De 1888 para 2015 muita coisa mudou. Por quase quatro séculos pessoas negras foram escravizadas e forçadas a trabalhar em países diferentes do seu, o Brasil foi o ponto de chegada para milhões dessas pessoas. Elas foram escravizadas porque não eram consideradas “gente”, para os “donos”, elas não tinham alma e não sentiam dor. Ok, passou mais de um século desde a Lei Áurea, cá estou e também um monte de descendentes de escravizados. Estamos pautando as nossas lutas para acabar com a herança da escravidão: o racismo.

Essa introdução é necessária para que explicar o porquê de não batermos palmas para comerciais como o de O Boticário.

Achei bem legal a ideia de vários casais e também a resposta “firme” que a empresa deu aos homofóbicos, dizendo que defende o “amor independente de idade, RAÇA, gênero ou orientação sexual”.

No comercial, há diferença de idade, há lésbicas, há gays, só não vemos uma pessoa negra que seja. Nenhuma pessoa para representar o grupo tratado como minoria, mas que forma 50,7% da população brasileira… Também não há pessoas gordas. Ou seja, a Boticário mostra as diferentes formas de amor entre pessoas brancas, bem vestidas e magras.

No mesmo dia, eu me deparo com a campanha da Gang sendo elogiada, lá, sim, há pessoas negras. Um rapaz negro abraça uma moça branca e uma mulher negra abraça um manequim de loja… Entrei no site da loja, vi as fotos do catálogo. Há duas fotos da modelo negra. Em uma ela passa batom e na pagina ao lado há um homem com duas marcas de batom no rosto. Os dois não se olham e não se tocam. Na outra foto, ela abraça o manequim. No vídeo da campanha a situação é pior. A modelo negra só aparece beijando a manequim e mais nada. Ela é única que só demonstra afeto por um ser inanimado. Isso reforça a ideia da solidão da mulher negra. Se quiseres mais informação sobre esse assunto, procura aqui no Blogueiras Negras.

Aí o povo vem: “poxa mas é difícil agradar vocês, O Boticário faz um comercial bacanudo, mas vocês reclamam. Vem a Gang e coloca pessoas negras e vocês reclamam também… Que chatos, hoje tudo é racismo!”

Bom, como eu falei no primeiro parágrafo, há pouco mais de um século não éramos considerados nem gente, hoje estamos estudando, conquistando espaços e já representamos mais da metade da população do país. Estamos questionando muitas coisas que antes eram consideradas “normais”, como a blackface, por exemplo, ou a nossa falta de representatividade em muitos espaços. São pautas novas porque agora temos vozes. Nossas vozes se encontraram nas mídias sociais e estão reverberando.

Desconhecer as pautas das pessoas negras e deslegitimar com esse papo de que “hoje tudo é racismo e/ou politicamente correto” é um privilégio que nós não temos. Nós estudamos os vários aspectos do racismo todos os dias. Não vamos retroceder, vamos continuar incomodando quem se ressente de reconhecer que estar em determinada posição e majoritariamente em determinados espaços é um privilégio. E esse direito que era privilégio agora está sendo compartilhado!

Eu já falei, mas vou repetir: vamos questionar, vamos incomodar e não vamos retroceder!

Imagem destacada: Print do vídeo do VT da Gang.

  • Andréa

    Querida escritora! Também sou negra, e me amo assim…como você sou muito crítica! Porém devemos tomar cuidado para não considerar TUDO como discriminação racial. Se prestarmos bem atenção ao comercial percebemos que há a frase “dia do amor”; há uma garota branca lambendo um sorvete com um cachorro e a mulher negra tem uma fita métrica no pescoço, leio a imagem como amor à profissão no momento em que ela beija o manequim.
    Abraço!

  • Fátima

    No caso do comercial da boticário, o objetivo era colocar em foco a luta contra a heteronormatividade. Não vejo como criticá-lo por não apresentar figuras negras. Era ideal que sim? Óbvio, mas isso não deslegitima o comercial, cujo propósito é de se aplaudir. Ora, o que aconteceria se a pauta fosse, por exemplo, denunciar o racismo, e não estiverem sendo demonstrados casais homossexuais, por exemplo? Os grupos LGBTTTs podem, POR ISSO, se sentir desprestigiados? É CLARO que a luta por “incomodar” não pode ser deixada de lado, mas isso é diferente de pretender que sempre a pauta seja X, ou inclua X… quando, às vezes, é importante que ela foque em Y, e apenas em Y… por ser igualmente importante. Minha opinião.

  • Gostei muito do texto e concordo plenamente – mas uma pergunta que não quer calar: se os negros no Brasil são mais da metade ( 50,7) porque insistir tanto em em ser tratados como minoria, cheios de cotas protecionistas para tudo???

    • Nênis Vieira

      Irdevan, acredito que muitos outros textos existentes aqui podem responder sua pergunta.

  • Stephania de Azevedo

    Flávia, que bom te encontrar blogando aqui! Adorei o texto, amei a sua foto de turbante, e estou orgulhosíssima da sua descoberta feminista e ativista! Parabéns!

    Quando vi a propaganda da Gang, também pensei na solidão da mulher negra, e no quanto ela é naturalizada. A mulher branca é o ideal para homens brancos e negros. E a mulher negra, qual o espaço da afetividade destinada a ela?

    Bjs. Muito bom encontrar texto seu aqui!

    • Flávia Ribeiro

      Stephania sem-facebook só assim nos falamos 😀
      Bom, eu mudei muito nos últimos anos. Estou fazendo a minha revolução pessoal!
      Obrigada pelas palavras, querida.
      Bj

  • Lilia Rose

    Excelente texto. Parabéns!!

  • Análise urgente e primorosa. Convido a todas e todos para a #CampanhaDiaDxsNamoradxs, na página NegroÉ, Facebook. Estamos recebendo imagens e textos de casais e pessoas solteiras negras, mostrando a sua afetividade e seu amor próprio. Vamos dar visibilidade para quem nos valoriza, comprando de produtoras e produtores negros, dentro e fora da rede social,são eles: África Arte, Lucia Makena, Nene Surreal, A Quixotesca, Pequena Eva e muitas e muitos. Tem também o grupo Empreendedorismo Afro-brasileiro e Rede de Mulheres Negras Empreendedoras . Vamos mostrar dentro e fora das redes sociais todo amor que merecemos. #NósPorNós <3. Gratidão profunda, Flavia Ribeiro.

  • Li seu texto ouvindo a música A Carne, cantada pela Elza Soares: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. É, vamos continuar incomodando sim. E eu vou comprar o presente do meu amor na Xongani para é loja de Preta! Axé Flávia