Por Alana Alves para o Blogueiras Negras

„Quando você assiste o filme „Vertigo – Um corpo que cai“, você é Scottie (Jimmy Stewart), que deseja Madeleine (Kim Novak), ou você é Madeleine e quer que Scottie lhe deseje? Ou você é, alternadamente (ou ao mesmo tempo) os dois? Até que ponto e em qual intensidade?“

(Grafite no banheiro da „Lesbian and Gay Community Center“, em Nova Iorque, 1989)

 Não foi nada fácil aceitar a minha bissexualidade. Aceitar que eu gostava de mulheres foi mais fácil, mas aceitar que eu, mesmo assim, não era lésbica, não foi.

O preconceito que se tem contra bissexuais é visível não só entre heterossexuais, mas também dentro da própria comunidade LGBT, e eu simplesmente não queria ser aquilo que ambas comunidades pensavam sobre mim.

Hoje eu me sinto bem melhor como mulher bissexual, eu mentiria porém, se dissesse que já não vivo mais conflito algum. Às vezes, me sinto tão cansada que tenho vontade de voltar para o meu armarinho, pequeno e apertado; mas não dá pra voltar para o armário, quando se saiu dele. Para aquele armário que a gente, bonitinho, prepara para a sociedade, sim, mas para o armário que a gente usa para se esconder de si mesma, não.

Eu passei anos me escondendo e escondendo lembranças e experiências lésbicas, fui guardando-as em caixas que cabiam em outras, como aquela bonequinha russa, a Matriosca. Um dia alguém abriu a penúltima delas e eu me dei conta, quase que em choque, que era verdade, eu também gostava de mulheres.

Eu me lembro de como fiquei eufórica e como a lembranca de ter me apaixonado por uma amiga do meu companheiro, passou a ter esse significado:”apaixonar-se por uma mulher”.  Ela deixou de ser “coisa da minha cabeça”, delírios de uma mulher num casamento em crise. Também minhas primeiras experiências sexuais com outras garotas deixaram de ser apenas “curiosidade adolescente”; finalmente eu não tinha mais que me envergonhar ou me sentir culpada por ter gostado delas. Quanto mais eu me procurava nos relacionamentos lésbicos, mais eu me reconhecia, nos relatos, nas representações.

Ao mesmo tempo ao aceitar a atração sexual que eu sentia por mulheres, eu adentrava uma região proibida para mim mesma: o meu corpo. Mesmo antes de reconhecer que eu era bissexual, relatos de mulheres lésbicas que tinham pavor de homens, porque tinham sido violentadas, me incomodavam bastante. Não era o relato delas que me incomodava, mas sim a maneira com a qual a mídia sugeria que lesbianidade fosse a consequência de um trauma, e que como tal deveria ser superado.

O problema é que, eu também sofri violência sexual e hoje eu penso que o desconforto que eu sentia com esse tipo de insinuação, era por já perceber que as mulheres me atraíam. Se as pessoas já não acreditam na legitimidade de um relacionamentos entre duas mulheres, quando as duas não sofreram nenhum “trauma”, que dizer daquelas que sofreram? Eu não queria me ver e ver minha sexualidade sendo patologizada, e por isso ignorava tudo.

Ter sofrido violência sexual reforçou ainda mais a ideia de que meu corpo pertencia ao homem e somente ele poderia tocá-lo e dar prazer a ele. E se o meu corpo não me pertencia e eu não me conhecia, como eu poderia conhecer o corpo de outra mulher, como ele poderia me „pertencer“?

A mudança veio com a maternidade, eu tive um parto normal, sobre o qual eu tive muito controle e de alguma maneira isso me ajudou a vencer muitos traumas. O parto foi uma espécie de retomada do meu corpo. A partir daí eu comecei a sentir cada vez menos desconforto nos contatos sexuais com homens e passei a sentir prazer com maior frequência e de maneira mais natural.

