Por Cah Jota para as Blogueiras Negras.

 

Uma vez ouvi que “nesse mundo escroto e desigual, quem nasce preta e pobre já nasce militando”, de fato não erraram, ser sapatão é só a cereja do bolo que me exclui mais ainda.

Foi assim que trilhei essas quase três décadas sobrevivendo nessa nossa sociedade sendo preta, periférica e sapatão. Ainda na década de 80 eu já ouvia que era um tanto quanto petulante porque ousava perguntar sobre tudo.

Os anos foram passando e a vida não foi facilitando. Meu cabelo que ninguém próximo sabia pentear vivia quase raspado na época em que se comia carne 2 vezes por semana. Nos tempos de arroz, feijão e ovo, constantemente me paravam pelas ruas da Cohab para dizer que eu parecia um dos meninos do Jacksons Five, sempre faziam questão de dizer que eu parecia um menino…

Algumas vezes eu até gostava, porque parecia que aquilo me libertaria daquela feminilidade imposta que eu tanto rejeitava, e eu agradecia feliz ao universo pelas alergias que me impediam de alguns ritos adolescentes ditos femininos, como maquiagem, por exemplo. Mas na verdade eu nunca gostei de ser comparada a homens, até porque quase todas as histórias que carrego sobre essa situação terminaram regadas a violências físicas e crises de choro.

As brigas, as mágoas, tudo aquilo que permeia a raiva da exclusão, da negação, de toda dor que levei mais de ¼ de século para entender não ser apenas minha, mas ser nossa dor, ser das mulheres negras que existem e resistem e que sobrevivem nesse mundo sendo silenciadas diariamente visto que nada de fato foi construído para nos abarcar. Nem o próprio feminismo que, sem recorte, nos exclui  ignorando nossa enorme presença no mundo, não somos todas iguais. Muitas daquelas que nos chamam de manas em rodas de conversa, jamais pensaram em outras mulheres negras como companheiras, elas são lembradas apenas quando as pias sujas cheias de louça da noite anterior precisam ser lavadas.

Quando se é negra de pele clara, fruto de uma relação inter-racial numa sociedade racista como a nossa, é comum que desde cedo você aprenda a negar sua ancestralidade para ter uma falsa aceitação misturada a tolerância da sua presença em alguns espaços, mais uma vez o cabelo afro bem curto é visto como prático, limpo e um tanto aceitável já que não era tão custoso. Se por um lado, desde criança eu assim já estivesse cultivando a androginia sapatão no fundo do meu âmago e isso também derivasse da negação de ser uma menina negra hipersexualizada por homens mais velhos, cansada de resistir, um dia me entreguei a vodca, ao sistema, ao heterosexualismo, e tentei me adequar. Seis anos perdidos nessa tentativa infrutífera de negar o que eu sempre fui, alisei os cabelos, me casei, fui trabalhar em um banco, enfim, uma morte daquelas bem horríveis. Eu quase fui a mulata que esperavam que eu fosse, mas dei um basta gigantesco assim que caí em mim, afinal, como bem disse Alzira Rufino “Eu, mulher negra resisto”.

Ufa, a vida cheia de reviravoltas fez com que eu tivesse um minuto para pensar, para entender onde eu havia me perdido e o que era necessário fazer ainda neste mundo. Desisti dessa ideia de tentar ser aquilo que esperam de mim. Parei pra pensar no quanto era sufocante aparentar ser alguém que eu não era de fato. Penso sempre também nas mulheres e meninas que podem estar passando por isso, apenas buscando uma aceitação social, um acolhimento, sabe. Daí pra militância interseccional (assim nomeadinha) foi um passo.

A escola pública jamais teve a função de me preparar para a universidade, ela me preparou para a vida, para entender desde cedo que meu papel nunca foi manter um status, mas brigar pra ter algum espaço. Me lembro das reuniões do grêmio, em que eu era a mais jovem, da Cia de Teatro Marginal e das meninas que eu beijava escondida no escadão da 2… Mas tudo foi perdido porque tive que sair porque trabalhar diariamente, cursar o Ensino Médio no período noturno e fazer cursinho popular aos finais de semana para tentar entrar em alguma universidade pública, porque pagar mensalidade, material e transporte com o salário mínimo que eu recebia na época era bem puxado, e vender um rim para pagar uma formação universitária não era uma opção. Cinco anos após a conclusão da Escola Básica eu adentrei a universidade (privada, com bolsa, cotista, PROUNI, sua lindeza) Educação foi a minha escolha, eu desconfio até hoje que foi um desejo de mudar o mundo, mudando a escola, mudando as pessoas, mudando tudo…

