveso que lutamos. E sim, querermos e elegemos nossas heroínas e heroís. Temos voz e ninguém ouse nos calar.

Nossa identidade negra nos dá plena legitimidade sim para dizer  que não, essa mulher branca não me representa. Não queremos heroínas brancas, nem heróis brancos.

A princesa branca representa a sociedade branca mesma que foi escravagista e que se beneficiou do sangue negro que correu no trabalho escravo. A branca princesa européia representa a redenção para toda uma sociedade branca escravagista, ela “apagou” os pecados da escravidão – pensam as pessoas brancas.

Nós, mulheres negras não pensamos assim. A escravidão permanence, com outros nomes, agindo com outros instrumentos. Nós, mulheres negras, queremos nossas heroínas, mulheres negras para qual possamos dirigir nosso olhar e dizer sem palavras “ela é uma igual”. Nós carregamos a legitmidade pela nossa luta todos os dias, basta a nós, todos os dias abrir os olhos, acordar e mirar o espelho e lá está a nossa legimidade para a luta: a nossa pele escura, a nossa negritude. Nossa identidade NEGRA!

 

Imagem destacada: I love being Black Fanpage.

  • Helena

    Uma observação: nem todos os brancos veem a Princesa Isabel como heroína ou consideram que ela “apagou” os horrores da escravidão.

    Sou branca e sinto muita vergonha de saber ou de lembrar tantos horrores que as pessoas da minha cor cometeram.

    Sei que nunca vou entender a dor das mulheres negras, afinal eu estou numa posição privilegiada no que concerne à raça.

    Sempre tento deconstruir o racismo e não oprimir ninguém. Por isso adoro o blog e o sigo há muito tempo.

    Texto incrível, aliás!

  • Lucas

    Só uma pequena observação: a princesa era branca, mas não européia. D. Isabel nasceu no Rio de Janeiro em 1846 🙂

  • LINDO LINDO LINDO LINDO!!!! SEM PALAVRAS, PARABÉNS!!!

  • Parabéns pelo texto, realmente muito bom.
    Estudei em uma escola meio “diferente”, que tinha essa ideia de contar a história completa das coisas pra gente. Por isso nunca vi a princesa Isabel como heroína.
    Mas senti falta de saber mais da história da África. A gente sabe nomes de reis, rainhas, cidades e datas europeus, porque não sabemos o mesmo da África? A história desse continente me foi contada como “tinha um monte de tribo, aí os Europeus vieram, iniciaram um comércio, e depois colonizaram”. O mesmo tipo de história que contam sobre os indígenas sul-americanos. Mas as coisas não são simplesmente assim. O que acontecia na África durante a época feudal? Como era o Brasil durante a idade da Grécia Antiga? Por que não aprendemos lendas africanas na escola, e só os “contos de Grimm”? Por que não aprendemos lendas indígenas?
    Desconfio que essas informações nos fazem muita falta. A todos, negras, negros, brancas e brancos (que dirá a mim, que nem sei direito de que cor que eu sou).

  • Marcia

    Duas questões: a autora afirma em seu texto que 13 de maio é feriado? Graças aos deuses, não é… Não ha nada o que celebrar em uma farça. Outra: Complementar que a lei do sexagenário, ou seja aquela que tornava livre um escravo ao completar 60 anos era apenas um faz de conta, uma vez que a a expectativa de vida de um escravizado era de apenas 8 anos…

    • Des777

      A vida de um escravo era reduzida devido a função que praticava, portanto essa data de expiração de 8 anos se aplicava às atividades que moiam gente, engenho de cana, mineração… Os escravos urbanos e da pecuária em funções de feitoria, além dos escravos domésticos, conseguiam atingir tal idade em que eram descartados.
      Essa página abaixo mostra um pouco dessas pessoas ao fim da escravidão retratadas pelos fotógrafos do império. O comentário é de Lilia Schwarcz uma historiadora e mostra bem essa questão do Império querer fazer propaganda da escravidão “branda” que acontecia por aqui, vergonha para a casa real na Europa, “matriz” do último país a ser forçado (economicamente) a abolir a escravidão.

      http://www.blogdoims.com.br/ims/entre-cantos-e-chibatas-conversa-com-lilia-schwarcz

      O Paiz – Edição de 14 de maio de 1888
      http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=103730_02&PagFis=13781

      A Gazeta de Notícias – Edição de 14 de maio de 1888
      http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=178691_01&PagFis=5322

    • Des777, O Império da Necessidade, de Greg Landin, é um livro interessante sobre o cotidiano dos escravizados…

      Da sua fala, faltaria, na minha modesta opinião, dizer que a lei do sexagenário é introduzida somente nos anos finais do regime escravagista, numa tentativa desesperada de manter o regime de pé, mesmo quando este já não era necessário aos propósitos imperialistas mundo a fora. Argumentar que todos os escravos urbanos alcançavam seis décadas de vida, de certa forma, mais uma vez na minha modesta opinião, colabora ainda que involuntariamente, para a “propaganda da escravidão branda”, ainda que tal brandura estivesse localizada em determinados setores econômicos onde foi aplicada este tipo de mão-de-obra.

      Por outro lado, nem mesmo brancos livres alcançavam todos os sessenta anos de idade, visto que mesmo no final do século 19, a expectativa dos que aqui viviam não alcançava este patamar.
      Em retribuição aos seus links, sugiro, Capitalismo e Escravidão, de Eric Willians. Obra ícone da investigação sobre a escravidão e seus legados, bem como sua com questões capitais ( sem trocadilhos) que até hoje nos mata. Obra de 1944, reeditada recentemente, fonte provável de Lilia Schawarz.

    • Obrigado pelas indicações Márcia, já entraram na minha lista de leituras.