Esse é um apelo para que se colham dados, para que a nossa visibilidade seja uma forma de prevenção de doenças e assim que seja um método de resistência ao racismo e lesbofobia institucional.

Estamos em 2015 e os relatos de atendimento inadequado, na área de saúde da mulher negra, são inúmeros.

Idas simples e rotineiras a profissionais de saúde da mulher são relatadas como traumáticas por diversas mulheres, nos mostrando a cada dia o despreparo de profissionais da área para lidar com aquilo que se preparam por anos: A saúde da mulher de forma integral independente de com quem elas se relacionem.

Quando uma mulher negra e lésbica vai a um consultório e o seu atendimento é baseado na suposição de que ela exerce práticas heterossexuais, ela é violada. Nesses momentos, o desconhecimento demonstrado pelos profissionais acabam retirando dela o direito e respeito a sua sexualidade.

Quando ela não é questionada quanto a sua sexualidade e qual o gênero de sua parceira, pode ser considerado um dos tipos de violência que sofremos de forma rotineira.

Por isso meu primeiro apelo vai para os profissionais da área. Questionem suas chefias e adequem seus prontuários, suas perguntas, seus estudos para que nos orientem da forma correta, pois NÓS EXISTIMOS.

O segundo apelo vai para nós, mulheres negras e lésbicas, que adiamos nossas consultas, que não usamos métodos preventivos em nossas inúmeras (e diversas) práticas sexuais.

É importante realizar os exames periódicos, uma vez ao ano ou sempre que observar alguma mudança em cor, odor nas secreções ou dores antes ou após práticas sexuais.

É importante afirmar a nossa sexualidade, para que saibam que devem usar o espéculo de menor numeração (e que nos causa menor desconforto durante o exame).

Quando nós não nos afirmamos negras e lésbicas, contribuímos com a invisibilidade institucional. Apesar de numerosas, não somos dados, não somos números, somos apenas mais uma mulher negra e lésbica que teve seu atendimento de forma inadequada e que ninguém irá saber.

Não existindo dados colhidos sobre nós, outro lamento: uma DST não tratada e que retornará um caso novo de HIV, sem registro, que foi transmitido entre mulheres pelo mito de que nossas práticas sexuais não são sexo – mito este que é existente pela precariedade e inexistência de informações e educação sexual, mesmo já tendo sido encontrado e notificado pela CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) em 2012 o primeiro caso de HIV transmitido entre mulheres ¹.

A nossa afirmação é autocuidado, é mostrar em dados colhidos que existimos e que quem nos atende deve saber nos orientar e que não vamos mais aceitar ter a nossa visibilidade negada institucionalmente, seja em consultórios de saúde ou em cartórios.

Cada mulher negra e lésbica que assim se afirma é mais uma mulher negra e lésbica que terá seu tratamento realizado de forma adequada.

NÓS EXISTIMOS E RESISTIMOS.

Não só nesta semana, mas em todas, que toda mulher negra e lésbica se afirme por mim, por ela e por todas:

Somos negras e lésbicas.

 

Nós existimos.

Fonte:

¹. http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm6310a1.html