Posts, compartilhamentos e conversas na inbox invadiram meu facebook sobre pensamentos em relação ao filme “Stonewall”. De início, fiquei um pouco surpresa com toda a movimentação em torno do trailer recém-lançado do filme. Por não saber que o mesmo existira até uns dias, acho que tenho chegado por último ao me dar o trabalho de, enfim, sentar e escrever algo sobre toda a problemática que envolve um trabalho sobre um levante histórico LGBT que aconteceu, mas que está sendo deturpado por conta de uma ótica higienizadora.

Com o mínimo de pesquisa, você, facilmente, tem conhecimento que Stonewall teve como figuras chaves mulheres trans e drags queens negras. Elas, dentro daquele contexto, tiveram não só uma posição de enfrentamento que encorajou a todos irem contra as represálias, discriminações e intolerâncias que já sofriam cotidianamente, como foram as primeiras a arremessarem os tijolos e/ou coquetéis molotov que deram início ao que hoje colocamos como uma verdadeira revolução. Porém, se tais atos heroicos dessas figuras icônicas foram tão importantes, por que aos 2 minutos do trailer, não percebemos essas mulheres sendo retratadas? Qual interesse nós, enquanto comunidade LGBT, temos em apagar as mulheres trans negras da história de Stonewall?

Enquanto mulher feminista, não é difícil perceber a dificuldade que hoje enfrentamos em ver as mulheres LBT’s sendo representadas dentro de nossa sopinha de letras. Convivendo diariamente com a falsa ideia que a partir de quando falamos de homofobia, estamos agrupando as violências que todas sofremos, muito me lembra o antigo movimento negro, que muito contribuiu para a criação do feminismo negro: se tinham a ideia que a partir de quando resolviam o problema do homem negro, as demandas feitas pelas mulheres já teriam tido soluções, mas não é dessa forma com que as coisas, realmente, funcionam. Precisamos não só ter consciência desse apagamento que, muito comum, fazemos com as experiências das mulheres, como vir a ser contra esse tipo de postura.

No Brasil, tendo uma cultura transfóbica sendo passada de cis para cis, não é difícil percebermos a razão que leva a atual conjuntura higienizadora (homens gays) de nossa comunidade, quererem abdicar e não se verem relacionados à precariedade suja, prostituída e diariamente assassinada existente (travestis e pessoas trans), vindo, dessa forma, a tentar, pifiamente, buscar uma postura mais límpida frente a seu algoz. O que me parece triste, uma vez que sabemos quem foram as mulheres que estavam jogando tijolos, mas ao apagá-las, reformulamos nossa história numa busca cega pela aprovação da mão que cotidianamente distribui tapas em nossas caras.

No meu texto anterior falo sobre a solidão da mulher trans negra, eu já havia citado o conceito de cultura popular falado por Marilena Chauí (1996), onde uma classe que foi contra uma conduta do seu colonizador (resistência), caí na contradição de tentar se enquadrar no que ele acredita (conformismo) e, nessa situação, parece se encaixar perfeitamente mais uma vez: embora sejamos comunidade LGBT e façamos borramentos em gêneros e sexualidades, um segmento de nós dissemina ideias e posturas que, em nada, será benéfico. É uma sucessão de atos que precisamos, urgente, vir a repudiar. Como a falácia de “afeminados sujam a classe”, de se dizer “com nojo de vagina” e outras demonstrações que nos fazem enxergar um machismo intrínseco nas condutas dos homens gays com que convivemos. Uma verdadeira aversão ao que se é lido como feminino e/ou se reivindica como tais.

Dentro das experiências iniciais que estou tendo com o queer na nova cena que vem aparecendo em terras recifenses, fico triste em perceber uma corrente contrária ao que venho aprendendo com pessoas que não só produzem sobre a teoria, como a vivem desde muito antes de termos conhecimento do termo. Uma vida que explora, dentro das experiências LGBT’s, o reconhecimento e libertação dentro de nossa precariedade, subalternidade e enfrentamentos. Não com um viés de conformismo, mas tentando encontrar uma potencialidade dentro desse cotidiano penalizado, onde não só construímos um empoderamento coletivo, como de também trabalharmos ainda mais nosso fator (trans)gressor. Assim, forçando a porta que insiste em ser fechada em nossas caras. Porque temos a convicção que não é abaixando a cabeça pros ideais do nosso algoz colonizador e homo-lesbo-bi-transfóbico que conseguiremos ganhos, mas sim, batendo de frente e nos fazendo ouvidos.

Por isso, convido a nós refletirmos sobre esse desejo incabível de alguns em apagar lideranças importantes de nossa luta, numa tentativa de tornar nossa história mais vendável para uma grande população assimilada, que dissemina que “Ser gay, tudo bem, mas ser travesti, já é demais!”.

BIBLIOGRAFIA

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo.

Imagem destacada: tumblr “The Rainbow Alliance