Amamentação: importância, mitos e mulher trabalhadora

De 1 a 8 de agosto de 2015 acontece a Semana Mundial do Aleitamento Materno, cujo foco é a mulher que trabalha e amamenta. O tema da semana não poderia ser mais pertinente, considerando o que os dados demonstram: entre as mães que trabalham reside o maior índice de bebês com menos de um ano que não são mais amamentados.

Os bebês que não são amamentados, durante 6 meses exclusivamente e até dois anos ou mais, perdem os inúmeros benefícios proporcionados pelo aleitamento materno, dentre os quais podemos destacar: fortalecer a imunidade, protegendo a criança de doenças e infecções; nos primeiros 6 meses de vida, o leite materno atende integralmente as demandas nutricionais; diminui das chances de desenvolver alergias na infância e, por fim, o aleitamento colabora para o fortalecimento do vínculo afetivo com a mãe.

No entanto, mesmo com tantos benefícios para o bebê, o aleitamento materno é alvo de mitos, muitos dos quais reproduzidos por profissionais de saúde, o que acaba por atender a um mercado extremamente lucrativo: o da indústria de alimentos voltados para bebês e crianças.

A matemática é simples: quanto menos as mães amamentam, mais vende-se leite artificial. Embora importantes aliados para atender aos casos específicos em que não é possível à mãe amamentar, os leites artificias não possuem os mesmos benefícios do leite materno, além de representar um custo considerável no orçamento familiar.

Cabe ressaltar que, devido ao alto custo, é comum que as mães diluam a fórmula mais do que o recomendado, piorando a qualidade nutricional do leite oferecido. Ou, ainda, há aquelas que nem mesmo conseguem adquirir a fórmula adequada para a idade do bebê, oferecendo a ele um leite não recomendado para a faixa etária, deixando-o vulnerável ao desenvolvimento de alergias.

Nesse contexto, os mitos acabam por minar a confiança da mulher em sua capacidade de nutrir seu bebê, uma vez que se o profissional habilitado para orientá-la diz, por exemplo, que seu leite é fraco (qual a legitimidade dela para questioná-lo?). Não raro, a mulher sofre pressão familiar como, por exemplo, de oferecer sucos antes mesmo dos 6 meses. É, também, comum ver mães se queixando por terem se sentido constrangidas por olhares reprovadores, ou mesmo, que por terem sido “convidadas” a se retirarem de determinado local por estarem amamentando.

Sem o respaldo médico de que está fazendo o melhor para o bebê, sem o apoio da família e, ainda, sendo constantemente alvo de críticas e constrangimentos na rua, a mulher que trabalha fora de casa, também terá que contar com a responsabilidade do empregador em cumprir a Lei que a protege durante o período (6 meses) de amamentação exclusiva. Sem falar, claro, da rotina que precisam administrar, tendo trabalho, bebê e, em alguns casos, estudo.

Entendo que essas questões afetam todas as mulheres, no entanto, é a realidade da mulher negra que quero destacar nesse texto. Ademais, ressalto que não irei abordar fatores que não sejam de ordem social, econômica e cultural, que dificultam a amamentação, uma vez que exigiria um maior aprofundamento.

A mulher negra e a amamentação

Muito se discute o papel social das Amas de Leite no período escravocrata do Brasil, figuras de suma importância e valor financeiro para a Casa Grande. Basta uma lida em artigos que tratam do aleitamento materno, numa perspectiva histórica, que observaremos o quanto a mulher negra era alvo de exploração para essa prática. A mãe negra era responsável por estar disponível para alimentar o filho da Casa Grande, enquanto o seu, quando não morria bebê, era alimentado pelo seu leite poucas vezes ao dia.

Esse fato só demonstra o quanto o exercício da maternidade foi negada às mulheres negras ao longo dos anos. O que não se pode negar é que, embora a Casa Grande hoje seja outra, a exploração da mulher negra e pobre para os cuidados com os filhos dos senhores permanece a mesma.

Quando eu engravidei, apenas por ter uma situação financeira um pouco mais privilegiada, um dos conselhos que mais recebi foi “contrate uma babá”. Já com o bebê no colo, ouvi de uma pediatra que eu poderia oferecer o leite artificial e pedir para a minha babá (ela não parecia ter dúvidas que eu tinha) oferecer durante à noite, assim, eu poderia descansar mais. O que me questiono é: e dos filhos da babá, quem cuida para que ela descanse? Ademais, poucas foram as vezes que incluíram meu companheiro como opção para colaborar na amamentação e menos ainda foram as vezes que vi mulheres, inclusive feministas, em situação privilegiada, se preocuparem de fato com a situação dessas mulheres.

Portanto, amamentar é direito de quem? Que realidade está sendo considerada nas campanhas, seja governamental ou de grupos de apoio? Quando se fala na importância da amamentação para as crianças, de quais se está falando? Será que no horizonte de fala está a realidade da mulher trabalhadora doméstica, da mulher que trabalha com a limpeza na mesma empresa que você, da mulher que trabalha 8-10h no comércio? E, você empregador (a), está disposto a cumprir, até mesmo além do que está previsto em Lei, aquilo que permite à mulher, minimamente, a manter a amamentação?

