Dóris tinha vergonha do seu corpo…

Cresceu ouvindo que era feia, que o cabelo era ruim, a boca grande e o pescoço fino.

A mocidade veio chegando as cadeiras crescendo, os seios ficaram maiores do que Dóris desejava, tinha mais vergonha ainda! Ria com a mão na boca, para que os dentes não fossem vistos, nem o quão grande sua boca era.

Não olhava para os rapazes da sua idade, não se permitia, achava que ninguém a queria, mas achava muito deles lindos. Olhava detalhadamente o corpo das colegas da escola, não sabia o que acontecia, mas adorava as aulas de educação física onde os corpos das meninas ficavam mais em evidência. Os seios das outras meninas, Dóris olhava como se desejasse fruta da feira, não importava se estava suja, ela apenas desejava sentir o sabor.

Se achava estranha por isso, como pode desejar meninos e meninas, o que todos achariam disso? Esse segredo deveria ir para o túmulo com ela, afinal era pecado e pecados não são bem vistos por olhos comuns, os quais Dóris conhecia bem de perto.

Ficava imensamente feliz quando era convidada a brincar de esconde-esconde, era a chance que tinha de poder beijar os meninos e as meninas, a brincadeira sempre se dava em lugares escuros onde os beijos aconteciam sem distinção de sexo. Mas Dóris sabia quem era quem, só pelo cheiro e pela pele.

Feliciana, sua amiguinha, lhe chamou para brincar em sua casa. Dóris foi. Lá foi convencida a ficar por baixo, sua amiga mais velha era negra, só que com a epiderme mais escura que a dela. Ela não sabia o que fazer, mas gostou muito… deixou. Sua amiga se roçava para baixo e para cima, a olhava nos olhos, beijava levemente seus lábios, ela sorria confusa, achava que não era certo, mas preferia não questionar a “brincadeira” da amiga, afinal elas não estavam fazendo mal a ninguém. A mãe da amiguinha bateu na porta do quarto. Feliciana saiu de cima da Dóris com medo das reclamações que viria. Dóris queria brincar outras vezes, mas não aconteceu.

Aquela lembrança não apagou da cabeça de Dóris até os dias de hoje, ainda mais porque essa amiguinha, depois que cresceu, mudou tanto, tornou-se amarga, alisa os cabelos e não aceita a cor que Deus te deu.

Dóris entendeu que não é pecado gostar de meninos e meninas e, atualmente, que não é pecado gostar também de quem não se acha menino, nem se acha menina.

Agora ela tem um namorado. Dóris contou a ele que gostava das meninas, que não viveria sem elas, as meninas, suas meninas, que não consegue imaginar sua vida sem as cores e os cheiros delas, e que se ele não a aceitasse assim, eles não poderiam ficar juntos. Ele, por gostar muito dela, acabou aceitando… não aceita isso por achar que vai, em algum momento, participar de algum momento de Dóris e alguma das suas meninas, mas por entender que ela é feliz e completa assim. Ela explicou que as meninas a completam de forma diferente, que não tem a ver com nenhuma falta que ele imagine que possa deixar, mas por ser algo dela mesmo. Ele a aceita. Ela, mais que ninguém, também se aceita.

Agora ela se acha linda, aceita seu cabelo, sua boca, seu jeito e, de vez em quando, Dóris se percebe se acariciando, imaginando que seu corpo é o corpo daquela sua amiga de infância, mas daquele jeito, que ela a conheceu quando eram crianças, sem complexos, não como é hoje, não amarga e sem aceitação própria. Dóris agora afirma-se e simplesmente se aceita bissexual, numa relação não convencional monogâmica, feliz com Ele, feliz com Elas.

São felizes dentro do que acreditam ser natural!