Dentro das inúmeras produções que estão surgindo a partir da emergente visibilidade que as vivências trans estão ganhando, percebo que o campo da afetividade ainda se encontra negligenciado quando de frente a outros tópicos que estão, frequentemente, sendo discutidos. Por reconhecer a urgência de virmos a nos aprofundar nas questões afetivas e trazer questionamentos acerca dessas vivências, me propus a escrever sobre a solidão da mulher trans negra e explanar um pouco sobre como se desdobram as relações que tentamos estabelecer com outras pessoas. Por eu ser uma negra e ter tido mais experiências com homens, esse texto irá partir desse local de fala, mas torço para que toda mulher trans ou travesti, dentro de suas especifidades, se sinta contemplada pelo o que irei escrever nessa publicação. Enquanto também uma feminista negra interseccional, percebo que as mulheres negras cisgêneras já estão expondo há um tempo sobre a situação de solidão afetiva que as ronda e, irei aproveitar essa oportunidade, para pontuar a importância da produção de material nesse viés, dentro da perspectiva transfeminista. Que o transfeminismo, enfim, possa abordar de maneira mais consistente as questões amorosas que rodeiam as construções de feminilidades.

A partir de quando, enquanto mulher trans negra, comecei a ler sobre feminismo negro tentando fazer uma ponte com as questões transfeministas, um das primeiras constatações que me vi de frente, foi uma citação de Luiza Bairros (1996), falando sobre como as experiências negras, pós diáspora, eram compartilhadas. Ou seja, independente das questões de classe, se havia uma compreensão de uma mulher negra para com a outra sobre uma determinada situação, embora possa não ter chegado a vivenciar aquilo de forma direta. Porque, segundo ela, as experiências negras são globais, independente dos recortes que podemos vir a fazer, tentando delimitar os papéis que aquelas mulheres ocupam dentro de nossa sociedade. E essa citação, me parece muito condizente quando a trago para as experiências das trans feminilidades. É muito comum quando conheço outras mulheres trans e travestis, nos sentarmos e conversamos sobre situações que todas já vivemos. Dentro desse monte de vivências, as questões amorosas sempre parecem ser onde mais estamos em concordância umas com as outras. “Sim, também foi assim comigo.”, “Antes era “oi, princesa”, daí eu disse que era trans e já mudou e chamou pro motel.”, “Nunca namorei.”, “Queria ir com algum ao shopping de mãos dadas” e por aí vai. Embora possamos ser de raças ou classes sociais diferentes, nossas experiências, ainda assim, soam muito similares.

Entendendo a transfobia que está fincada na raiz da cultura brasileira, vir a ter qualquer tipo de envolvimento conosco, é motivo suficiente para um homem ser ridicularizado publicamente, assim como o Ronaldo Fenômeno foi e ainda é. Criou-­se a concepção de que mulheres trans e travestis não são mulheres e, por conta disso, um homem hétero que viria a se relacionar conosco, poderia ter sua “masculinidade” questionada. Ou seja, não só nos vemos de frente a deslegitimação das identidades das pessoas trans que expressam feminilidades, como também uma não compreensão sobre o que é identidade de gênero e o que seria orientação sexual. Entendendo que mulheres trans e travestis são arquétipos femininos, logo, um homem hétero que se sente atraído pelo gênero oposto, teria a possibilidade de se sentir atraído por uma de nós, mas, infelizmente, não avançamos o suficiente para que essa compreensão tenha chegado à grande população. Então, quem se relaciona conosco se vê frente a situações vexatórias porque está com um traveco (sic). O que leva a grande maioria desses rapazes a apenas cogitarem duas possibilidades: sexo casual ou relacionamentos às escondidas. É comum que nos deparemos com convites deliberados para realizar os fetiches de certos homens ou receber a proposta de um relacionamento dito como sério, mas que se resume a algo que fica apenas entre os dois envolvidos. Desta forma, explanando o quão vergonhoso seria para aquele rapaz se ver do lado de uma de nós e, nós, nos sujeitando a uma situação onde, claramente, não se há respeito.

