Caro Saflater,

Você provavelmente não me conhece, mas já lhe vi pelo menos duas vezes pelos corredores da Universidade de São Paulo. Aliás, universidade que insiste há mais de décadas pela exclusão da população negra e periférica, mas isso o senhor já deve saber de cor e salteado. As duas vezes que lhe vi, você estava rodeado de pessoas, inclusive porque o senhor é professor desta universidade tão elitizada. Nem preciso destacar o quanto deve ser bom ter reconhecimento e poder ministrar seu conhecimento para outras pessoas e, claro, SER OUVIDO.

É disso que quero falar para você e para quem mais estiver lendo esta “carta-resposta” para o texto “Quem tem o direito de falar”, publicado dia 25 de setembro de 2015.

Acho que entramos num consenso quando pensamos no avanço das lutas das minorias, dos movimentos feministas, LGBT, indígena e negro. Quando que antigamente ligávamos a televisão na Rede Globo e víamos dois negros, um chamado Leandro – mais conhecido como Emicida – e outra militante do movimento negro chamada Dandara, discutindo democracia racial e miscigenação, não é mesmo? É um avanço para toda a esquerda e, principalmente, para o debate negro.

Não abro mão disso, nem abro mão de te dizer que queremos, sim, sermos interlocutores da nossa própria luta, queremos espaço e voz, não queremos representações do outro lado – e quando digo o outro lado, falo do seu lado -, estranho ouvir que existem vários lados, né?

Um dos maiores “tiros no pé” recorrentes da esquerda brasileira é de achar que estamos todos no mesmo barco. Até queremos chegar ao outro lado, mas se não conseguirmos traçar as especificidades dos tripulantes vai ficar difícil chegar lá, pois existe muita diferença quando você, homem, cis, hetero, da academia, fala, e, quando eu, no alto da minha juventude, negra, vinda da periferia da zona Sul de São Paulo, falo. Entenda, meu caro, tá para além de qualquer “O Capital” do Marx, as falas estão em disputa e às vezes é necessário ouvir, e digo mais, você não é o primeiro homem branco da esquerda a querer pautar “a nova cara dos movimentos de opressão” e como eles tem sido um tipo de empecilho para luta, é recorrente toda essa falácia em cima da disputa dos discurso, sobre sectarismo e vetorização, e ouso dizer que até quero homens brancos de esquerda como aliados, é ótimo, menos um para educar, mas também quero espaço, para além de ser objeto de estudo, número e estatística.

Para além da “massa”, também quero ser sujeito, passível de voz e discurso, que faz política sim e pra fora da caixa, para fora da USP, para fora da esquerda branca, uma vez Sueli Carneiro disse assim “Entre esquerda e direita continuo sendo negra” e tá dado, continuaremos sendo negros e negras, pessoas LGBT, mulheres, exigindo espaço e voz. Queremos ser interlocutores e produtores de nossa própria luta, para além do sol que ilumina e faz pensar e produzir só a alguns. Tratar toda uma discussão séria sobre representação como “ressentimento” é esvaziar todo o debate.

Aliás acho que o que falta para homens e para algumas mulheres como você é: ouvir mais e entender que para vocês, sujeitos privilegiados, é muito fácil falar de voz quando se tem toda uma plateia lhe esperando, quando se vai ter toda uma passibilidade para vocês enquanto sujeitos. Você, por exemplo, nunca terá que lutar por voz, uma porque até mesmo no âmbito da esquerda e da política homens são sempre bem vindos inclusive até para falar qualquer coisa que não acrescenta. Pessoas brancas com estabilidade financeira tem mais tempo para estudar qualquer coletânea da esquerda e ter uma boa dicção e dominar a arte do discurso.

E, para finalizar, não quero – e tenho certeza que nenhum militante de nenhuma causa – setorizar a esquerda ou atrapalhar a luta de classes. Queremos é entender esse incomodo todo de alguns, pois inclusive parece muito ressentimento por perda de espaço, quando falamos de lugar de fala podemos usar sua atitude como exemplo: mais um homem branco pedindo para ser ouvido, como se tivesse alguém da luta de minorias colocando alguma tarja em sua boca, como se fossemos o novo inimigo da tal luta de classes. Para encerar, de verdade, discordo totalmente sobre o “maior medo do poder é que você se coloque na posição de qualquer um”, o maior medo do poder é a auto organização daqueles que ele mais oprime, porque aí sim chegará o fim do “poder”.

Dica de leitura: Djamila Ribeiro. Homens brancos podem protagonizar a luta feminista e antirracista?