No romance “A Cor Púrpura“, de Alice Walker, a autora não deixa dúvidas de que o relacionamento entre Celie e Shug, as duas principais personagens do livro, seja amoroso. Essa informação se perde, porém, na adaptação do livro para o cinema e que foi dirigido por Steven Spielberg.

Para alguns, o fato de o diretor ter sido um homem e branco foi decisivo para o apagamento do caráter lésbico-bissexual do filme e que determinaria a categoria a que pertence a obra, para outros, muito provavelmente a censura de Hollywood tenha sido o fator decisivo.

De qualquer modo, a maneira mais comum de se inserir personagens LGBT em Hollywood é produzindo um filme que conta a história de discriminações e dificuldades, assim como a negação de direitos dessas pessoas. Por um lado isso é importante, mas por outro as pessoas LGBT continuam a ser retratadas como “a exceção“ na sociedade heterocisnormativa. Para ser mais explícita, os filmes reforçam a ideia de que ser lésbica, gay, bissexual ou transgênero/travesti exclui essas pessoas de uma sociedade e não o contrário. Isso é o que acontece, quando essas pessoas somente são retratadas dentro do contexto de exclusão de que são vítimas. Mesmo que não intencionalmente a denúncia perde com o tempo sua força e o que fica na memória são as “consequências“ de se pertencer ao grupo marginalizado.

Assim sendo, os filmes sobre pessoas LGBT de Hollywood parecem se encontrar num círculo vicioso de coming out e divergências que se seguem. Os filmes “Carol“ e “Freeheld“, que estreiam esse ano e que contam a história de mulheres lésbicas, seguem essa linha.

Todas essas informações ajudam talvez a entender melhor, porque Alice Walker nunca afirmou ser “A Cor Púrpura“ um romance lésbico ou bissexual. Fazê-lo faria com que o romance perdesse a descrição “romance histórico“ que a própria autora deu a ele. Já que para a nossa sociedade, a história de duas mulheres negras que se amam não faz parte da “História“, ela é uma história à parte da oficial.

No livro ‘In Search of Our Mothers’ Gardens: Womanist Prose, de 1983, Alice Walker descreve todo o processo de escrita do livro “A Cor Púrpura“ e fala do tom admoestador com o qual críticos comentavam a possibilidade de a autora conseguir escrever um “romance histórico“, como ela já tinha declarado. Um crítico negro temia, e não sem razão, que o romance não tratasse de batalhas sangrentas, de revoltas, de homens marchando e falando a um público sedento de um novo messias. “A Cor Púrpura“ é História sendo contada por aquela(s) que não deveria(m) contá-la, é a História de seres invisíveis tanto na comunidade negra quanto na comunidade LGBT.

Para enfatizar a invisibilidade de toda a existência das personagens principais e do amor que as une, Alice Walker escolheu a cor púrpura. Mas, se a autora queria falar do amor entre mulheres porque ela não escolheu a cor violeta, símbolo desse amor?

Não resta dúvidas que a autora sabia e bem, qual cor simbolizava o amor entre mulheres, contudo, ela também sabia que, por muito tempo, para não dizer até hoje, quando se fala de “mulheres“ somente as mulheres brancas são consideradas. Daí a necessidade de enfatizar que o amor de Celie e Shug é púrpura e não violeta.

Na física, dentro do espectro visível ou espectro óptico, as cores que a luz branca torna visível são: o vermelho, o laranja, o amarelo, o verde, o azul, o anil e o violeta. A cor púrpura não se encontra nesse espectro, pois se encontra entre o vermelho e o violeta, para visibilizá-la é preciso usar um diagrama que une os dois extremos do espectro, que una o violeta ao vermelho.

Num mundo regido pela heteronormatividade e pelo racismo, o relacionamento amoroso entra duas mulheres negras é como a cor púrpura, e fica fora do diagrama “usual“ com o qual as diversas formas de amor, podem e “devem“ ser representadas.