Judith Butler (2006) já havia nos alertado sobre pessoas que possuem vidas precárias. Que, socialmente, são lidas como não humanos. E entendendo toda a sociabilidade de exclusão que rodeia a vivência das pessoas trans, não só podemos afirmar que além de não estarmos no âmbito educacional, de sermos excluídas do mercado de trabalho e expulsas do lar, também parecemos não sermos dignas de receber de afeto, por não sermos vistas como humanas o bastante para tal ato.

Mulheres que fogem do que é lido a partir de normas sociais como ”ideal”, frequentemente, são sujeitadas a vivenciar no campo amoroso não só uma exclusão, mas frequente uma desvalorização e desrespeito, quando somos divididas em castas das que “são pra comer” e as que “são pra casar”. Sendo as para comer negras, gordas, trans e outras que fujam do padrão e as para casar, as que mais se aproximem de um modelo normativo. E a partir de quando nos vemos constatando esse fato, muitas vezes, essas mulheres buscam se anular, almejando estarem, enfim, dentro de uma caixa que, aparentemente, as embarque. O que estou falando é quando, muito comum, mulheres trans ou travestis que passam como mulheres cis por conta de hormônios e cirurgias, decidem omitir ou mentir sobre suas condições de vida e buscam viver uma vida na penumbra da cisgeneridade. Dessa forma, vindo a se colocar como “apenas mulher” e não como mulher trans ou travestis. E, a partir de quando me vejo frente a essa situação, enquanto mulher trans negra periférica, me vejo na responsabilidade de vir a questionar privilégios. É fácil uma garota branca, classe média e que, felizmente, teve condições de realizar os procedimentos que gostaria, vem a tentar se colocar como “apenas mulher” dentro do cis-­tema. Porém, será que as travestis negras do meu bairro que se prostituem e, por conta disso, abrem mão do hormônio para terem ereção e ejacular, dessa forma ainda possuindo traços lidos como masculinos, possuem a mesma chance de se colocarem como “apenas mulher”? Será que elas serão levadas a sério como “apenas mulher”?

Marilena Chauí (1996), autora que tenho me dado o privilégio de fazer pequenas leituras, nos fala como é comum que grupos subversivos e que vão contra a dominação de seus colonizadores, muitas vezes, se veem numa contradição entre resistência e conformismo, chamando isso de cultura popular. Ou seja, trazendo essa linha de pensamento para aplicarmos nessa situação, essas mulheres trans e travestis embora subvertam um determinismo biológico que nos atribui um gênero a partir da leitura de nossa genitália, um pouco depois, buscam se ver DENTRO dessa suposta concordância entre o sexo e o gênero. Dessa forma, reproduzindo uma postura que, claramente, não deveria as contemplar. Assim, estabelecendo uma dialética de conformismo e resistência: conformismo por reestabelecer padrões culturais que reforçam a dominação da classe burguesa, quem nos implantou o determinismo biológico, e resistência, porque desestabiliza aspectos desses padrões (GOMES, 2015, p.38).

Por isso, percebo a importância de começarmos a discutir as questões afetivas, podendo, enfim, produzir um material que venha a trazer empoderamento para essas mulheres, assim auxiliando não só em entender as questões de exclusão que estão em nossa sociabilidade como tentativa de fortalecimento pessoal, como explanar o quão nocivo pode ser, buscarmos numa falsa cisgeneridade, um direito que deveria ser básico para qualquer pessoa, seja cis ou trans. Se é algo compartilhado, precisamos pensar na questão da solidão da mulher trans como algo que, possivelmente, seja estrutural e, por isso, acredito na potencialidade de virmos a destrinchar essa estrutura que nos nega o direito da afetividade. Que, por meio de nossas lutas interseccionalizadas, venhamos a visibilizar as vivências dos grupos de mulheres marginalizadas. Buscando, finalmente, uma libertação coletiva.

BIBLIOGRAFIA:

BAIRROS, Luiza. Orfeu e Poder: Uma Perspectiva Afro­Americana sobre a Política Racial no Brasil. 1996

BUTLER, Judith. Vida precaria: el poder del duelo y la violencia. Buenos Aires: Paidós, 2006.

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1996.

GOMES, Guilherme. Travestis e Prisões: experiências social e mecanismos particulares de encarceramento no Brasil, 2015.

Imagem destacada: Blog joaquimdepaula.com.br