É de conhecimento do senso comum que mulher negra é considerada como a mulher barraqueira. Aquela que fala alto, que não leva desaforo pra casa, mal educada, lavadeira, tacacazeira, que põe a mão nas cadeiras e balança a cabeça de forma cadenciada com o pescoço. Adjetivos ditos sempre em tom pejorativo. Portanto, o título de meu texto é uma ironia. Pois as mulheres brancas quase nunca são barraqueiras, apenas são as donas da voz, são as madames, as donas da gentileza e da educação, aquelas que falam baixo, aquelas com voz de veludo, as de fino trato e que nunca tem a intenção de ofender. Mas a ironia, lógico, é direcionada. Ironizo aqui as feministas brancas que insistem em controlar e supervisionar os passos e as falas de mulheres negras.

Até bem pouco tempo, não tínhamos mulheres negras como referência intelectual no feminismo. Algumas combatentes mais antigas acabavam tendo atuações isoladas e solitárias. Em um brevíssimo resumo dessa história, nenhuma novidade: quando as mulheres brancas começaram a se organizar e combater a estrutura do patriarcado, sabemos que elas tinham condições de se reunirem em suas assembleias porque em casa tinham quem cuidasse da sua vida doméstica: outra mulher. A mãe? As irmãs? As tias? Lógico que não. As mulheres que facilitavam as lutas feministas brancas eram as mulheres negras, as criadas, mas isso a gente já sabe também.

Eu imagino o quanto Oyá e Ewá se indignavam com nossa não possibilidade de protagonismo. Mas o dia chegou. Mulheres negras começaram a se levantar e aos poucos se organizaram. E eis que de negras da família, passamos a ser as negras insubordinadas.

Mais anos passaram, ao longo desse tempo algumas feministas brancas perceberam seus equívocos e somaram, aliaram-se, souberam compreender seus espaços dentro da luta das mulheres negras. Outras deixaram como herança uma profunda e estúpida impossibilidade reflexiva quanto ao recorte racial,  territorial e identitário na luta pela equidade feminina em um pensamento estruturado no racismo e no patriarcado. E é com as herdeiras desta segunda categoria de feministas brancas a quem direciono este meu texto.

Agora é contigo, feminista branca-supervisora-fiscalizadora. Alguma vez nesta tua estrada tortuosa de não reflexão, de não leitura de livros e de pessoas, tu tiraste os olhos do teu umbigo e olhaste ao redor do mundo? Alguma vez já te puseste a pensar sobre representatividade x protagonismo x visibilidade? Alguma vez já te puseste a pensar que mulheres como eu – negra, amazônida, periférica – passamos décadas sem lermos uma só linha escrita por mulheres iguais a nós?

Tu sabes quantos anos eu tinha quando vi uma mulher negra amazônida, em situação de liderança na televisão, a primeira vez? Exatos 20 anos de idade. Hoje estou com 38 e nunca esqueci aquela imagem. Tu sabes a importância, pra mim, de ter visto aquela mulher na televisão sem estar subjugada? Então querida, tuas parças te fizeram midiática, e as minhas também me fazem querer ser midiática, sim. Vamos ser estrelas, sim. Estrelas de nós mesmas. E vamos ocupar espaços que nos são negados, sim.

Quando resolvi me arriscar no maravilhoso mundo das interwebs feminísticas, minha intenção era contribuir com o que muitas negras amazônidas já fazem há anos: colocar a mulher nortista, amazônida, paraense, belemense, em primeiro plano. Porque sim, nós padecemos do mal da invisibilidade por todos os mesmos motivos que uma mulher branca – por ser mulher, que uma mulher negra – por sermos negras, que uma mulher indígena – por ser “selvagem”, padecemos ainda mais por habitarmos um território marginalizado e onde mais impera o conceito da mestiçagem brasileira e latino-americana. Poucas pessoas sequer sabem quantos estados compõem a Amazônia, imagina saberem o quanto aqui precisamos de vozes altas, de gritos, de embates físicos. De negras midiáticas. De negras insubordinadas.

