Desculpem se me falta romantismo nessas horas, mas quando vi a cena de Babilônia, que foi ao ar dia 30 de maio passado, com o diálogo entre as personagens Júlia (Sabrina Nonata) e Regina (Camila Pitanga) me desatei a chorar. Não foi de emoção, mas de indignação e dor.

Aquele texto perdido no meio de uma novela que dura 8-9 meses sendo dito por uma criança negra, quando as crianças negras quase sempre são criminalizadas no Brasil, e forçando-a a dizer coisas como “meu cabelo é ruim”, “o cabelo dela é liso”, “o moço foi preso porque era negro”… e transformar essa dor em “beleza”, não é representativo, não é denúncia, não promove a reflexão que as crianças negras precisam, não nos fortalece. Não é resolutivo dizer a uma criança negra que sofre racismo: “ela tem é inveja de você” (ou algo do gênero) quando a motivação não é a inveja, mas racismo.

Não há romance no racismo. E racismo na infância deveria indignar população brasileira. É de criança que estamos falando.

A cena foi muito suave. De uma suavidade inexistente quando o assunto é racismo institucional, por exemplo, como o que acontece no ambiente escolar. Cadê a criminalização? O debate na escola? A cobrança à escola e à família da criança que cometeu o ato racista? Exigir muito de uma novela? Então não exijam muito de mim. Vejam que a referida criança que cometeu o ato, sequer tem rosto. Fica no âmbito do imaginário. Uma cena completamente deslocada.

Usar a voz de uma criança pra ganhar audiência é feio, Gilberto Braga. Isso não é debate, é assistencialismo. E que crueldade colocar aquele texto na boca de uma criança negra. O assunto foi tratado, como sempre, no âmbito do privado. A família que se vire pra desfazer o trauma da criança e basta meia dúzia de palavras otimistas, uma olhada no espelho e pronto, a criança já está recuperada, o racismo já foi debatido, a Globo está em dias com suas obrigações assistenciais.

Eu sei, e como sei, que inúmeras crianças negras passam por esse racismo sem conseguir denunciar. E sei também que a cena ter ido ao ar em um sábado, é estratégico. Já fui criança negra, hoje sou mulher negra e também publicitária e mestre em comunicação, não tenho uma relação ingênua com a mídia hegemônica. Justamente por isso nunca deixarei de cobrar.

Vou repetir: desculpem se eu não romantizei a cena. Se não me senti amparada e se estou querendo muito da indústria do entretenimento, mas eu já vi a Globo usar uma telenovela inteira pra debater o câncer, as drogas, o alcoolismo, a vida após a morte, tráfico de mulheres e tudo o mais. E cede a nós, pessoas negras, cede às crianças negras, uma cena de 2’58”?

A mesma emissora dia desses levou ao ar uma série que mantinha os estereótipos sobre as mulheres negras. E fez uma sórdida campanha tentando nos desqualificar como protagonistas de nós mesmas por não nos satisfazermos com a série. Uma emissora que mulatiza as mulheres negras ano após ano no carnaval. A mesma emissora coloca homens negros quase sempre como bandidos e mulheres negras quase sempre sambando num salto ou nas cozinhas das madames brancas.

Não, pera. Eu não fiquei feliz, não.

Nunca ficarei? Sim, lógico! No dia que o debate for realmente aprofundado ao invés de exotificado e restrito à conquista de audiência. Por que afinal, os fazedores de telenovela ainda nos condicionam a produtos, não somos produtores, nem consumidores. E quando nos manifestamos, toma-te estereotipia!

Daria pra escrever muito mais só sobre as últimas lutas da telenovela em questão para conseguir audiência pelo “politicamente correto” – em tempo: quem inventou essa expressão? – com o pseudo debate sobre o racismo, mas usar uma criança? Não … isso mexeu com meus brios.

E haverá quem me diga: tu não conheces a trajetória do Gilberto Braga? Tu não sabes que ele vem inserindo o debate racial em suas telenovelas?

