Pensar, nos espaços de representação da população negra, não é tarefa fácil. O que ocasionalmente ocorre é logo pensarmos nos pontos de cultura afros, ou na própria África como ponto principal de nossa ancestralidade. Não percebemos, ou melhor, não nos é ensinado nas escolas, pois a nossa educação é eurocêntrica e embranquecida, que a nossa própria cidade reflete a nossa representação e constitui espaços da memoria, espaços de luta e resistência do povo preto.

Se restringirmos a nossa analise ao centro de São Paulo, veremos que esse espaço exala luta e resistência em cada pequeno aspecto. Como a Igreja do Rosário dos Homens Pretos localizada hoje no largo do Paissandu, mas que teve sua primeira construção no antigo largo do Rosário, atual Praça Antônio Prado. Igreja  que foi transplantada para o largo do Paissandu, conhecido como o largo das lavadeiras, pois era o local onde as mulheres negras retiravam seu sustento nos séculos XVIII e XIX. Esse processo de transplantação da igreja ocorreu pelo processo de urbanização e higienização da cidade de São Paulo no decorrer do século XIX, processo repleto de racismo, que também demonstra o ato de resiliência da população negra que mesmo sofrendo pressão governamental, resistiu e manteve-se no polo econômico e social da cidade de São Paulo.

Outro monumento importantíssimo de representação dos negros, principalmente da mulher negra, é a estatua da mãe negra também localizada no largo do Paissandu, monumento idealizado pelo movimento negro que tinha como objetivo a construção da estátua como símbolo da gratidão e do reconhecimento que foi negado durante todo o período pré-abolicionista e pós-abolicionista, às mulheres negras, que eram a mão de obra mais barata do mercado – até hoje somos nós que permanecemos a deixar nossos próprios filhos aos cuidados de terceiros, para poder cuidar dos filhos dos outros.

“Ontem éramos Amas-de- leite. Hoje somos babás, empregadas domésticas”.

Imagem retirada:  http://agenciasn.com.br/arquivos/1287  créditos do fotografo: Comunidade Jongo Dito Ribeiro

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http://agenciasn.com.br/arquivos/1287 créditos do fotografo: Comunidade Jongo Dito Ribeiro

 

Imagem retirada: https://www.flickr.com/photos/cbnsp/4123815644, créditos do fotografo: Milton Jung.

Imagem retirada: https://www.flickr.com/photos/cbnsp/4123815644, créditos do fotografo: Milton Jung.

Representar a população negra nos monumentos de São Paulo é um grande passo na conquista da cidadania plena da população afro-brasileira, pois é por meio desses lugares da memória, que criamos a memória coletiva. O espaço é campo de reconhecimento, é por meio de suas construções que o presente choca-se com o passado, é como se déssemos voz aqueles que não puderam falar no passado, mas que hoje falam, pois para cada negra que não vê os seus representados nos monumentos contidos nos livros didáticos, ver-se representado em um pequeno pedaço do centro velho de São Paulo, é começar a sentir-se parte da memória da cidade, é reconhecimento. Mostrar que os negros não são apenas objetos de estudos, mas sim são protagonistas históricos, foram eles os idealizadores, deram vida a obras importantíssimas para o processo de urbanização da cidade.

Monumentos como a estatua da mãe negra, não são valorizados. Quando nos referimos a uma educação patrimonial, ou aos grandes monumentos da cidade de São Paulo, logo o que é estampado nos livros didáticos ou em outros meios de comunicação é a imagem de monumentos como a dos bandeirantes, entre outros, ideia que remete a uma cidade construída pelos e para a população branca, elitizada; os nossos grandes heróis nacionais são homens e brancos.

Educação regada de machismo e racismo, que por séculos a população negra vem tentando mudar. Mostrar que os negros fizeram e fazem parte da construção urbana e patrimonial de São Paulo, é dar a educação básica teor plural e inclusivo, é sair da tradição educacional misógina e racista, em que a mulher negra raramente aparece, é escapar da tradição de representar as negras e negros apenas como objetos de analise, comparecendo apenas em tabelas ou em imagens que remetem ao período escravagista.

Referências:

*Lopes, Maria Aparecida de Oliveira. As representações sócias da mãe negra na cidade de São Paulo.  Patrimônio e Memoria. Assis, v.3,n.2, p. 124-146, outubro 2007.

*SANTOS, Maria da Conceição dos. Festa de Preto na São Paulo Antiga: Um exemplo de resiliência na irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos (1887-1997). 2006. 161 f. Tese (Doutorado) – Curso de Ciências da Religião, História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo.

Imagem destacada: Estátua da Mãe Preta, no centro da cidade de São Paulo.