No dia 20 de setembro de 2015, na 67ª edição do Emmy Primetime Awards, Viola Davis entra na história como a primeira mulher racializada como negra a ser premiada com a estatueta na categoria dramática pela sua atuação na série “How to Get Away With Murder” (Como se safar de um assassinato). Uma série que caiu nas graças do público porque trata de assuntos diversos que vão de sexualidade, agência feminina e racismo em paralelo à trama sobre um assassinato de uma jovem estudante universitária dentro campus.

Nem tanto pelo prêmio, mas foi o seu discurso que fez a internet bombar por mais de vinte dias com discussões polêmicas que deram mais uma vez visibilidade sobre um dos temas que esta em pauta nos Estados Unidos: racismo, machismo e visibilidade. Foco nos Estados Unidos para contextualizar em tempo e espaço um momento em que a campanha “Black Lives Matter” está em pauta, sem subestimar nem esquecer a luta cotidiana antirracista e feminista do povo preto, trabalhador, pobre, marginalizado e criminalizado no Brasil.

O prêmio estadunidense vem involucrado de um status de glamour, luxo e riqueza típico das passarelas hollywoodianas. Isso já é conhecido internacionalmente e existem válidas críticas sobre a reprodução de uma hegemonia toda trabalhada no privilégio da branquidade e nos saltos do imperialismo norte americano. Canais, produções, roteiros, figurino feitos pelas mãos brancas e premiados pelas mesmas. O tema da série e essa reprodução de marcadores através desses prêmios não serão pauta deste artigo, mas essas críticas também me motivam a escrevê-lo.

Viola Davis está neste cenário representando a população negra feminina com um papel de liderança dentro e fora da série. Uma questão muito importante a ser considerada, já que tem contribuído dando ideias para (re)criar cenas em que mostra suas emoções (de uma mulher negra): aquela que não dorme de maquiagem, que chora, que se desespera, que vive, que é forte. O mais importante é que insiste em dizer que são “suas” emoções, sem intencionalidade de essencializar a ideia do que é ser mulher negra bem sucedida, mas dizer que elas existem. E por isso, Viola Davis subindo no palco para buscar o prêmio, é sinal de orgulho e poder para o povo preto. Nos tira de uma situação de margem e dá visibilidade às potencialidades do que somos/ podemos ser.

O discurso da Viola, como dito, foi muito aclamado de formas positivas e negativas. As palavras de Viola:

“Em minha mente eu vejo uma linha, e do outro lado da linha eu vejo campos verdes e flores belas e lindas mulheres brancas com os braços estendidos para mim ao longo da linha, mas eu não consigo chegar lá. Eu não consigo alcançar o outro lado da linha” isso foi dito por Harriet Tubman no século 18. E deixem-me dizer algo: a única coisa que separa a mulher negra das outras é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy se não houverem papeis. Então, agradeço a todos os escritores e autores, pessoas incríveis como Ben Sherwood, Paul Lee, Peter Nowalk, Shonda Rhimes, pessoas que redefiniram o que é ser bonita, ser sexy, ser uma mulher protagonista, ser negra. E agradeço também às Taraji P. Hensons, às Kerry Washingtons, às Halle Berrys, às Nicole Beharies, às Meagan Goods, às Gabrielle Union: obrigada por nos conduzirem através daquela linha. Obrigada à Academia de Televisão. Obrigada.”

Esse discurso tem muitas vertentes, tanto na frase escolhida pela mídia para ser o jargão principal “a única coisa que separa a mulher negra das outras é a oportunidade”, uma afirmação bastante questionável, ou talvez incompleta; quanto pelo agradecimento aos escritores, que demonstra a predominância branca e masculina (apenas a ultima citada é uma mulher negra) que nos leva à reflexão anterior em se tratar de um nicho hegemônico, e para os que preferirem, imperialista.

O twitter não parou com hashtags apoiando o discurso da Viola Davis no Emmy Awards 2015. Como era de se esperar, também causou polêmicas. Foi criticado pela atriz racializada como branca Nancy Lee Grahn, conhecida por Colheita Maldita 3, Melrose Place e mais recentemente General Hospital, da seguinte forma:

“Eu sou a porra de uma atriz por 40 anos. Nenhuma de nós tem respeito ou a oportunidade que merecemos. Emmys não são espaços de oportunidade racial. TODAS as mulheres são desvalorizadas”.

