Já tentei aprender a fazer crochê com minha mãe e tia, mas nada saiu além de uma fitinha que servisse talvez de pulseira pras bonecas na época. Nada parecido com a touca que minha mãe e minha tia faziam e quase todas as meninas da família usavam sobre as tranças , queimadas com isqueiro nas pontas, o que deixava alguns incômodos. Foram toucas como essas que minha irmã usou por um longo período, depois de terem raspado sua cabeça na creche, sem autorização dos meus pais – meu pai ainda era vivo -, sob a justificativa de que ela estava com piolhos. Com que autoridade raspam o cabelo de uma garota desse jeito?! Se ela não tivesse cabelo crespo provavelmente isso não ocorreria, porque, é claro, cabelo crespo dos outros é espaço público – toca, revira, até raspa […]

O mesmo crochê que compôs a bolsinha branca que ganhei de presente de uma professora da mesma creche. Talvez ela não concordasse com o que fizeram com minha irmã, possivelmente ela nem sabia dessa história ou mesmo que aline era minha irmã… o mesmo crochê colorido com que Val, personagem interpretada por Regina Casé no filme “Que Horas ela Volta?”, dirigido por Anna Muylaert, enfeita seus potes de cozinha quando se muda para sua “própria” casa [alugada, na verdade], em uma comunidade periférica. Depois de sair da casa dos patrões, onde trabalhava como doméstica e dormia no famigerado quartinho-de-empregada.

O tal quartinho vem embutido com uma coisa que é mais do que um espaço físico – ainda que o seja -, é o lugar-social-de-empregada, o qual Val faz questão de reiterar para sua filha, Jéssica: “tem coisa que a gente nasce sabendo”. E nasce mesmo. Eu cresci frequentando a casa das patroas da minha mãe, achando sensacional poder tomar água de coco de caixinha, que me ofereciam de uma grande geladeira branca e recheada de guloseimas. Achando sensacional o presente de dia das crianças que uma delas nos dava no dia 12 de outubro, porque minha mãe, com o salário que recebia, não poderia comprar. Por mais agradável que fosse transitar por um ambiente arejado, iluminado; por mais largos que fossem os sorrisos de “deixa ela pegar; deixa ela comer”, eu sabia que a mesa de jantar era inacessível, que aquela vida cândida e arejada era só de passagem. Nós retornaríamos à nossa casinha na Brasilândia, de duas janelas quase totalmente cobertas pelos muros dos vizinhos e gradeadas, levantada pelo meu pai, que mal conheci porque fora assassinado pelo genocídio que mata os jovens negros da periferia todos os dias, e terminada com o salário de minha mãe, com acabamentos de crochê por toda parte, cheia de beregudegos das lojinhas de 1,99, com os quais ela enfeitava cada cubículo, tentando reproduzir o que via nas casas onde trabalhava (uma graça, como a minha mãe).

Eu era a obediente filha da empregada, por isso recebia caixinha de água de coco. Enquanto minha irmã, a da cabeça raspada, recebia áridas broncas de minha avó por ter utilizado o gel de cabelo [a caralha de um gel de cabelo!] do filho da patroa, no banheiro do filho da patroa, enquanto esteve no trabalho com minha avó, também empregada doméstica. Nunca mais ela pode transitar por esse mundo, nem como a neta-da-empregada, justamente porque ela não entendeu tim tim por tim tim o que gente como a gente precisa saber desde que nasce.

A duras penas de sofrimento psíquico, violência física e social, eu entendi… sempre quietinha, reclusa ao meu silêncio ou à minha gagueira que, às vezes, a fortes murros em qualquer superfície plana ao meu alcance, conseguia desengasgar e expropriar espaços, como Jéssica. Não tão pé no peito quanto ela, essa identificação reservo às minhas irmãs Débora e Aline, que muitas vezes chutaram o pau da barraca. Eu falo pra débora: um dia você mata mamãe do coração com essas fotos nuas no face. Acho louco (!), mas é difícil pra ela compreender. Tenha paciência, mana. Mas, na real, eu admiro. Em alguns momentos sou a irmã mais velha tiazona porque é preciso.

Eu, minhas irmãs e mãe não nadamos nas piscinas das casas frescas. Entretanto, a dona edileide maria do nascimento, natural da bahia, itabuna, mergulhou diversas vezes no seu caderninho de desenho da disciplina de artes, de quando fazia supletivo, numa movimento irreconhecido de expressão da subjetividade de mulheres como ela. São lindos desenhos, alguns poemas sobre águias, letras de músicas do leandro&leonardo… e ótimas reproduções de quadros de Tarsila do amaral, dos quais sempre tive medo. Tinha medo porque me enxergava na obra “a negra”. Aquela mulher grande, de seios grandes, mãos grandes. Eu não queria ser assim, como ela, mulher assim não é mulher: é bicho que come, trepa, jorra leite, mas não é mulher. Hoje sei que outras mulheres pretas já sofreram da mesma questão, talvez pelo mesmo medo de não poderem se reconhecer ou serem reconhecidas enquanto mulheres, pois não tinham impressas na sua corporeidade e experiências o que é dito sobre o feminino ou sobre a feminilidade [“Ain’t I a Woman?” – E não sou uma mulher? – Sojourner Truth, Estados Unidos, 1851].

