Sabe quando você olha para o lado, olha para o outro e não vê saída? É assim que o meu feminismo está se sentindo hoje.

E falo do meu feminismo, porque não estou aqui denominando correntes teóricas, vertentes liberais ou conservadoras, anarquistas ou estatais: o MEU feminismo, individual e particular está cansado! Exausto de perceber como diariamente ele é bombardeado por atos minuciosamente racistas e machistas, por piadinhas infames e assédios escancarados. Sendo minado cotidianamente por comportamentos de amigos e companheiros de luta escrotos que se acham no direito de me dizer como lutar, o que dizer, como reagir. Debilitado com a enxurrada de assassinato de mulheres, com o genocídio de crianças e jovens negras e negros, com o cinismo estampado e orgulhoso dos transfóbicos e lesbofóbicos de plantão.

Meu feminismo está cansado de paz. De ter pedidos implorados, quase rezados de calma, paciência e sororidade – essa, usada apenas em momentos convenientes, covardes e violentos. De não ser ouvido quando reage e de ser solenemente ignorado quando tenta explicar paciente que não é bem assim.

“(…) Armadas de sua nova consciência da questão de raça, da disposição de confessar que sua obra nasce de uma perspectiva branca (geralmente sem explicar o que isso significa), elas esquecem que o próprio estudo de raça e do racismo nasceu do esforço político concreto de forjar laços significativos entre mulheres de diferentes raças e classes sociais. muitas vezes, essa luta é completamente ignorada. (…) as brancas ignoram a relativa ausência das vozes de mulheres negras, quer na construção de uma nova teoria feminista, quer nas reuniões e encontros feministas.”*

Cansado de tentar entender o outro lado, o lado daquele que tem o privilégio, que não sente na pele, que não tinha parado pra pensar nisso. Cansado de ser pedagógico e dócil, de ser educado e polido.

De ser chacoteado e humilhado, risível e caricato: Meu feminismo está cansado!

De andar do lado de quem não me considera, de quem fala por trás dos meus, de quem pouco se importa se quando a polícia chegar vai prender os pretos. De criminalizar as ocupações de mulheres negras e pobres e bater palma para as resistências limpas e brancas. Ele tá cansado de ser ombro amigo das crises pessoais, mas ser pouco acolhido. Cansado de ocupar espaços festivos, mas ser pouco festejado. Cansado de ser pouco praticado. É assim que tem estado meu feminismo, de uns tempos pra cá.

Cansado de ser cobrado, de ter que estar presente em todos os manifestos, palestras, ocupações e festas. Sempre sendo solicitado, chamado, precisado. Imerso em conflitos de todos os lados: do lado do opressor e do lado de cá, das oprimidas! Afundado num lamaçal de falsidade, tristeza, mágoa e pouca solidariedade. Queria poder dizer diferente, mas hoje, o meu feminismo queria descansar.

Ele queria poder ser abraçado e ouvido por um momento e assim, quem sabe, ressurgisse mais forte e revigorado. Meu feminismo queria um banho quente e uma massagem nos pés, e por um tempo, pensar nas conquistas e avanços, nas vitórias e alegrias. Rir um sorriso sincero e bem dado, comemorando as felicidades todas.

Mas esse dia ainda não chegou. Não sei se ele estará aqui quando chegar, confesso. Enquanto isso, ele se mantem sonhando… Se recuperando dos ferimentos e fraturas das porradas do dia-a-dia, com pequenos balsamos diários de afeto das poucas mulheres. Por enquanto o meu feminismo despedaçado vai sendo colado com uma cola bem fininha de solidariedade e carinho.

Mas o que ele queria mesmo era descansar.

 

*bell hooks, 1ª edição 2013. De mãos dadas com minha irmã: Solidariedade feminista. Ensinando a transgredir – A educação como prática para a liberdade.

Imagem destacada: Black Beautiful Page.