Sempre haverá quem nos diga que não sabemos do que estamos falando, pois mulher negra não compreende novela, nem teatro, nem arte, nem nada, só entende de sambar, né? Pois saibam, que eu também sei que o mesmo autor tem o hábito de nos desenhar passivas e passivos. Exatamente como no contexto da cena em questão. Não só ele, é verdade. Não há uma só telenovela que eu veja real representatividade de pessoas negras diversas. Sabe por quê? Porque para a teledramaturgia nacional, somos objetos de estudo.

Nesse país a mortalidade infantil negra “só perde” para a mortalidade infantil indígena. As crianças negras são as mais exploradas sexualmente. Crianças negras são as mais afetadas pelo trabalho infantil. Crianças negras são as mais usadas pelos verdadeiros donos do tráfico de drogas. As crianças negras são as menos adotadas. Por fim, crianças negras não sofrem racismo por inveja.

Aquela cena entre Júlia e Regina é tão nitidamente idealizada por uma pessoa branca que a cena ficou linda ao invés de dolorosa. Mulheres passivas. A personagem da Regina é a que mais grita na novela inteira, é a que mais banca a justiceira entre todas as personagens, é afetuosa com todo o seu clã … e na hora que a injustiça é com sua filha, sua carne, seu sangue … a cena é romântica? Humana incoerência.

Corta. Bora sorrir. Acabou o racismo na infância. Voltemos à democracia racial brasileira. E por isso afirmo: autor branco nenhum terá capacidade de empoderar uma menina negra. Tenho dito.

Imagem destacada: A cena da novela Babilônia com as personagens Júlia e Regina

  • Lais Diogo

    Texomuito bom eo retrato real,da indignação com essa emissora que pra mim é um repleto mar de Lixo,desvaloriza o povo negro usando,”eu sou descendente de escravos”quando na verdade somos descendentes de seres humanos comuns que foram injustiçados e escravisados,como podem dar tanta audiencia a essa midia ridicula explicidamente rascista,Poupe-me aonde vamos parar com isso o rascismo realmente não acabou !!

  • Gilmara Silva

    Que reflexão fantástica, Thiane! Certamente mexeu na ferida de pessoas que infelizmente interpretam cenas como aquelas enquanto românticas e sem intencionalidades profundas. Aprofundamento este que se revela através do racismo velado e aparece, como diz minha avó, “como conversa para boi dormir”, ou seja, tentando distorcer os verdadeiros objetivos muito bem traçados por você em seu texto. Suas contribuições fortalecem muito para seguirmos em frente na luta diária contra o racismo!

  • Fernando

    Alguém tem um link do video?

  • Agradeço profundamente por esta desconstrução. Sem esse olhar especializado que você desenvolve e traz para nós, somos e permanecemos capturadas pela romantização de nossa dor, dos crimes que comentem conosco. Porque estamos há décadas sendo doutrinadas na romantização das novelas brasileiras eugenistas. Pegaram a gente bem no silenciamento e ao expor a situação na voz da criança fizeram crer, como a Prof. Eunice descreveu antes, que é uma amplificação dessa voz silenciada. Falsa amplificação, simulada amplificação. Mulher negra não “tem que” pedir desculpas por desconstruir engôdos e partilhar, seu texto precisa ser compartilhado à exaustão e digo mais, se puder, se for possível, faz um encontro online com transmissão, para desconstruir engôdo por engôdo desta cena. Uma aula virtual em vídeo, como a que você nos descreve aqui.

  • Eunice

    Texto muito coerente com a realidade que eu, professora da periferia do Norte do país, vivencio ano após ano.
    Representatividade real não é escrever diálogos que reproduzem o racismo arraigado em nossa cultura branca e embranquecedora em bocas negras.
    Representatividade é ter em mãos negras o amplificador que nos permite a todos ouvir em alto e bom som como @s negr@s se sentem, como se enxergam, o que querem e não querem para si e para os seus.