A despeito de todas as argumentações de ativistas ingleses e franceses contra a apresentação da obra Exhibit B em seus países, precisamos nós, brasileiros, formular nosso posicionamento para que o debate sobre a participação do trabalho do diretor sul-africano Brett Bailey na Mostra Internacional de Teatro de São Paulo seja baseada em uma reflexão verdadeiramente crítica e propositiva no que diz respeito à discussão de raça, cultura e estética em nosso país.

Exhibit B é uma instalação que se baseia na experiência do voyerismo para denunciar o colonialismo racista europeu impingido aos povos africanos.

A resolução formal do tema se dá a partir de uma instalação/exposição de homens e mulheres negros amordaçados, aprisionados em estruturas de tortura, controle e silenciamento remissivas aos contextos escravocratas. O que Brett Bailey organiza em Exhibit B é uma espécie de edição fragmentada de situações em que os negros foram violentados física e simbolicamente de modo a criar uma espécie de zoológico humano através do qual o público branco europeu teria um contato “visceral” com a responsabilidade (ou culpa?) política do massacre racial promovido por seu continente.

As artes cênicas em geral são valiosas armas para o combate de afirmações normativas, preconceituosas e discriminatórias. Sua potencialidade de desnaturalização da ordem é exatamente o que torna o teatro, a dança, a performance, o happening etc. linguagens geneticamente políticas mesmo quando não se tem a intenção de explorá-las dessa forma.

Pelo estudo da história do teatro, sabe-se que a cena foi muito usada para responder às questões emergentes de distintos períodos históricos. No seio da teoria teatral encontram-se, por exemplo, significativas análises sobre as tragédias gregas e sua relação pedagógica com as Cidades-Estado na Antiguidade Clássica. O berço da cultura Ocidental é diretamente associado à força dos mitos públicos, ancestrais, editados sob os códigos teatrais da época (balizados sobretudo por uma perspectiva não-realista de representação), previamente conhecidos pelos espectadores das tragédias. Essa metodologia, com efeito, garantia o reconhecimento das personagens como referenciais cujas ações podiam gerar nos cidadãos (os homens livres) aproximação e distanciamento críticos, terror e piedade, sentimentos voltados para a aprendizagem.

Importante nesse recorte do teatro grego era a interlocução pública entre os espectadores e a ação das personagens cujos conflitos transcendiam as questões de caráter individual. Pode-se dizer que o herói trágico se constitui antes de tudo como um modelo simbólico, a sugestão de um ideal e de um proceder.

Se a teoria teatral ensinada nos cursos técnicos e superiores de artes cênicas ainda não contempla os percursos artísticos e as elaborações simbólicas das populações não-brancas do globo, pelo menos podemos nos valer dela para analisar um efeito poderoso que a linguagem teatral organiza a partir de seus dispositivos estéticos: a presentificação.

No caso de Exhibit B, a atualização de um mito – uma realidade histórica amplamente reconhecível – torna-se um impasse ético na medida em que a experiência proposta na instalação se dá pelas vias da objetificação presente de atores e atrizes negros. A materialização da dor de um povo através do desenho de uma realidade desumanizadora se faz contraditória: mais uma vez a figura do negro, constituindo uma representação metonímica na qual indivíduos configuram uma ideia de coletivo, é tratada como vasilhame preenchido por uma ideologia dominante.

Brett Bailey disse em entrevista que está disposto a criticar o racismo que tem consumido ao longo de tanto tempo a população sul-africana a qual ele pertence, embora seja branco e, portanto, possua os privilégios reservados historicamente a sua casta racial. A partir desse ponto podemos levantar uma primeira questão passível de desdobramento: quem fala sobre um determinado tema nas artes precisa necessariamente ser afetado de forma direta por ele? Isso é, Brett Bailey, sendo um homem branco, estaria habilitado a construir um discurso estético supostamente racialista?

A atividade incansável dos militantes negros brasileiros para barrar a entrada de Exhibit B no país nos responde: Brett Bailey não deve se apossar de uma dor histórica e protagonizar a crítica ao colonialismo europeu em nome de uma comunidade da qual não faz parte.

É reconhecido e respeitado politicamente o apoio de aliados brancos no decorrer da história de empoderamento e emancipação dos povos negros no continente americano, no entanto, o tempo em que estamos exige revisão do que significa ser autor de um discurso político sobre raça, gênero e classe social nas artes e nos demais campos da comunicação humana. Não se trata de vetar a possibilidade de um homem discutir questões de gênero, de pessoas ricas discutirem a pobreza ou de pessoas de cor branca discutirem questões raciais publicamente, mas sim de pautar o lugar de fala desses interlocutores e a maneira como emitem suas opiniões, sobretudo nos pleitos artísticos em que os processos subjetivos inerentes à criação muitas vezes geram o sequestro da experiência daquele que é falado,  tornando-a um simulacro de si mesma.

Existem negros e indígenas ponderando – também poeticamente – sobre nossas problemáticas raciais e ainda assim essas pessoas permanecem relegadas à invisibilidade social pelas diretrizes, também excludentes, que ordenam o mercado das artes no Brasil e no mundo. Metaforicamente, cada Brett Bailey que surge a versar sobre a condição dos negros na História solapa um diretor ou diretora negros que, à frente do lugar comum, estão discutindo a apropriação cultural, o silenciamento das comunidades negras e lutando pela desconstrução, no campo social e dos símbolos culturais, do ideário do negro como objeto – tão explorado por Bailey em sua obra para gerar constrangimento no espectador (será mesmo pelas vias da punição moralizante que conseguiremos pautar a consciência da justiça social?).

Fica desse texto uma segunda pergunta a ser trabalhada: por que, nas artes cênicas, para falar de opressão precisamos representar a opressão? Por que não buscar uma teia de idéias semelhantes, referentes, de poder imagético associativo, que possam dar conta de um discurso crítico sobre estruturas opressivas sem ter de realizar em ato o seu enunciado? Talvez em face dessa escassez imaginativa da arte contemporânea também esteja se erguendo o pensamento e a voz das sociedades periféricas.