Meninas negras sonham com o dia em que serão adultas. Sonham dormindo e sonham acordadas com aquele instante em que terão controle de sua própria vida.

Ser adulta! Sair e chegar a hora que quiser, exercer a profissão que sempre quis, ser boa no que faz, bem remunerada e reconhecida. Estar em restaurantes, lojas e comprar tudo o que precisar, andar pelas ruas bem altiva e somente voltar pra casa quando realmente quiser, se sentindo feliz.

O sonho das meninas negras traz consigo a ideia da vivência de autonomia, realização, reconhecimento, empoderamento econômico, dignidade e liberdade.

Essa é a fantasia de muitas meninas negras e acredito que foi o sonho da maioria, senão de todas as mulheres negras adultas que já conheci.

Quando olhamos para trás e nos reencontramos com aquelas meninas, pensamos no caminho que percorremos e me pergunto o quanto cada uma de nós vivenciou esse sonho.

No Brasil sabemos que do total de matriculas em cursos superiores, ainda há uma grande lacuna separando a população negra da população branca desse país, somente uma parcela das mulheres negras está na universidade – ou esteve- e as lacunas de uma formação educacional marcada pelas greves, faltas de aula, falta de professoras e professores fazem com quem haja e uma imensa concentração de presença de mulheres negras nos cursos de licenciatura e na pedagogia, uma vez que não há o desenvolvimento de todas as competências que lhes permita aplicar para todos os cursos, o que nos ajuda a compreender que mesmo quando acessam a universidade muitas de nós não vivenciam a profissão que sonhavam ter.

Do total de desempregados do Brasil boa parte somos nós, as mulheres negras, nos subempregos, trabalho precário e trabalho doméstico informal a concentração de mulheres negras é evidente: remuneração precárias, baixa riscos no exercício da função e às vezes condições análogas à escravidão são marcas desse contexto.

O poder aquisitivo das mulheres negras é reconhecidamente o mais baixo de todo o conjunto da sociedade, muitos dos sonhos nãos e concretizaram para aquelas mulheres negras que não tiveram a oportunidade de acesso e continuidade de estudos.

Depois de pensar em minhas irmãs que não conseguiram continuar em seu percurso formativo, penso naquelas que como eu, o fizeram; chegaram- não sem um imensurável esforço- a universidade, concluíram uma formação…. Realizamos nossos sonhos?

Rememoro então todas as vezes em que fomos- e somos- preteridas em entrevistas de emprego, por falta de uma boa aparência- argumento renovado pelo conceito de “não possuir o perfil desejado”- embora tenhamos forte currículo, qualificação acima da média. Penso em no quanto nossos planos de carreira ficam emperrados porque – mais uma vez apesar da forte qualificação- parece nunca chegar a nossa vez…

Mais uma vez penso em todas nós mulheres negras, que independente de nossa trajetória, não conseguimos andar altivas pelas ruas: o medo de sermos confundidas com ladras ao entramos nas lojas, a constante vinculação de nossa presença aos lugares de subalternidades, as piadas que riem de nossos cabelos, narizes e bocas. O lugar-menor que faz com que sejamos constantemente mal atendidas no comércio, que comamos comida fria no fast food ou o último prato nos melhores restaurantes.

Pensar em todos esses aspectos me leva a refletir acerca dessa perversa estrutura de sociedade que à maioria de nós roubou os nossos sonhos de menina e que quando muito, para algumas poucas, proporcionou uma melancólica versão da realidade idealizada.

A ordem racista da sociedade demarca nosso lugar dentro desse contexto, um lugar subalterno, no qual nossos corpos de mulheres negras são objetificados, nossos cabelos, bocas e narizes são animalizados e assim nossa experiência definidora para a ser a do ridículo.

Uma sociedade marcadamente racista opera o racismo institucional que faz com que reiteradamente não tenhamos acesso e/ou sejamos expulsas de serviços essenciais para o desenvolvimento de nossas potencialidades e dignidade inerente a nossa condição de humanidade:

Uma política de educação racista que não dá conta da diversidade étnico racial é produzida e produz um discurso normatizante da inferioridade para a população negra, nós mulheres negras em especial aprendemos que o valor de nossa vida encontra-se intrinsecamente relacionado ao tamanho de nossa bunda e a capacidade de possuir uma buceta quente e insaciável que promova a festa para quando quiserem festejar.

Uma política de segurança pública que continua usando a cor da pele e o crespo de nossos cabelos como elementos para reconhecimento cabal de criminosas e ameaças à ordem pública e que vincula o uso de tranças e dreads ao exercício da criminalidade, nos rouba a oportunidade de com altivez exibir a tradição e nossa ancestralidade.

Um mundo do trabalho fortemente orientado pela certeza da impunidade, tira de nós não apenas às oportunidades de crescimento como também a dignidade no exercício profissional.

E assim, nos retirando minuciosamente os principais aspectos de nossas possíveis realizações, uma sociedade racista faz com que as meninas negras, quando adultas não consigam ver em si a mulher negra que sonharam ser.

É muito triste e doloroso perceber o quanto um estado racista e uma sociedade racista, conseguem arrancar de cada uma de nós, no entanto, ao mesmo tempo em que percebo tudo o que nos foi tirado, tenho em conta que ainda estamos aqui, e estamos há muitos séculos.

Ao mesmo tempo em que essa sociedade mutilou nossos sonhos, essa vivência não foi o suficiente para nos destruir pois assim mesmo, em meio as atrocidades que demarcaram- e demarcam – a nossa existência nós resistimos! Nós nos insurgimos! E nos constituímos cada uma de nós em guerreiras.

Fazendo de nosso cabelo um instrumento político, de cada humilhação vivenciada uma denúncia, de cada oportunidade de desenvolvimento pela sociedade negligenciada uma reivindicação, como disse Maya Angelou: Ainda assim nos levantamos.

E em meio a tantas lutas, vamos aprendendo a nos amar, vamos aprendendo que juntas somos fortes e recuperamos o nosso orgulho e aos poucos nos damos conta que sim, é verdade, não somos as mulheres negras que sonhamos ser, mas hoje Somos as Mulheres Negras que Queremos Ser. Eu Sou a Mulher Negra que Eu Quero Ser. Sejamos Juntas. E em breve meninas negras, serão as mulheres negras de seus sonhos.