Eu passei pela universidade, me ferramentei para trabalhar com o que escolhi, para aprender e ensinar, mas não me formei pra vida e nem pra militância ou pro feminismo, eu ouvi, li e aprendi sobre gêneros e etnias apenas como conceitos, que não me faziam o menor sentido, sem considerar a vivência nem interseccionalidade. O que me formou para o feminismo na prática foi a vida de preta, o role da quebrada, a escola pública, quando eu entrava no banheiro masculino para bater em algum menino que tinha feito algo a mim ou as minhas amigas, quando eu ganhei a medalha de artilheira do interclasses, quando eu briguei e fugi de casa pra andar de skate, quando raspei o cabelo e, todos os dias, quando eu saio de casa para encontrar meus alunos em outra escola pública de periferia, um pouco parecida com aquela em que passei anos vivendo. Foi, na verdade, a vida que tanto me machucou e tanto me fortaleceu.

Os textos feministas que eu li saíram da internet, traduzidos, jogados na rede, no celular indo pro trampo no  trem, entre uma estação e outra, e-mails e inbox trocados entre amigas, debatidos em rodas auto-organizadas, em mesas de bares, assim. Na vida, onde uma mina apoia outra e todas entendem que quando a polícia chegar quem vai se dar muito mais mal é a preta, porque de boas intenções o inferno tá cheio e o racismo continua sendo estrutural e atingindo quem tá mais à margem. Mesmo hoje que eu transito por lindas  bolhas de mulheres empoderadas lésbicas, bissexuais, feministas, ainda tenho dificuldades de socialização, por internalizar que somos “diferentes” e que minha sexualidade não heteronormativa aliada a minha etnia negra e a condição econômica sob a qual me construí  me inferiorizam mais ainda. Quebrar com essa lógica que em nada nos ajuda é difícil, tanto quanto pedir ajuda, é deixar-se tocar por outra pessoa.

Se agora em 2015 eu ouso sair usando um alargador com dois espelhos de Vênus cruzados sobre uma bandeira de arco-íris que tanto combina com aquela camiseta que quase já me fez apanhar na rua pela frase “Eu conheci Deus, ela é negra”, e ir dar aulas é porque hoje eu não estou mais só. “Não mexe comigo que eu não ando só, eu não ando só”, canta Bethania ao fundo. Hoje, eu entendendo que o que me fez permanecer tanto tempo sofrendo no armário é também o que me dá forças para arrombar a sua porta todos os dias, é o acolhimento das relações sociais. A solidão engole a gente, participar de um grupo que comunga dos mesmos princípios aquece o coração em um mundo tão desigual.

Aliás, se não é essa a causa da proliferação em massa das igrejas evangélicas na periferia, eu não arrisco outra hipótese. E eu que cá estou, vejo essa repressão surgir em frentes assustadoramente autoritárias sob as crianças, os jovens e as mulheres que mais do que nunca precisam se libertar desse Deus. Um Deus feito de eus que não as representam, nem nos olhos, cabelos ou pele, que não as ouve de fato, nem protege ou roga. É  preciso empoderar a periferia para romper com a negação de sua ancestralidade, sexualidade, a liberdade de fazer da sua vida o que bem entender.

É tanta opressão vinda de lá, de cá. Eu ainda estou lutando para ocupar o lugar que vivo a vida toda, ainda estou lutando para ocupar todos os espaços que eu quiser, e veja só, não quero tolerância mínima. Quero respeito, quero desconstrução na prática desses modelos que nunca nos serviram, mas muito nos destruíram.

Quero um feminismo que nos empodere a todas e principalmente as lésbicas negras periféricas que diariamente lidam com a misoginia, o genocídio, a hipersexualização –  dupla: por ser lésbica e negra numa sociedade machista e racista-  o estereótipo, as exclusões todas que sofremos e a raiva que nos move, articula e reage a tanta dor, como Audre Lorde brilhantemente deu visibilidade no feminismo negro, defendendo a interseccionalidade que falta em muitos movimentos, afinal nunca deixamos de ser lésbicas e negras, e, portando, sempre a outra ou a forasteira.

Nós existimos, e somos invisíveis apenas porque assim deseja a sociedade na qual estamos inseridas, mas isso está mudando, o cenário reage e nós reagimos mais ainda. Estamos ocupando mais do que as ruas da periferia ou do centro, estamos ocupando, ainda que poucos lugares, a universidade, a política, os bancos escolares, estamos ocupando todos os espaços que desejamos.

E esse sistema que tire seu genocídio do nosso caminho porque estamos passando, articulando, movimentando, ocupando e fazemos aquilo que sabemos fazer de melhor: resistir como deusas que somos!