Venho tentando escrever esse texto há algum tempo. Todo mundo conhece o estereotipo da negra forte e independente. Muita gente que eu conheço (inclusive eu e meus amigos) já repetiu rindo a frase “I’m a strong Black independent woman who don’t need no man”.

A imagem da mulher negra forte, que aguenta tudo sozinha e que suporta qualquer coisa, é reproduzida o tempo todo. Nos filmes, nas séries, nas novelas, nas músicas, todo dia.  É uma imagem que me acompanhou a vida toda. E força extraordinária parece ser um bom atributo, então muitos escolhem não pesar as consequências desse imaginário.

Muita gente não entende (ou se recusa a entender) que continuar alimentando essa noção falaciosa de que as mulheres negras são extraordinariamente fortes, de que somos feitas para tolerar mais dor, de que somos destinadas a superar mais dificuldades, é normalizar as violências sofridas por nós. Quando presumimos que as mulheres negras são excepcionalmente fortes, capazes de suportar todo e qualquer abuso, passamos a acreditar que as mulheres negras estão acostumadas a sofrer e que a dor que as mulheres negras sentem é menos humana.

Em junho deste ano, a Larissa Borges, diretora de programas de Ações Afirmativas da SEPPIR, declarou que “a dor das mulheres negras é vista pelos profissionais de saúde de forma hierarquizada, como uma dor que pode esperar. Temos uma situação na qual o racismo determina a forma como vamos nascer, viver e morrer”. É essa mentalidade que faz com que mulheres negras recebam menos anestesia na hora do parto.  É essa mentalidade que faz com que mulheres negras não recebam informações sobre alimentação apropriada durante a gravidez. É assim que muitas mulheres negras deixem de receber o acompanhamento psicológico adequado.

Ao mesmo tempo, a brutalidade direcionada às mulheres negras não gera indignação generalizada. Os assassinatos de mulheres negras não chocam. A hashtag #BlackWomenMatter ainda não se materializou em um debate real. A Cláudia já foi esquecida pela grande mídia. Ao saber do que aconteceu com Verônica, a primeira coisa em que muitos pensaram foi que ela deveria, de alguma forma, ter provocado essa violência. O caso da estudante Vitória mal foi noticiado. A morte da Natasha McKenna sequer é lamentada. Muita gente não ouviu falar sobre o que aconteceu com a Haíssa. Grande parte dos inúmeros casos de violência policial dirigida a mulheres negras é ignorada.

Ver mulheres negras sobre a ótica de uma força infinita é um jeito perverso de naturalizar as agressões às quais estamos submetidas diariamente. Não escrevo texto para dizer que somos frágeis, só quero lembrar que somos humanas.

*Bárbara Paes é negra, feminista, estudante de Relações Internacionais e também escreve aqui.

Imagem destacada: Cena do filme Vênus Negra, com a atriz Yahima Torres e dirigido por Abdellatif Kechiche. O filme conta a história de Saartjie Baartman.