A realidade é que falar de amamentação para esse segmento, mulheres negras, é mexer com o privilégio de quem acha, empresas e famílias, que a mulher negra não possui as mesmas demandas que as demais mulheres. Que bebês negros não são tão preciosos e amados como bebês brancos. Ou, ainda, de pessoas que embora reconheçam as demandas, não estão dispostas a reverem o privilégio de explorar a “carne mais barata do mercado”.

Falar de amamentação é, ainda, ter que lidar com o machismo cotidiano, dentro e fora de casa, que diz que nossos corpos existem para o deleite masculino e, portanto, os seios de fora para amamentar é uma provocação, exibicionismo. Somando-se, no caso das mães negras, ao racismo que hipersexualiza seus corpos.

Nesse contexto, as mulheres negras, seguem duplamente vitimadas: pelo racismo que as relega aos trabalhos que exigem mais fisicamente delas, por exemplo, pagando o mínimo, e em casa pelo companheiro que, respaldo por uma lógica machista, deixa para ela a função de cuidar dos filhos e isso inclui “se virar” com a amamentação.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, a média de aleitamento exclusivo é de 56 dias. É um índice alarmante e que, para além de suscitar a discussão da autonomia feminina em amamentar ou não, pode ajudar a revelar a realidade vivenciada por milhares de mulheres brasileiras, sobretudo, negras e/ou pobres.

Falar em autonomia é, antes de mais nada, falar em opções. Mas quais opções de fato têm a mulher trabalhadora comum, sobretudo, aquela que ocupa as mais baixas funções empregatícias?

É comprovado que, em termos de benefícios à saúde da criança, nenhum outro leite supera o humano. Vamos falar sobre isso? Claro!  No entanto, é preciso que a discussão e as campanhas em prol da amamentação ultrapassem fatores como persistência, dedicação e paciência da mãe no sucesso da amamentação. Além de injusto e culpabilizante, é ineficaz, uma vez que, para amamentar, é preciso haver condições para a mulher e isso inclui condições de trabalho, apoio familiar, informações baseadas em evidências científicas, dentre outros aspectos.

Amamentar o bebê até os 6 meses exclusivamente e permanecer amamentando até os dois anos ou mais, depende de uma estrutura de apoio que envolve desde a família até a flexibilidade que terá em seu trabalho para retirar o leite. Essa estrutura e apoio, no contexto da mulher negra, é ainda mais precária que das demais mulheres, quando se pensa no lugar social historicamente reservado a ela.

O que precisa ficar escurecido é que cabe às mulheres a decisão por amamentar ou não. Contudo, é preciso pensar em que base essa decisão está sendo tomada, se a sociedade está oferecendo meios para que as mulheres possam vivenciar aquilo que desejam da maternidade, se há uma real preocupação com a saúde de nossos filhos.

Nesse sentido, que seja alvo de preocupação as mulheres que, ainda que tenham informação, não possuem suporte familiar e/ou nenhum tipo de estrutura socioeconômica para manter-se dedicada ao bebê, sobretudo, em seus primeiros meses de vida.

Falar dessa realidade é urgente, se nosso desejo, enquanto mulheres que vêem no ato de amamentar a importância para o desenvolvimento de nossos filhos, é que as ações de informação e de grupos de apoio sejam mais eficazes e atendam de fato a TODAS as mulheres.

Minha experiência com a amamentação é, apesar dos percalços naturais, a melhor possível. Sigo amamentando meu pequeno desde seu nascimento até o momento (3 anos e 6 meses). Tive uma família (irmãs, mãe e companheiro) que me apoiou de todas as formas, seja me deixando despreocupada com atividades domésticas, seja acordando à noite junto comigo. Também tenho o privilégio de trabalhar numa instituição pública, onde respeita-se a Lei que trata do período de amamentação. Estive, portanto, sempre cercada de pessoas com disposição para me ajudar, com informação e com ações mais diretas, o que contribuiu para que pudesse seguir amamentando segura de minha escolha.

Para mim, fica evidente que as mães precisam de um ambiente familiar favorável, onde seja encorajada, acolhida e tenha auxilio em suas demandas diárias. Precisam, ainda, de um espaço de trabalho, onde a Lei que trata de amamentação seja devidamente considerada. Todos esses fatores são centrais para que a amamentação, que não tenha nenhum fator físico e/ou psicológico relacionado, possa acontecer de forma prazerosa para a mãe e para bebê.

Finalizo desejando que amamentar nossos filhos, algum dia, seja de fato uma decisão que só dependa de nós. Que mais que uma decisão informada, seja algo que não exija da mulher negra ainda mais sacrifícios.

Minha aspiração? Que todas as mulheres negras tenham o direito de amamentar seus filhos, pelo tempo que for, de acordo com seu desejo.

Imagem destacada: Blog Vila Mamífera