Nós não rachamos o movimento de mulheres, nós não rachamos o feminismo. Suas ancestrais apenas não nos incluíram entre as mulheres que mereciam equidade. Ficamos chorando? Sim, choramos muito, é verdade, porque nossas ancestrais levaram muita peia de feministas brancas, mas nós reagimos e agora estamos aqui: escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo. É por meio da atuação de mulheres negras na internet que aqui na Amazônia a gente também consegue ter um banquinho nessa rede.  

Feminismo é política, sim. E eu li Simone de Beauvoir e Judith Butler. Mas eu te pergunto: tu leste que feminista negra, querida? Já ouviste falar em Beatriz Nascimento? Em Zélia Amador de Deus? Tu conheces alguma mulher quilombola na luta armada por direitos ao seu pedaço de chão? Quem tu és na fila do pão do feminismo negro pra se encher de autoridade e difamar uma feminista negra, querida? Que sabes sobre política pública que envolva mulheres negras neste racismo tão competente? Já foste na fila do SUS pra ver quantas mulheres negras estão lá sendo deixadas por últimas na fila, porque alguém inventou que são mais resistentes à dor? Então, quem és tu pra fiscalizar nossas atuações e nossas histórias? Uma de nós errou, cometeu um equívoco, pisou na bola? Isso te faz querer ser heroína e salvar todas as feministas de uma feminista negra? Apenas não, querida. Cale-se e aguarde alguém com legitimidade para fazê-lo.

Tipo torto de afeto tu dizes pras tuas iguais, porque com todas as nossas dificuldades – inclusive de se livrar de feminista branca-supervisora-fiscalizadora em nossas lutas -, o que paira sobre a gente é ubuntu mesmo, querida.  

Sobre onde estamos quando as cordas estão arrebentando: Quantas vezes tu saíste da tua casa pra defender e socorrer uma mulher em uma delegacia, querida feminista branca-supervisora-fiscalizadora? Quantas vezes tu abrigaste, na tua casa, mulheres ameaçadas pelos maridos, namorados, noivos? Quantas vezes a tua cabeça esteve na mira de uma bala por se meter em briga de marido e mulher? Quantas vezes denunciaste homem da tua família por violência doméstica? E quantas vezes escondeste jovem da tua família porque a polícia achou que tava roubando? Pois é, eu vivi todas estas situações dentro da minha casa. Uma casa de duas mulheres negras conhecidamente barraqueiras por se indisporem com qualquer pessoa que pise em outra.

Tu sabes quantas vezes eu consegui levantar da cama depois de ler um texto de outra mulher negra na internet? Tu sabes quantos sorrisos eu dei depois de ler um texto de outra mulher negra na internet? Ora, ora, ora querida feminista branca-supervisora-fiscalizadora, tu entendes bem de feminismo-merchan, mas para entender de equidade estás a necessitar de leitura, vivência e menos arrogância.

E tua covardia é tamanha,  querida feminista branca-supervisora-fiscalizadora, que tu somes assim que tuas investidas contra a mulher negra são mal sucedidas. Porque quem te deixou a herança do racismo não previu que a gente ia lutar pra quebrar todas as formas de troncos e chibatadas.

No mais, estamos preocupadas mesmo é em dar orgulho às que nos antecederam, seja na Bahia, em São Paulo ou aqui em Belém. Apenas a elas devemos as contas do que pensamos, de como agimos e o que faremos daqui a outros tempos.

Nós não somos obrigadas a seguir cartilha de feminista branca, nunca fomos, nunca seremos.

