Esta semana falamos de feminismo interseccional aqui no BN. Semana passada falamos de visibilidade bissexual. Mas também já falamos de visibilidade lésbica e de visibilidade transgênera. Na interseccionalidade temos buscado romper com as generalizações sobre ser mulher e sobre ser mulher negra. Por isso a necessidade das discussões a respeito da visibilidade. Aqui no Brasil, estimuladas por mulheres como Sojourner Truth – a quem devo o título que uso neste texto -, Audre Lorde, Kimberlé Crenshaw, bell hooks. Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Mãe Stella de Oxóssi, Lélia Gonzalez e Djamila Ribeiro, entre outras, dezenas de nós – já que não citei nominalmente as autoras que publicam aqui no BN -, temos tido a oportunidade de nos debruçarmos nas análises sobre o cruzamento – a intersecção – entre gênero, raça e classe social. E isso nos fortaleceu tanto que acabamos de ver acontecer um evento histórico em nossa própria história, o I Acampamento de Feminismo Interseccional.

Mas, como mulher negra que vive e circula pela Amazônia, eu também vivencio outras referências intelectuais e referencio outras vivências não intelectuais. Às minhas reflexões somo mulheres que aqui promovem o debate teórico e por vezes epistemológico quanto à população negra, quanto ao corpo negro, quanto à geografia negra e à história negra, quanto ao território negro no contexto amazônico. São mulheres como Maria Malcher, Zélia Amador de Deus, Mônica Conrado, Marilu Campelo, Nilma Bentes, Nazaré Cruz, entre outras. São mulheres que me somam ao perceber que eu sou uma mulher negra, amazônica, urbana, midiática, tecnológica, acadêmica e tudo o mais que possa me definir quanto às minhas identidades.

E ser uma mulher negra na Amazônia diz muito sobre mim também. Pois nossa história é tão invisibilizada que frequentemente desacreditam que sou paraense quanto estou fora do Pará. E quando me afirmo negra aqui dentro do Pará, logo destacam em mim meus traços indígenas.

Simone de Beauvoir afirma que não nascemos mulheres, mas nos tornamos. Lélia Gonzalez ao retomar essa linha de pensamento afirma que “a gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha, etc., mas tornar-se negra é uma conquista”. E como Lélia apontava bastante a questão do território amefricano, é nela que muito me baseio para tratar deste território Afro-Amazônico.

Aqui na Amazônia, território complexo, extenso, de tripla colonização, de tripla subjugação, onde predominam duas estações climáticas: período mais chuvoso e período menos chuvoso, onde nascemos cablocas – e isso quase sempre é um estereótipo negativo, como pessoas não civilizadas, por exemplo – , moreninhas e mestiças, onde somos as sensuais, as misteriosas, as míticas, favorece que não só que a diáspora seja invencível em nós, pois somos triplamente desterritorializadas, triplamente des-identificadas socialmente, encontramo-nos com nossa condição de mulheres afro-amazônicas não é um percurso fácil. Reconhecer-se pessoa negra na Amazônia é “ofender” toda uma ancestralidade também indígena. Então falar daqui desse território é demais complexo para nós, mulheres negras amazônidas. E eu estou falando apenas de minha vivência na área urbana de Belém. Porque nos demais territórios deste imenso território, as complexidades são cambiantes e mudam de quilombo pra quilombo.

São mais de 400 quilombos em todo o território amazônico. As identidades culturais das mulheres negras que vivem em quilombos – ou as mulheres quilombolas do espaço agrário, categoria usada pela geógrafa Maria Malcher –  são diferentes de mim, que vivo na intersecção entre o espaço agrário e a urbanidade. O espaço geográfico é  muito significativo.

Então como afirma Djamila, sobre a necessidade de rompermos com a uniformização da categoria mulher, o feminismo interseccional também precisa atentar para questões quem ampliam as identidades de gênero, raça e classe. Aqui na Amazônia nosso esforço de combate aos estereótipos, de denuncia ao racismo e afirmação da identidade negra diante a uma imposição cabocla, já compõem em si uma subversão.

Integrar para não entregar

Esse foi um dos slogans utilizado pelo Estado brasileiro como justificativa para a re-colonização amazônica. Integrar a Amazônia ao Brasil para que ela não parasse nas mãos de colonizadores estrangeiros. E então o Estado pôs a desmatar a região e desterritorializar comunidades quilombolas e comunidades indígenas em prol do desenvolvimento e do progresso. Em quantos livros de história e geografia a comunidade ribeirinha na Amazônia é apresentada como uma população isolada e perdida em meio a um imenso vazio demográfico? Quantas revistas ainda reforçam esta falácia atualmente? Não raro, a representação imagética da mulher negra na Amazônia é a mulher “mestiçada”, guiando uma canoinha, lavando roupa à beira do rio ou tecendo cestas de palha.

Nossa invisibilidade é tamanha que quando aqui colocamos os nossos turbantes ou encrespamos nossos cabelos, não raras são as pessoas que nos abordam perguntando se somos baianas. Porque, afinal, apenas na Bahia existem mulheres negras para o senso comum brasileiro e também no senso comum amazônico.

Os produtos midiáticos como telenovelas, minisséries, seriados, etc, se ocupam em demonstrar a mulher amazônica como aquela que nada sabe sobre o mundo, que quando vai à cidade grande não conhece tecnologia, não conhece praia, não sabe se expressar na língua colonial. Se para Lélia Gonzalez a gente preta brasileira fala o “pretuguês”, aqui na Amazônia os estudos linguisticos certamente poderiam nos categorizar como falantes de um tupi somado ao banto africano.

Aqui até nossa religiosidade é “afroindígena”. Mas tanto quanto em outros locais no Brasil as práticas culturais de matriz africana são folclorizadas aqui na Amazônia, mas por sermos estes seres em tripla invisibilidade, pouco sabemos sobre as origens destas práticas, pouco falamos disso.

É por isso que eu evoco, manas: vamos falar de território também. Nossos territórios também determinam opressões, nossas vivências, nossas relações sociais, nossas práticas culturais, nossas demandas.

 

 

Referências: Tem um monte de referência de leituras em outras mulheres negras e para a construção deste texto eu me detive exclusivamente ao pensamento da mulher negra, inclusive quando citei Simone de Beauvoir.

Imagem destacada: Foto de Camila Fernanda, tirada no “Troca de saberes 2014”, na cidade de Ourém (PA). A imagem está originalmente publicada na página do Projeto ParÁfrica