Com a quebra dessas barreiras eu comecei a deixar fluir sentimentos que eu tinha esquecido que existiam e que se dirigiam a mulheres. Como eu já estava em contato com meninas lésbicas e bissexuais e participava de conversas nas quais elas falavam abertamente de seus sentimentos e experiências, eu fui aos poucos tendo a oportunidade de me identificar com elas.

No entanto um problema surgia, como eu poderia ser lésbica, se eu tinha amado o pai do meu filho, se tinha sentido tesão por outros homens (e de alguma maneira continuo sentindo)? Eu comecei a passar por um período muito doloroso e confuso, e penso que se bissexuais podem ser realmente pessoas confusos, então esse seria um exemplo.

Eu passei um bom tempo achando que era lésbica, porque eu perdi praticamente todo o tesão por homens e quem gosta de mulher é lésbica, certo? Errado. Está errado porque eu existo e tantas outras também. Mulheres que descobrem que TAMBÉM amam mulheres. Algumas delas amam somente uma vez, outras alternam com relacionamentos com homens, outras os têm ao mesmo tempo e outras, como eu, passam um longo período com homens, para depois chegarem à conclusão de que querem ficar somente com mulheres.

Eu não penso que cabe aqui a ideia de que eu tenha sido refém dos meus relacionamentos heterossexuais, como já ouvi por aí. Talvez isso seja o caso de muitas mulheres lésbicas que tenham medo de se assumir, e talvez esse seja o motivo pelo qual muitas pessoas dentro e fora da comunidade LGBT acredite que bissexuais sejam pessoas indecisas; homossexuais que não têm coragem de se assumir. Esse, porém, não é o meu caso.

Depois de assumir para mim a minha bissexualidade, eu saí à procura de visibilidade… e não encontrei. Até hoje eu me sinto mais à vontade nas páginas voltadas para lésbicas, já que eu não sou uma bi que continua tendo interesse num relacionamento com um homem. Ainda assim, eu continuo invisível entre as lésbicas porque, mesmo tendo um relacionamento lésbico, isso é entre duas mulheres, eu continuo sendo bissexual. E eu tenho pautas que muitas delas não terão que compreender e nem mesmo poderão. Da minha perspectiva, meus relacionamentos nunca deixam de ser bissexuais, pois eu nunca deixo de ser bi, não importa se com um homem (bi ou não) ou com uma mulher (bi ou não).

Apesar de assumir-me bissexual ter feito com que eu me sentisse muito mais segura em vários sentidos, em outros eu me senti tão insegura quanto uma adolescente descobrindo a si mesma. Eu confesso que essa fase foi horrível, e eu me senti até mesmo abalada em partes da minha identidade que eu vejo como bem definidades, como por exemplo, na questão da minha negritude e das minhas convicções feministas.

Eu tive que aprender que desejar não significa objetificar e no começo não foi nada fácil. Eu tive que aprender também que gostar de mulheres não é gostar de TODAS as mulheres.

Pode parecer bem tolo, mas eu tive que me dizer essas coisas, porque primeiramente uma avalanche de sentimentos me tomaram eu eu me via „desejando“ aquela mulher no ônibus e entrava em conflito com o que sentia, afinal, isso é coisa do patriarcado, não é mesmo??? Além disso, ser LGBT não me faz automaticamante imune a internalização de preconceitos.

Esses momentos que podem parecer bem bobos, foram porém, momentos importantes de auto-afirmação e auto-aceitação, de conquista de uma sexualidade que pra mim era proibida, já que na heteronormatividade somente homens podem desejar mulheres e vice e versa, e essa ordem deve ser mantida a todo custo.

Eu gostaria de ter encontrado mais sobre mim, sobre ser mulher negra e bissexual, sobre as diferentes construções dessa orientação sexual, sobre as diferentes vivências e conflitos. É muito bom saber que não estamos sozinhas, que não somos uma fase ou um período de transição de orientações sexuais “de verdade”.

Para isso eu acho que devemos falar mais sobre nós, para que nossos relatos deixem de ser a incerteza dos outros, pois eu estou bem certa de que, nós, bissexuais, sabemos muito bem quem somos, quem amamos e como amamos.