Essa atitude evoca uma serie de questões já debatidas pelo feminismo negro que aqui apresento em três tempos: reprodução de privilégios, constante rixa com outras mulheres e racismo.

A reprodução de privilégios de sua branquidade e sua carreira que fazem Nancy ter visibilidade e formar opiniões de fãs que a seguem no twitter é muito perversa. Não apenas pela agressividade das palavras que subestima a realidade dura de quem vive o racismo, mas das questões de gênero que estão embutidas nisso. Quando Patricia Arquette ganhou o Oscar de melhor atriz principal em 2015, seu twitter foi extremamente diferente, apoiando a atriz:

“Bom @PattyArquette que usa sua vitória para fazerem as mulheres campeãs. Faça seu momento valer. Eu gosto disso #Oscars2015”

A comparação aqui entre ambos twittes foi feita nas redes sociais para denunciar o feminismo branco como forma de reprodução da supremacia branca. Isso repercute no “local de privilégio” de quem fala (a mulher branca) e na reprodução de uma constante visão limitada, que entende “outras” mulheres como inimigas contra quem sempre se esta competindo espaços, homens e melhores visuais. É importante entender que não somos “irmãs universais”, afinal, temos peculiaridades na construção de nossas identidades, na relação com os nossos corpos, cores de peles, raças/ etnias, nacionalidades, religiões e tantas outras interseccionalidades. Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que as histórias das mulheres são verdadeiras nas exclusões vividas no seu dia a dia e a reação de Nancy Lee Grahn foi cega e inútil para a luta de todas as mulheres, sobretudo aquelas que vivem o racismo.

Audre Lorde escreveu um livro chamado “Sister Outsider” onde ela questiona o posicionamento dos opressores, aqueles que se mantém em seus lugares sem tomar responsabilidade por suas ações. Foi isso o que Nancy Lee Grahn em sua postura de “superior” e arrogante fez: drenou a energia que poderíamos usar na luta pela igualdade atacando as reivindicações de “outra” mulher. Sem dúvida, depois de muitas horas discutindo com os fãs que a agrediram no twitter, ela pediu desculpas e repetia em uma frase “mea culpa, mea culpa” dizendo que nunca teve intenções racistas, machistas ou de minar a maravilha de atriz que Viola Davis é. A lição que aprendemos nessa polêmica é que, parafraseando Audre Lorde, precisamos redefinir nós mesmas para construir cenários realistas de maneira a alterar o presente e construir o futuro que queremos.

Para finalizar, não quero levar a leitora a acreditar que o que me fez escrever o artigo foram os comentários infelizes de uma atriz branca de meia idade que já não precisa de mais flashs e holofotes em sua direção. Minha intenção é alertar todas aquelas pessoas que assistiram ao Emmy Awards 2015 que existe uma continuação do discurso da Viola Davis que não foi dito, mas precisa sempre ser lembrado: O que separa a mulher negra das demais mulheres NÃO É APENAS a oportunidade. Essa separação tem raízes coloniais, de uma escravidão, violência, racismo, que jamais serão recuperados ou reparados nos âmbitos emocionais, físicos e econômicos do povo negro. Essa separação é secular, essencializada no olhar que ate hoje temos do que significam África e quem são as pessoas negras, sobretudo as mulheres negras. O continente explorado e o corpo sexualizado representados pela figura de uma mãe, a África, que ora é romantizada, ora e é inferiorizada pela força indelével do capitalismo patriarcal hegemônico e branco que passa pela realidade de todas as pessoas negras nos diferentes contextos urbanos e nacionais das sociedades ocidentais. Essa separação precisa ser lembrada, porque espaços para fazer esses discursos antirracistas são criminalizados ou ofuscados por comentários como o de Nancy Lee Grahn.

Abrir mais espaços e estar presente sempre, para não esquecer, para lutar, para não desistir. É disso que se trata o feminismo negro.

 

 

Bibliografia:
Audre Lorde. 1984. Sister outsider : essays and speeches. Trumansburg, NY : Crossing Press
How To Get Away With Murder Brasil. 21/09/2015. EMMY AWARDS | Melhor Atriz em Série de Drama: Viola Davis – Legendado. https://www.youtube.com/watch?v=Dfpcy7oc1-w
Rebeca Carrol. 21/09/2015. Viola Davis made Emmys history and spoke truth to power in her speech. In: The Guardian. http://www.theguardian.com/film/2015/sep/21/viola-davis-emmys-history-speech-hollywood-women