Dia 4 de março de 2015 foi aprovada pela Câmara dos Deputados a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que visa investigar a violência contra jovens negros e pobres por todo o Brasil. Sabemos que desde o século XVI existe em nosso país a prática de extermínio da população negra. Legalizada. Autorizada. Perpetuada.

Há décadas (ou séculos?) o movimento negro brasileiro vem denunciando a política e a prática racista do Estado Brasileiro que, por meio de seus amplo poderes, tenta a todo custo aniquilar a população negra. Desde a chegada das primeiras comunidades africanas à política de branqueamento instalada no pós-abolição.

Desde então temos visto diversos mecanismos exercitados para concluir o extermínio negro. O principal deles é o sistemático casamento entre a nossa interdição nos espaços de direito público e  intenso treinamento do principal aparelho repressor desse Estado, cuja militarização vai na contra mão das demandas sociais: as polícias brasileiras são preparadas para matar pessoas negras.

No mapa da violência no Brasil 2015, publicado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR,  continuamos vendo o sucesso das investidas do Estado brasileiro: “se no período compreendido entre os anos de 1980 e 2012 a população teve um crescimento em torno de 61%, as mortes matadas por arma de fogo cresceram 387%, mas entre os jovens esse percentual foi superior a 460%. Em outras palavras, mais jovens morrem por armas de fogo, apesar da redução inicial provocada pela aprovação do Estatuto do Desarmamento. E a gravidade se torna ainda maior quando se sabe que, em sua maioria, são os jovens negros as vítimas dessa escalada. Racismo, violência e impunidade se associam na degradação do ambiente social brasileiro”, afirma Salete Valesan sobre o Mapa da Violência.

Ao andarmos pelas favelas e subúrbios do Brasil e ouvirmos os relatos de famílias diretamente atingidas vítimas por essa violência, é bem claro o cenário descrito acima. Desde os tempos do tráfico de pessoas africanas as famílias negras são fatiadas:  mães sem filhos, filhos sem pais, pais mortos. O ano de 2015 não traz nenhuma novidade quanto ao progressivo extermínio da população negra e jovem.

A CPI chega no avançado da hora, mas chega importante e esperançosa nos Estados. Até agora foram realizadas 13 sessões da CPI, entre audiências públicas e reuniões deliberativas. Participam dessas sessões a sociedade civil, a mídia, parlamentares e as corporações militares.

Estão programadas mais 7 sessões. A próxima será realizada em Belém (PA), dia 29 de junho e a última será dia 13 de julho no Recife (PE).

Sabemos que em algumas cidades as comissões correm o risco de contarem com representantes dessa sistemática execução negra. Sabemos que em algumas localidades os praticantes da política “todo negro é suspeito”-  com a qual esfacelam famílias negras brasileiras – estarão cara a cara com as famílias vitimizadas e com os movimentos negros.

É preciso que haja atenção e perspicácia da CPI para que dela não saiam ainda mais famílias miradas e alvejadas pelo genocídio da juventude negra no Brasil. Contamos com a seriedade da comissão e da presidência da comissão para que poupe a população negra desse eterno esfacelamento, que o Estado reconheça sua dificuldade em nos aceitar compondo esses 204 milhões de brasileiros.

Em tempo: nos restringimos a mencionar a violência por arma de fogo em razão da CPI, mas estamos igualmente de olho nas violências ocorridas nas escolas, nos hospitais, no judiciário, na iniciativa privada e todos os demais espaços por onde circula o racismo.

A imagem destacada foi retirada do Portal Cáritas.