Após mais de um ano, resolvi publicar este texto, a partir da rica e divertida conversa com a camarada Paula Libence, que também tem um blog – o Escrevivência.

Aqui está:

Como será a reação de quem não esperava ver uma mulher negra, casada, estudante universitária, militante, prestes a ter um filho e ser tão amada? Saber que seu corpo não se restringiu ao mero sexo?

Embora este também seja bom e necessário para deixar nossos corações felizes.

Estas são perguntas que me faço em tempos de  manifestações diuturnas de racismo. Racismo este que é semelhante a porta batendo em nossa cara, em que as pessoas, também influenciadas pela vasta literatura (Casa Grande e Senzala do Gilberto Freyre é uma clássica!), contrariam a nossa capacidade de amar e ser amada porque somos negras e demonstram insatisfação quando não nos enquadramos à concepção perversa de que somos objetos sexuais.

A pessoa a quem me refiro no início deste texto sou eu, e certamente muitas outras mulheres negras que vivem realidade igual ou semelhante à minha.

Dizem que nossos corpos se restringem meramente ao sexo, porque o tudo “ÃO” em nós chama a atenção e estimula os paus de muitos machistas por aí. Dizem ainda que não fomos feitas para casar e sim para foder (Gilberto Freyre que o diga…). Este link dá acesso a ótimas contribuições sobre o assunto: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000436695. Trata-se da tese de Ana Claudia Lemes Pacheco, “Branca para casar, mulata para f…, negra para trabalhar: escolhas afetivas e significados de solidão entre mulheres negras em Salvador, Bahia”.

Ocorre que venho contrariar estas estatísticas e relato com muita satisfação como um gozo longuíssimo, que minha vida é diferente do esperado por muitxs! Furei esse cerco perverso que nos diz a todo o momento qual o nosso lugar. O cerco que limita nossa capacidade de amar e de ser amada, de ser feliz, de relacionar-se de forma digna e sincera com quem quer que seja. Essa não é a trajetória traçada para nós, mulheres negras.

Ser mulher negra, em uma sociedade patriarcal, machista, racista, sexista, homofóbica, dentre outras formas de opressão, e enviesada pelo racismo no tecido da nossa sociedade nunca foi tarefa fácil para nós. Então, costumo dizer que matamos leões por dia, “leões interseccionais” (refiro-me, metaforicamente, às várias formas de opressão que lidamos todos os dias, já citadas no início deste parágrafo)  que não cansam de avançar para cima de nós cheios de vontade de nos devorar. Devorar nossa moral, nossa personalidade, nossos desejos, nossos sonhos. Querem nos consumir e nos tornar consumistas de coisas fúteis, mas não querem nos deixar ser felizes, seguir adiante e mudar nossas histórias. Estão mal acostumadxs a ferir a nossa autoestima e nos julgam pela cor da nossa pele, classe social, gênero, dentre outros marcadores sociais.

Então, sinto informar. Aliás, é um prazer afirmar que, aos 28 anos de idade, sou casada há 7 anos e amada há 10 pelo mesmo homem. Ganhei há 19 semanas e 5 dias o privilégio de ser mãe e esta é uma sensação inesquecível e incondicional! Esta vida foi gerada com amor, respeito, carinho, cuidado e a cada segundo é amada e protegida por nós.

Portanto, como mulher negra não aceito as estatísticas que inserem a mulher negra no biotipo da mulata do tipo exportação muito bem retratada no poema de Elisa Lucinda (http://www.escolalucinda.com.br/bau/mulataexportacao.html) e, por isso, reafirmo que somos sim amadas, respeitadas, bonitas por dentro e por fora. Somos sim inteligentes, intelectuais, sábias e amigas. Contrariamos sim o discurso distorcido e limitado de que nossa sensualidade se restringe ao corpo.

É preciso que parte da sociedade racista e sexista perceba que também buscamos conquistas pessoais e profissionais, e isso não se remete unicamente à sensualidade dos nossos corpos. Está além disso e este critério não se aplica quando se trata de mulheres negras, pois tudo é conquistado e não doado. E no tocante a relacionamentos sérios, também buscamos por pessoas cujo respeito e carinho sejam recíprocos.

Merecemos respeito!

Imagem destacada: Blog A Província