Nas produções cinematográficas todas as formas de amor heteronormativo são exploradas, em todas as suas complexidades, dificuldades e alegrias. E apesar do amor entre mulheres brancas também só ser representado esparsamente, e em sua maioria com foco nas suas adversidades, sua minúscula visibilidade é, ainda assim, significante se comparado com a quase inexistência de grandes produções que abordem o amor entre mulheres negras.

Nesse sentido o livro e o filme homônimo “A Cor Púrpura“ é multiplamente especial, pois aborda o amor sexual entre duas mulheres negras, assim como o amor não-sexual entre elas e que elas compartilham com as outras personagens/mulheres negras.

O amor púrpura de Alice Walker é o amor que une duas mulheres negras que se amam, porque sentem-se adultas para amarem a si mesmas, pois não sentem medo das mulheres que são e não têm medo das mulheres que reconhecem uma na outra.

Quando Celie viu Shug pela primeira vez, Shug foi extremamente franca e comentou como ela era feia. A afirmação não fez com que Celie se afastasse, ao contrário a maneira direta como Shug se expressava naquela e em outras ocasiões, a deixou intrigada, curiosa. Por sua vez, quando Celie contou a Shug as suas dores mais profundas e seus traumas, Shug não mudou a sua maneira de vê-la, a relação das duas permaneceu inabalada. Sobre essa conduta Alice Walker afirmou ao explicar o termo womanist (mulherista):

“Womanista: uma feminista negra ou de cor.

1. De womanish (com atitude de mulher): em oposição a girlish (que age como uma menina, infantil), ou seja frívola, sem seriedade, irresponsável. Termo usado na comunidade negra por mães que falam para as crianças “você está agindo como uma mulher“. Palavra comumente usado para referir-se a uma atitude ultrajante, audaciosa, corajosa ou destemida. Aquela que quer saber mais e mais profundamente e que decide o que é bom para si mesma (…)

2. Mas também: Uma mulher que ama outras mulheres, sexualmente e/ou não sexualmente. Aprecia e prefere a cultura da mulher, a flexibilidade emocional da mulher (valoriza as lágrimas como um contra–peso natural do riso) e a força da mulher. Às vezes ama homens individualmente, sexualmente e/ou não sexualmente. (…)

3. (…) ama a si mesma: sem limitações.

4. O  womanismo está para o feminismo como o púrpura está para o lavanda.”

Sob a ótica da teoria womanista de Alice Walker, o amor púrpura entre as mulheres negras é um amor que é capaz de preencher todos os âmbitos e que não precisa, mas pode perfeitamente incluir o envolvimento sexual de ambas. E a inclusão é para Walker tão natural, que não carece ser explicitada, não precisa de introdução, nem de esclarecimentos.

Seria importante frisar que Alice Walker não quer, nem tenta velar a relação amorosa entre Celie e Shug, ela apenas a trata e retrata como algo natural, como algo que sempre esteve lá e que esteve à espera das duas.

Sim, o amor entre Celie e Shug é o amor que não é visível, porque não pode ser usado pelo prisma que a heteronormatividade branca costuma usar para se reafirmar como a única forma de amar aceitável.

Ao reivindicar a cor púrpura e assim o não-lugar do amor entre mulheres negras, Alice Walker, afronta a sociedade racista e heterocentrista da melhor maneira, ao negar-se a dialogar e a aceitar qualquer nuance dentro do espectro de cores que essa sociedade costuma usar para retratar-se.

A cor púrpura pode não estar no espectro visível, mas ela existe e  está nas pétalas da malva, uma flor silvestre, que tem, assim como o amor entre mulheres negras, um efeito curativo.

Textos de apoio:

Walker, Alice. A cor púrpura, 1982.

Walker, Alice. In Search of Our Mothers’ Gardens: Womanist Prose, 1983.

Imagem destacada: Musical The Color Purple