Não é fácil desenvolver consciência negra nas crianças em uma sociedade profundamente racista, e que inibe a cultura negra com contínuos esforços de branqueamento, enfatizando a influência europeia em detrimento de demais culturas. É importante prestarmos atenção aos pormenores da educação de crianças e adolescentes para o fortalecimento de sua identidade e reconhecimento de suas raízes. Em crianças negras o esforço é maior do que o aplicado na criação de outras crianças. Há o esforço para a apresentação de simbologias e referências que possibilitem o desenvolvimento saudável de sua autoestima. Todavia, a realidade enfrentada dificulta este caminho, que pode se tornar tortuoso quando não podemos dispor de materiais de apoio como livros, filmes e brinquedos adequados e próximos à imagem daquela criança.

O livro A cor da ternura, de Geni Magalhães, é um material que cumpre este papel de maneira doce e sutil. A obra é autobiográfica e conta os pormenores de sua vida, desde a primeira infância.
“- Mãe, se chover água de Deus, será que sai a minha tinta?
– Credo-em-cruz! Tintaa de gente não sai.”

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A abordagem de Geni viaja pelas perspectivas de criança, adolescente e adulta, lidando logo cedo com o autoquestionamento sobre a própria posição social e a cor de sua pele.  Na narrativa da vida da autora é possível traçar um paralelo com a vida das crianças das periferias brasileiras, que já nascem com obstáculos extras a serem superados, e já crescem fortes pois são, desde cedo, expostas à violência física e psicológica causadas pelo racismo, não podendo encontrar outra saída senão enfrentar a vida de provações duplas, triplas, quádruplas. Pois, enquanto uma criança branca é mais bem aceita pela sociedade, a criança negra não raramente é vista como potencial “perigo”. Além disso, a pouca representatividade nos brinquedos e na mídia faz da criança negra um ser quase invisível. É para estas crianças que obras como A cor da ternura se tornam alicerces.

Em um trecho do livro, Geni conta como foi a ocasião da “festa para Princesa Isabel”, organizada na escola onde estudava, quando a professora explicou aos alunos o que e quem eram os escravos, usando de linguagem simplória e diminuindo a história africana à escravidão.
“Quando dei por mim, a classe inteira me olhava com pena ou sarcasmo. Eu era a única pessoa da classe representando uma raça digna de compaixão, desprezo! Quis sumir, evaporar, não pude. Apenas pude levantar a mão suada e trêmula, pedir para ir ao banheiro.”

O despreparo da sociedade em lidar com a verdadeira história dos negros no Brasil ajuda a confundir as pessoas em formação escolar. É comum crianças crescerem com a clara ideia de que a história branca é repleta de grandes feitos invenções, descobertas científicas e criações artísticas, enquanto aos negros fica reservado o lugar de escravidão que, com a abolição, transmutou-se em servidão doméstica e rural. Geni, assim como outras crianças, teve para si a ideia de que uma raça definiria inferioridade ou superioridade intelectual. Ela foi privada do direito de conhecer sua própria origem.

Quando reduzidas a resquícios da época da escravidão, as pessoas negras perdem sua identidade como seres humanos com os mesmos direitos dos demais: a liberdade, o pensamento crítico e a contribuição à sociedade. Tudo isso somado à negação de seu próprio ser e sentir. Esta deficiência na educação acaba por refletir na autoimagem, ou seja, não é difícil que a visão de uma pessoa sobre si mesma se torne nebulosa.

“Até então, as mulheres da zona rural não conheciam as ‘mil e uma utilidades do bom-bril’ e, para fazer brilharem os alumínios, elas trituravam tijolos e com o resultante faziam a limpeza dos utensílios. A ideia me surgiu quando minha mãe pegou o preparado e com ele pôs a tirar da panela o carvão grudado no fundo. Assim que terminou a arrumação, ela voltou para casa, e eu juntei o pó restante e com ele esfreguei a barriga da perna. Esfreguei, esfreguei e vi que diante de tanta dor era impossível tirar todo o negro da pele. Daí, então, passei o dedo sobre o sangue vermelho, grosso, quente e com ele comecei a escrever pornografias no muro do tanque d’água”

A dor física, por vezes, é uma professora melhor do que a teoria. A dor de Geni refletiu em sua vida, da mesma forma que outros jovens negros aprendem a respeitar o próprio corpo, e assim desenvolver o amadurecimento psicológico necessário.

Ainda que permeado por fatos dolorosos, a escrita se mantém serena e até poética, especialmente nas passagens relacionadas à formatura da escola.

“De novo, meu pai ficou em pé, desatou o nó da gravata e assumiu postura de rei. Para melhor me ouvir, esqueceu a etiqueta, fez conchas om as mãos e envolveu as orelhas. As formalidades todas terminaram. Fui até eles para voltarmos juntos. Eu, princesa, entreguei meu certificado ao rei, que o embrulhou no lenço de bolso”

Após a formatura Geni foi dar aulas, e entre seus alunos brancos ela precisou lidar com o estranhamento de haver uma professora negra na escola. Nisto, A cor da ternura apresenta uma brilhante visão sobre o diálogo necessário dentro do ambiente escolar e sua fundamental importância na luta contra o racismo institucionalizado.

O livro segue sendo uma obra preciosa na construção da identidade negra para crianças, mas que também é bem absorvida por adultos que procuram materiais para a compreensão dos efeitos do racismo na sociedade.

 

Imagem destacada: Geni Guimarães. Reprodução Web.