Também já não usamos toucas de crochê, embora a casa ainda seja repleta de toalhas, panos de prato. A Aline tem um cabelo black incrível, não precisa do maldito gel de cabelo do seu filho, dona fulana! Minha mãe desenha com menos frequência, mas esses dias a ouvi dizendo pra um cara que aprendeu com as filhas que não pode aceitar preconceitos como racismo e machismo – ela continua tecendo pontos sem nó.

E eu estou aqui, ainda tentando não gaguejar ao falar em público, pra saber o b-a-bá do que responder quando ainda me dizem “teu texto está *impressionantemente*, *surpreendentemente*, *incrivelmente* bom” e afins…

Não mais pergunto a que horas meu pai volta, sentada no banquinho da ponta da viela 6, olhando pro reloginho de plástico no pulso, daqueles que a gente ganha em saquinho surpresa de festa de criança. Sabemos, todas nós sabemos, que ele não voltará. Contudo nós – a edileide, a aline, a débora, a gabriela -, e todas essas mulheres como nós, permanecemos vivas e agentes ativas da nossa própria história.

Pois é, o ponto de crochê que uma Maria dá, opressão nenhuma vai desfazer.

IMAGEM DESTACADA: Cena do filme “Que horas ela volta?”

  • Sarah Hipólito

    Que texto! Emocionante!

  • Mariana Santos de Assis

    Uau!!! Não sei se tenho algo mais a dizer…só acho que esse tipo de texto tinha que vir com aviso para não ler quando estiver em público…passando vergonha, chorando no trabalho…
    Parabéns gata!!!!!

  • Aline Silveira

    Gabriela, acabei de olhar o filme e li o teu texto agora e estou chorando. Mana, continue a luta #NósPorNós Sempre <3

  • Me emocionei muito com o texto, são tantas realidades distantes das nossas, tanta gente vivendo vidas tão diferentes.
    Minha família jamais teve empregada, acredito que muito mais por falta de condições financeiras do que por idealismo, mas enfim.
    Sempre me intrigou e perturbou a relação patroa x empregada, e muitas pessoas nunca entenderam meu estranhamento.
    E ainda tem a famigerada frase, mas ela é da família, de dar dó.
    Ai exatamente no momento onde se buscam leis para as empregadas domésticas, onde esse filme levanta questões e suscita críticas, o fantástico faz uma matéria mostrando a relação patroa x empregada como sendo uma mar de rosas, uma coisa liiinda, embaçando a realidade oculta dessas relações. De embrulhar o estomago.

  • Suéria Dantas de Oliveira Silva

    Me reconheci demais nesse texto. Era a filha quietinha da empregada, e que justamente por ser invisível era tolerada, mas que sempre soube de cor esse bê-a-bá cruel que nem sempre precisa ser dito, apenas se sabe.

  • Mila

    Que texto fantástico…

  • Tatiane Oliveira

    Lindo texto, fortes palavras e tristes verdades. Minha avó foi governanta por muitos anos, minha mãe sempre foi fã de estudos (GAD)… Mas quando minha saudosa avó adoeceu, as verdades vieram a tona, a dor de não ter nem mesmo onde morar com a mãe doente, precisar de favores da casa de outros, que não respeitavam a idosa doente. Mas minha mãe é uma guerreira dos raios, guerreira de Iansã e trabalhou duro, dois empregos, graças aos estudos, públicos e deu uma casa digna, uma vida digna, um adoecer e melhorar dignamente á minha avó Julieta.
    Um dia, a filha dessas pessoas as quais minha vó trabalhou, achou minha mãe e disse que estava precisando de empregada, pra cuidar da cachorrinha dela… Minha mãe disse não, obrigada, mas estou empregada, e muito bem empregada. E sabe que a criatura ainda teve a coragem de perguntar se minha avó não aceitaria…. Mas mesmo que minha avó quisesse, minha mãe jamais deixaria… Dona Ely é braba como um búfalo…
    Me vejo na sua estória, me dói como a sua dor, e hoje luto para que meus filhos, filhos dos meus filhos, filhos dos filhos dos meus filhos, não tenham de passar por isso novamente…

    • E ainda tem aquela bendita frase, ela é como da família afff