  • RAQUEL TEIXEIRA

    Companheira estamos na juntas na missão.. Um orgulho ver as irmãs sintetizando em palavras nossos sentimentos!!! Ubuntu

  • Irene Cibelle

    Que orgulho ver uma mulher negra e amazonida em destaque e falando com tanta propriedade da luta feminista. Sou do Santarém no Pará fiquei bastante tocada pelo seu texto… Gostaria de sabe de que forma você acha que mulheres brancas podem somar ao movimento contra o racismo. Sou mulher, amazônica e branca ( identificada como branca pela sociedade, embora tenha avô negro), no entanto, eu não compacto com a discriminação racial que ocorre em nossa sociedade… Por outro lado, por não ser negra, e por ter vivenciado “apenas” a opressão do regionalismo e do patriarcado, algumas irmãs negras parecem não achar legítimo que uma “braquela” privilegiada tenha capacidade ou legitimidade para falar sobre questões raciais… O que posso fazer?! Devo apenas assistir e torcer pelas mulheres negras e não tentar “embassar” seu protagonismo… ou posso fazer algo?! Já vi, inclusive nesse blog, o quanto as mulheres brancas tem mais abertura na mídia por causa do racismo da nossa sociedade…e concordo. Mas o que fazer?

  • gostaria de agradecer muito a ti por suas palavras! espero que cada vez mais, feministas brancas como eu, possam saber quando é hora de simplesmente se calar e passar a ouvir o que vocês irmãs negras têm a dizer. desconstrução é algo constante e necessário. sororidade seletiva típica de feminista branca, não é sororidade.
    ps.: minha admiração por ti cresceu depois que vi que tu é taurina huehue

  • heliene Alves

    Vc disse todas as verdades…
    Quando crescer quero ser assim!

  • Edi Dantas

    Que texto gostoso de ler… nossa, me vi nesse texto: mulher, negra, de periferia, na luta contra a violência do Estado, da cultura branca, dos discursos mantenedores dessa humilhação horrenda
    Amor e axé pra todas nós, minha preta linda!

  • clarice

    Belíssimo texto, arrasou mana!!! <3 Sou paraense também

  • Tatiane Oliveira

    Texto perfeito, completo e verdadeiro. Hoje vejo muitos brancos tentando tomar até mesmo a nossa estória. A cor da pele é necessária sim, pra certos atos, pra certas palavras, pra todo sentimento.
    Já fui massacrada por não concordar com as cotas, onde muitos branquinhos se dizem netos de negros, por dizer que um cabelo anelado não é afro, por discordar que a atitude da branca de ojá, ou turbante, como preferir, não seja a mesma que a da negra.
    Muito obrigada, você falou por mim e pelos meus.

  • Nunca me senti tao representada num texto. Obrigada irma! Ubuntu!

  • <3

    Meu coração pra ti, irmã de cor, irmã de santo.

    • Thiane Neves Barros

      Axé, Leila! Meu <3 igualmente. Beijos.

  • Nazaré Cruz

    Thica, arrasou preta, belo texto, adorei a referência a senhora das possibilidades.

    • Thiane Neves Barros

      Motumbá, mana! Ela e tu estão sempre em mim. :*

  • Cilene Nabiça

    Vivendo pra aprender-te! A luta é diária! Sinto orgullo de ti, que nem conheço! Bravíssima!!!

    • Thiane Neves Barros

      Grata, Cilene! Abraços em ti!

  • Elô

    Que texto maravilhoso! Obrigada mesmo.

    • Thiane Neves Barros

      Obrigada, Elô! Abraços!

  • Muito lindo o texto, referenciar as yabás só fortalece a nossa luta, o nosso lamento e o nosso protagonismo.

    • Thiane Neves Barros

      Que seríamos sem elas, sim? Sigamos com os pés firmes nas estradas que elas iniciaram para nós. Abraços, querida Madelaine.

  • A única coisa que eu, enquanto feminista branca, posso fazer, além de calar e escutar, é dar o máximo de visibilidade possível para ‘não-brancas’ (disse ‘não-brancas’ propositadamente, pois aqui incluo as mulheres indígenas). Ninguém me ensinou mais sobre meus privilégios de branca do que as mulheres ‘não-brancas’ com as quais convivo ou às quais leio.

    Desconstruir o próprio preconceito é exercício diário! O sistema está tão bem arraigado e montado que a gente nem percebe… É auto-policiamento diário! Auto-análise diária! E aceitar críticas quando se escorrega…

    Sigam na luta! Força sempre!

    Pra mim, ser feminista é, também, reconhecer que enquanto mulher sou uma privilegiada diante de outros grupos de mulheres e usar este privilégio para que as menos privilegiadas tenham mais espaço, sejam mais ouvidas. Se reclamamos tanto de nossa falta de espaço diante dos homens, como não reconhecer que mulheres fora do padrão eurocêntrico tem menos espaço do que eu??? Eu não posso comparar a opressão que eu sofro, devida ao machismo, com a opressão que minhas irmãs índias e negras sofrem – elas sofrem o que eu sofro e mais e mais e mais e mais… E se elas são minhas aliadas contra o machismo, o mínimo que eu devo fazer é ser aliada delas em suas lutas contra as opressões e preconceitos que elas sofrem e que eu jamais sofrerei.

    • Thiane Neves Barros

      Reayla, quisera todas se permitissem ter as fichas caindo assim. Eu busco sempre escrever para as manas negras, mas sei da potencialidade da internet e sei também que outras mulheres podem acabar por ler nossos textos. Fico feliz com isso! Obrigada pela leitura atenta e pelo recado carinhoso. Sigamos! Abraços.

  • Thica,

    invocar a Mãe nesse texto só me deixou mais arrepiada ainda.
    Obrigada por dizer tudo o que a gente queria dizer.

    Nós por nós <3

    • Thiane Neves Barros

      Sempre, maninha! Obrigada por tudo! <3

  • Camila

    Se lágrimas pudessem expressar o que gostaria de dizer, teria escrito um livro enorme agora…
    Sou branca, e te digo que tuas palavras me calaram fundo, doeram, dilaceraram, mas algo muito profundo se transformou em mim.
    Desculpa a intimidade, mas preciso dizer que te amo e te admiro mais que a qualquer mulher que tenha conhecido. Foram poucas palavras pra amar? Poucas palavras que contém séculos de sofrimento, que me derrubaram e me lembraram da minha vergonha.
    Sim, eu já denunciei, junto com minhas irmãs, o abusador que nos estuprou e arrancou de nós a infância, que vivia dentro de casa e tinha “pátrio poder” sobre nós; sou pobre e não estou no padrão social que define a feminilidade; sou gorda. Mas sou branca, e sinto vergonha. Vergonha de um único privilégio, mas que me marca profundamente. Vergonha porque já reproduzi racismo, muitas vezes sem saber, e olhar pra trás e ver a escrotidão das minhas falas me dá vontade de morrer.
    Tuas palavras me fazem mais ainda querer ser um ser humano melhor, se eu viver até lá.
    Nem sei mais o que dizer… apenas te agradeço. Esse blog é um luzeiro na escuridão em que vivo.

    • Thiane Neves Barros

      Camila, li seu recadinho com minha ao meu lado e ambas ficamos muito emocionadas. Queria poder te abraçar e te deitar no meu colo pra gente conversar longas horas sobre todas estas dores e aflições, sabes. Acho que temos muito em comum. Obrigada por tamanha sensibilidade e por confiar a mim trechos de ti e da tua vida. Espero que esse mundo rode o suficiente pra que a gente se encontre em algum lugar desse país. Te amo igualmente! Beijos imensos, Thiane.

  • Texto excelente. Parabéns na tua comunicação. 😉

    • Thiane Neves Barros

      Obrigada, Jaqueline! 😀 :*

  • Carolina

    Mana, estou muito emocionada com seu texto.
    Te amo!
    Obrigada por nos defender.
    Obrigada por ser você! <3 <3 <3

    • Thiane Neves Barros

      Te amo, mana de meu coração! <3